Um dos grandes clássicos dos quadrinhos nacionais contemporâneos é um zine grampeado. Know-Haole, a série de Diego Gerlach, nasceu em 2012 e conta com oito edições até hoje. A mais recente foi lançada há pouco tempo – e, pra comemorar, faço uma análise de todos os volumes.

O grande público, com exceção dos participantes de feiras alternativas, pouco a conhece justamente pelo fato de Gerlach incorporar a entidade artística chamada “autor independente”. Seria impossível para ele atender uma demanda maior de público, já que edita, imprime e monta manualmente todo o material lançado por sua editora, a Vibe Tronxa Comix. Mal participa de eventos de maior porte, como o FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos, em Belo Horizonte). Sua praia está em mostras como Ugra Fest e Des.Gráfica.

Mas chega de delongas. O importante é saber que Gerlach é essencial, um mestre da zombaria, o cara que melhor desenha toscamente, digno sucessor do cineasta Rogério Sganzerla na arte de colocar frases impagáveis na boca dos personagens. A seguir, todos os oito Know-Haole ranqueados do pior para o melhor, segundo este que escreve.

(OBS: como diria o crítico de cinema Sérgio Alpendre, a validade de uma lista é a data de sua publicação. Portanto, enquanto você a lê, eu provavelmente já estarei arrependido de ter colocado certo volume numa posição tão baixa – ou vice-versa).

 

8. Know-Haole #1

KH1

O número inicial sofre do “mal da coletânea”, pois reúne tiras e contos curtos de qualidade diversa. Apesar das ótimas histórias que abrem e fecham a edição (respectivamente Situação e Vae victis, panaca!), o problema está no miolo, cheio de piadas qualquer nota que, na real, não entretêm. A soma disso é um trabalho desconjuntado, merecedor do honroso último lugar. Mesmo assim, as duas tramas citadas valem a leitura: oferecem toda a molecagem pela qual Gerlach se tornaria conhecido. Aqui começa também a apropriação de personagens renomados da Disney e Hanna-Barbera em versões boca do lixo.

Melhores frases
“Claro, querido. Contanto que leve esse seu bafo de cachaça pra longe.”
“Veja bem, os apenados precisam se entreter de algum jeito!”
“Precisamos de um profissional de reputação ilibada!”

 

7. Know-Haole #6

KH6

Anacleto Fukuda, membro da Cooperativa Gesseiros Unidos de Itaquereúma dos Montes, some repentinamente. O desaparecimento faz Zito Orvales entrar numa espiral de loucura em busca do paradeiro do colega de trabalho. Gerlach já admitiu que o processo de criação foi único: copiou o layout quase inteiro de um gibi do Zé Carioca, incluindo a decupagem e posição dos personagens nas páginas. O grande problema do plot de O Poema é crescer ao longo de seu desenvolvimento, prometer muito e, na hora agá, entregar algo SEM-SENTIDO-ALGUM. Talvez o objetivo fosse brincar com a expectativa do leitor? Pode ser. Ainda assim, esse conceito não redime o final mais sem noção que as esquetes mais sem noção do Monty Python.

Melhores frases
“Uma vez ele me contou que sua primeira memória era de molhar os pés na água do mar… não sei por que isso me ocorreu agora…”
“Do que você tá falando, seu abilolado?!”
“Achei que você era tranquilo, mas olha onde você me trouxe!!”

 

6. Know-Haole #2

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A segunda edição de Know-Haole é a primeira tentativa de criar um enredo longo. Marca ainda a primeira aparição de três protagonistas recorrentes: Tenente Deoclécio, Mendigo Sem Nome e o cachorro antropomórfico Gilso, que se tornaria símbolo da Vibe Tronxa Comix (segundo o artista, surgiu de uma tentativa de desenhar um Pateta das ruas). Propriedades da hortelã coloca Gilso em meio a uma conspiração envolvendo o chá da tal planta, quase um argumento não filmado de John Carpenter nos anos 1980. As mudanças de cena são um pouco bruscas e contribuem para a sensação de falta de ousadia narrativa. Tem também uma sequência de luta um tanto desnecessária.

Melhores frases
“Charlindo, tá fazendo o que no W.C., cheirando calcinha de novo?”
“Isso foi pra tu, que é roto, aprender a respeitar o rasgado.”
“Tem um pato em óbito no meu carro!!!”

 

5. Know Haole #7

KH7

Talvez a história mais pesada da série, ao abordar temas como tráfico de drogas, pedofilia e violência. Só está nesta posição porque as seguintes na lista são realmente melhores. A ambientação de Tarado! lembra os filmes policiais americanos da década de 1970, como Operação França e Perseguidor Implacável – com a pequena diferença de inserir magia negra e substâncias hipnóticas na trama. O roteiro é muito bem amarrado: personagens aparentemente irrelevantes são fundamentais para os mistérios e pequenas viradas deixam o leitor sempre atento ao que ocorre. Outro destaque são as hachuras: os quadros estão lotados delas, quase sufocando os protagonistas em meio às noites infernais que vivem.

