Li A Revolução dos Bichos para uma aula de história no ensino médio. Lá se vão longos quinze anos. Na época, começava aos poucos a encarar literatura de peso – e nada melhor que treinar com um dos escritores definitivos do século 20, o inglês George Orwell. Mas a real é que esse livro, lançado em 1945, dias antes do fim da Segunda Guerra Mundial, não tem nada de complicado ou confuso. Mesmo em formato de fábula, fala na cara do leitor o que precisa dizer.

Semanas atrás, quando peguei a adaptação de Odyr Bernardi, fiz um exercício mental para relembrar detalhes da história. Não deu. Só recordei a trama básica: os animais da Granja do Solar se rebelam contra a opressão imposta pelos humanos, tomam o poder e instauram uma sociedade igualitária – que sobrevive até os porcos, líderes do movimento, optarem por uma guinada autoritária para “resguardar” os valores da revolução.

Por isso, ver pintada uma cena em especial me pegou desprevenido. Sem entrar em detalhes, é uma sequência de violência brutal que surge sem avisar, e que minha memória tinha escondido em algum canto. Senti náuseas. Pensei no futuro do Brasil batendo à porta furiosamente. Nessa hora, percebi o óbvio: esse clássico atemporal nasceu para ser quadrinho.

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Capa de Odyr para sua versão de A Revolução dos Bichos, lançada pela Cia. das Letras

 

Mother, should I trust the government?

Orwell era um homem de esquerda, porém não fechava os olhos para os erros cometidos pelo espectro político que escolheu seguir. Isso explica suas duas mais renomadas obras (Bichos e 1984) serem críticas pouco disfarçadas aos meios de controle social da União Soviética stalinista.

Acontece que com a Guerra Fria, macarthismo e a paranoia americana antivermelha nos anos 1950, ambos os trabalhos, principalmente Bichos, tornaram-se panfletos contra o comunismo – algo jamais buscado pelo autor. Sua verdadeira intenção está numa frase do artigo Por que eu escrevo, na qual define sua filosofia pessoal: “Toda linha de trabalho sério que escrevi desde 1936 foi feita, direta ou indiretamente, contra o totalitarismo e a favor do socialismo democrático“. Orwell era antitotalitário até o osso, não se importando se a tirania viesse da esquerda ou da direita.

Sabendo disso, as obras ganham outra conotação. Transformam-se em denúncias contra a opressão ideológica e física, a manipulação das informações, a destruição de reputações, as falsas promessas, a implosão de ideais em prol de interesses sombrios. Se, segundo Jean-Jacques Rousseau, o homem nasce bom e a sociedade o corrompe, seria então o processo político a última instância da derrocada moral humana – mesmo sendo o homem um “animal político”, como definiu Aristóteles? (E, aqui, o termo não se refere apenas ao “fazer política”, mas à construção da teia social como um todo).

O escritor não responde a essa pergunta. Está mais preocupado com algo básico: corroer as estruturas autoritárias com a ajuda de sua escrita cáustica, afiada feito navalha. Bichos, por exemplo, usa uma estrutura simples para chegar a esse propósito. Não possui frases muito longas, nem construções complexas. Tudo é direto, sem meios-termos.

E o uso do texto original na adaptação de Odyr traz todo esse peso para a HQ. No entanto, ao invés de ser uma mera transposição do livro para outra mídia, ela se torna uma reconstrução do original, oferecendo novos significados (alguns já esperados, outros imprevisíveis) e fortalecendo sua mensagem.

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You have to be trusted by the people that you lie to

A pintura acrílica usada pelo quadrinista trabalha em vários níveis para isso acontecer. É detalhada no sombreamento e na textura da pele/pelos dos animais, objetos e cenários, ao mesmo tempo em que foge do realismo, graças a expressões caricatas e traços cartunescos.

Essa mistura cria uma sensação de irrealidade – mais ainda do que a irrealidade da trama. São páginas belíssimas, com painéis que poderiam ser quadros, feitas (na maior parte) de cores vivas e quentes. E nada disso casa com o que está escrito. O texto narra uma escalada autoritária pelo poder, a dissolução da democracia, a eliminação do pensamento crítico, tudo temperado pelo gosto de coturno e sangue – enquanto o desenho mostra um cavalo no alto de uma colina, com céu multicolorido ao entardecer no horizonte.

Há uma dissonância clara e, ainda assim, impossível de ser verbalizada. É um pouco como admirar uma pintura surrealista ou as capas do Hipgnosis para os álbuns do Pink Floyd. Os elementos estão em desarranjo e, por isso mesmo, não dá pra tirar os olhos deles. É quase como ser um dos animais da Granja do Solar, sem entender o que acontece ao redor. É quase como ser massa de manobra eleitoral criada para espalhar mentiras, achando que está ajudando o processo democrático.

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Only dimly aware of a certain unease in the air

Como bem disse o falecido jornalista e escritor britânico Christopher Hitchens a respeito da versão original de Bichos, “o que este livro nos diz é que aqueles que renunciam à liberdade em troca de promessas de segurança acabarão sem uma nem outra”. Esse espírito é captado, e elevado, por Odyr.

Como já disse, a HQ não se resume a ser o livro em figuras. Serve como compêndio das ideias libertárias de Orwell, tendo (enormes) méritos próprios. E ainda é publicada num momento decisivo para o entendimento de nosso país como nação independente, livre e democrática. Se precisávamos que alguém desenhasse as consequências do autoritarismo, não precisamos mais.

Porcos, não!

 

 

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