Heavy… What is it?

The stuff that dreams are made of.

Diálogo entre o sargento Tom Polhaus (Ward Bond) e o detetive Sam Spade (Humphrey Bogart) em O Falcão Maltês (1941), filme de John Huston

Não poderia haver assunto com o qual menos me relaciono que magia. Por isso, enquanto lia Promethea, me senti conduzido a fórceps por Alan Moore e J.H. Williams III por trilhas formadas pelos conceitos da cabala, cartas do tarô e iconografia católica. Admito: gostei do passeio.

Embora a série do selo America’s Best Comics, com 32 edições escritas e desenhadas pela dupla de 1999 a 2005, aborde esse tema com reverência, não é seu foco. Se existe uma semelhança entre as filosofias esotérico-religiosas, ela está na construção narrativa de seus símbolos. Esses símbolos, ao mesmo tempo, contam e são histórias (reais ou não, vai do interlocutor).

O poder transformador da capacidade de narrar, de repente, surge como mote da HQ. O mago Moore – ele mesmo um especialista em misticismo, veja só – fez em Promethea sua maior magia.

newyork

 

Pergunte a Alice
No artigo The Promethea Puzzle: An Adventure in Folklore, impresso no primeiro número da revista, o roteirista explica o “fascinante mistério literário” da personagem-título. Citada pela primeira vez num poema do fim do século 18, ocasionalmente ressurge em diferentes mídias. Jornais do magnata americano das comunicações William Randolph Hearst publicaram tiras ambientadas no lugar mágico onde a heroína vive. A antologia pulp Astonishing Stories, da década de 1920, dedicou edições e edições para tramas com a protagonista. Na sequência, vieram quadrinhos, na onda dos super-heróis da Era de Ouro – e, anos depois, reformulações de sua mitologia por artistas do nível de P. Craig Russell.

Esse texto faz o resgate histórico de um aspecto pouco recordado da cultura popular de língua inglesa, trazendo referências a datas e nomes. Minucioso trabalho de pesquisa – não fosse por um detalhe: é tudo mentira.

Promethea foi criada mesmo por Moore. O tal artigo, quase um mockumentary ao misturar ficção e realidade, continua sendo reproduzido nas coleções encadernadas (como na “edição definitiva” brasileira, da Panini). Serve como carta de intenções do autor, apresentando indiretamente as questões a serem discutidas. Se o mundo é moldado pela imaginação, pela forma como contamos histórias, nada melhor que analisá-lo por esse viés.

jhwilliams

 

Eu sou ele como você é eu
O enredo tem poucos segredos: numa Nova York futurista e científica, a universitária Sophie Bangs passa a ser incorporada por uma entidade mística atemporal, a Promethea, que toma o corpo de quem cria obras em sua homenagem (poemas, contos, músicas, desenhos etc.). A partir daí, a garota encara perigos e aprende sobre a existência enquanto o apocalipse se aproxima.

Na superfície, isso é tratado como se fosse um gibizão de super-herói. Os clichês estão lá, incluindo origem misteriosa, identidade secreta, vilões que pretendem dominar o planeta. Por outro lado, o roteiro se aprofunda na psicodelia conforme Sophie/Promethea se aprofundam na Immateria, o local (ou estado de consciência?) onde a fantasia criada pela mente humana vive.

Essa dualidade entre a razão e o inexplicável é o gatilho para trazer à pauta uma temática relevante para a sociedade moderna – mais que na época em que a série era publicada: a batalha entre real e ficção.

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A grande festa no céu
Em determinado momento, certo personagem faz uma digressão chave para se entender a proposta dos autores. Diz que qualquer coisa, viva ou inanimada, é apenas um pensamento, uma ideia, uma ficção, antes de existir no plano físico. Fazendo um exercício simples, o ponto de vista se mostra coerente. O argumento da obra, o papel sobre o qual foi impressa, eu (o dono deste blog), o computador usado por mim pra digitar este texto, o conceito de eletricidade que ligou o computador, você: tudo (tudo mesmo) era uma imagem abstrata na cabeça de alguém até tomar forma. O conhecimento humano, então, se baseia na imaginação. Se não pudéssemos imaginar, teríamos perdido o bonde da evolução.