Melhores frases
“Será que ele age estranho porque é um alcoólatra safado?”
“Olha que lua linda! Vou me instalar e, com toda calma do mundo, carburar uma catronca sem pressa, seguro de que os tiras tão ocupados por aí!”
“Vodu, meus caros. Um misto de ciência e… magia.”

 

4. Know-Haole #3

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Gilso mais uma vez é o protagonista. Em Negativado!!, ele precisa acertar uma dívida antiga com um agiota e encarar o maior desafio de todos: a própria morte. A HQ reflete sobre a insignificância da vida e a arbitrariedade da existência em uma viagem metafísica que envolve gângsteres sem cérebro, faunos e cabeças flutuantes. Um exemplo de como ser profundo e escapista na mesma proporção, com alguns dos melhores desenhos feitos por artista.

Melhores frases
“A sorte favorece os que têm sebo nas canelas!!!”
“Sr. Del Vinagro, um sujeito me deve, mas talvez eu tenha matado esse sujeito.”
“E agora tenho minha chance de me tornar velho, gordo e complacente!!”

 

3. Know-Haole #5

KH5

A partir daqui, só obra-prima. Neste, as ações se desenrolam a mil por hora: alguém é morto injustamente por um policial e, pra piorar, a testemunha desse assassinato a sangue frio passa a ser perseguida, num jogo de vida ou morte às vésperas das eleições municipais, cuja vitória está nas mãos do atual prefeito cocainômano. A soma imprecisa de todas as escolhas feitas pode ser resumida como uma ópera da violência e da corrupção nossa de cada dia, que junta núcleos diferentes de personagens e vai, pouco a pouco, apertando a corda ao redor do pescoço deles, com o tique-taque do relógio ao fundo nos encaminhando para um final inevitavelmente trágico. Acredite: acontece muita coisa nesse volume, e tudo leva a história para rumos interessantes (apenas uma ou duas cenas destoam um pouco, mas o ritmo logo é recuperado). Fico de cara como Gerlach consegue comentar temas sérios usando gags e diálogos hilários. Um exemplo de como misturar gêneros destoantes (comédia pastelão, suspense, thriller político) com excelência.

Melhores frases
“O proletariado é a carne que a Babilônia adora moer!!”
“Tenta você passar um turno de doze horas remendando zé doidim, e aí me diz se não fica cheia de ideia torta na cabeça!”
“Você fica lendo essas bobagens!! Quer saber o que é real politik? Um cifrão do lado do outro!!”

 

2. Know-Haole #8

KH8

Mais que um enredo, uma experiência narrativa que só poderia ser proporcionada pela linguagem dos quadrinhos. Não tem segredo em Santuários & altares: um grupo de pessoas caminha por uma calçada, enquanto visitamos pensamentos ou momentos anteriores da vida de cada um – personagens que mal são nomeados, mas ainda assim ganham humanidade e complexidade. A passagem do tempo se transforma na chave para apreciar a obra. Ao longo das trinta páginas, são transcorridos poucos segundos de ação. E isso cria uma certa inquietação no leitor. Parece que algo está acontecendo e não percebemos. Então, algo realmente acontece e a HQ acaba, sem maiores explicações. Como se fosse uma vinheta ou desenho animado. É o Know-Haole mais singular, pois o único com foco no modo de narrar.

Melhores frases
“Jesus parecia o cantor daquela banda que meu filho gostava. Como era o nome, meu Deus? Karma? Buda…? O cara se matou, era drogado… Lady Zeppelin?”
“Essa merda é pegadinha?”

 

1. Know-Haole #4

KH4

O primeiro lugar não poderia ser outro. Uma das mais estranhas e desconfortáveis histórias sobre paranoia já feitas, perfeita para ilustrar o caótico cenário político-social no qual o Brasil está mergulhado há uns três anos. E essa representação já está na capa, que faz referência à briga entre Gil da Esfiha e Galerito, momento ímpar da televisão nacional e microcosmo da esquizofrenia verde-e-amarela. Eduardo Cunha é o Bandido da Luz Vermelha começa com o protagonista sem nome escutando o barulho de drones sobrevoando a rua e encontrando larvas enterradas no próprio rosto. A partir daí, dúzias de teorias da conspiração rondam a cabeça do rapaz, incluindo cutelarias da Letônia, envenenamento em massa e um governo plutocrata dominando o País. Gerlach constrói um pesadelo desesperançoso, mas ainda assim palpável – tão maluco como uma realidade em que notícias falsas, circulando por aplicativos de mensagens, pudessem decidir eleições. É o Como uma Luva de Veludo Moldada em Ferro tupiniquim, cheio de significados nas entrelinhas, comentários mordazes sobre o noticiário e genialidade.

Melhores frases
“Beba bastante água e evite toda comida temperada com cominho.”
“A programação da tarde envolvia fofocas e factoides irrelevantes sobre celebridades, e o fim do mundo parecia um prospecto dos mais vagos.”
“Porque o que acontecia muito era o seguinte… Tinha muito camarada que achava sabe o quê?! Que o arrebatamento era brincadeira!!!”

 

 

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