Existe ainda uma “categoria do pensar” que define a essência humana, a arte. Alguns animais até produzem algo semelhante, mas não dá pra equiparar, por dois motivos. Primeiro: desde os tempos das cavernas, criamos para nos eternizar, para contornar a efemeridade da vida. Segundo: criamos para compreender o mundo ao redor, para criar novas métodos de observar e encarar os fatos. Ou seja, a arte serve para narrar nossa jornada. Tem, portanto, função semelhante à dos símbolos esotérico-religiosos – seriam eles ramificações do processo artístico?

Podem-se estabelecer outras relações, como imaginação-progressismo-liberdade. Não à toa, os inimigos da protagonista são um grupo de linhagem antiga, guardião das “tradições”, retrógrado até o osso, contra a criatividade. Mais contemporâneo, impossível.

A HQ exala otimismo ao considerar que a ficção (em outras palavras, a arte) seria um modo de elevar a humanidade, pois viver é um exercício constante de construir ficções. Os próprios desenhos de Williams III encapsulam esse conceito – misturam técnicas e cores, explodem em diagramações inventivas e complexas. No entanto, essa abordagem solar vai de encontro a outro clássico dos quadrinhos americanos, escrita vários anos antes pelo aprendiz e rival de Moore, Grant Morrison.

Em Homem-Animal, o escocês destila cinismo sobre a relação do leitor com a ficção – para ele, um jeito rasteiro de satisfazer desejos mundanos por entretenimento/ação a qualquer custo. O ato de narrar não teria nada de transcendente; pelo contrário, é baixo. Manipula o interlocutor, cegando-o para as artimanhas utilizadas pelo narrador. E esse argumento pode ser levado a outros campos, como as relações políticas e sociais. A “Guerra ao Terror” de George W. Bush, as fake news de Trump e a agenda conservadora mundial também são construções fictícias e, mesmo assim, possuem público cativo. Morrison tinha razão, apesar de Moore não estar errado.

moore

 

Eu consigo ver por milhas
Todas essas questões são trabalhadas de forma subjetiva – embora não seja difícil enxergá-las. O lado místico do enredo já é mais evidente, até pelo fato de conduzir vários subplots da trama. Sophie/Promethea passeiam pela história do universo segundo o tarô (edição #12, uma experimentação de linguagem magistral), sobem os níveis da árvore da vida da cabala, encontram Jesus Cristo crucificado.

As religiões e devoções servem para outra consideração relevante. Moore deixa claro que elas funcionam num plano diferente – o da consciência. Ter fé (não importa em que) pode ativar circuitos de recompensa no cérebro humano, segundo neurocientistas, tal como fazem as drogas – e as experiências alucinógenas estão presentes em certas cenas, recordando a ligação ancestral entre divindades e estados alterados da mente. Talvez o misticismo represente o exemplo máximo da capacidade de se criar histórias, pois se liga a sentimentos primais.

Ao mesmo tempo, o roteiro deixa um conselho – e cabe ao leitor segui-lo ou não. As relações interpessoais e a tecnologia nos afastaram da necessidade de olhar para as demandas espirituais. É preciso esquentar novamente essa relação por um motivo simples: nós somos o divino. Assim como deuses, moldamos vidas, ficções, histórias. E voltamos à ideia principal, como o símbolo do infinito, que perpassa a obra inteira. O início é o fim, que é o início de novo.

O apocalipse que ameaça a Terra ao longo do gibi não representa o fim físico, mas uma mudança de pensamento, apontando para uma nova realidade, um novo ciclo, uma nova Promethea. A viagem do mago inglês pode ultrapassar o limite da verborragia e da autoindulgência de vez em quando. Porém, ouçamos o que ele tem a dizer.

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