Maus, a seminal obra de Art Spiegelman sobre os traumas do Holocausto, era o único quadrinho de grande extensão (a.k.a graphic novel) vencedor do Pulitzer, o renomado prêmio americano concedido a trabalhos de excelência nas áreas de jornalismo, literatura e música. Ênfase no “era”.

Semana passada, Welcome to the New World, série semanal em vinte partes publicada pelo jornal New York Times em 2017, foi premiado na categoria de charges e tiras. Seu tema não poderia ser mais atual: dois irmãos sírios, Jamil e Ammar, fugindo da guerra civil no país, tentam recomeçar a vida ao lado de suas famílias nos Estados Unidos de Donald Trump.

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Os criadores dessa reportagem em quadrinho são o jornalista Jake Halpern e o ilustrador Michael Sloan. O contato deles com os biografados foi próximo – fizeram parte até mesmo do time de boas-vindas que os recebeu no aeroporto em novembro de 2016. Em encontros realizados ao longo de vários meses, os criadores entrevistaram essas pessoas, com o objetivo de revirar o passado para entender o presente.

Descobriram, por exemplo, que os irmãos haviam sido torturados pelas forças do ditador Bashar al-Assad – Jamil ficou com dores crônicas nas costas após o episódio. Evidenciaram a dificuldade em encontrar trabalho e moradia. Presenciaram uma ameaça de morte, anônima, via telefone, contra Ammar, esposa e cinco filhos (“Eu vou cortar sua cabeça e matar toda sua família. Te dou 24 horas pra deixar a América, ok?”).

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Mas também encontraram cidadãos dispostos a se doar pelo próximo. Como o corretor de imóveis vietnamita que sabe o que é estar longe de casa, ou as várias pessoas comuns envolvidas com a agência americana responsável pelo reassentamento de refugiados, todas generosas o bastante para acolher estranhos como se fossem familiares. As cicatrizes ficam para sempre – mas a dor é aliviada enquanto se renasce para uma nova jornada em outro canto do mundo.

Halpern e Sloan constroem essa história em tom menor, com base na sutileza – espelhando o comportamento amigável e discreto dos sírios. Não existem grandes arroubos criativos na obra. E nem precisava. Com rimas visuais inteligentes, pontuados por silêncios pesados, os autores dizem o que precisam dizer. Ou melhor: dão voz a quem precisa falar.

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Conversei com Halpern por e-mail para saber sua opinião sobre jornalismo em quadrinhos e a emoção de receber um prêmio tão relevante para a cultura mundial. A conversa, bem breve, segue abaixo.

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Jake, de vez em quando, algum veículo de comunicação de grande porte, como foi o caso do New York Times, aposta nos quadrinhos como forma de fazer jornalismo. No entanto, é sempre algo pontual, sem continuidade. Claro que seria impossível produzir HQs desse tipo diariamente, pois a produção toma tempo. Você acredita que a mídia como um todo poderia investir mais nessa linguagem, seja para criar suplementos especiais ou contar histórias importantes de um jeito impactante?

Não há dúvidas que outros jornais e veículos poderiam fazer mais projetos desse tipo. O necessário pra isso acontecer são editores dispostos a pensar fora da caixa e empresas dispostas a pagar. Bom jornalismo não é de graça. Consome tempo e esforços relatar, esboçar uma história, desenhar as figuras. Tenho esperança que esse Pulitzer encoraja o Times e outros espaços a fazer esse investimento.

Reportagens em quadrinho podem se tornar uma tendência na mídia?

Sim! O que me marcou em nossa série foi o alcance do público que a leu, de crianças até avós. A arte torna as tramas acessíveis. Acredito que essa seja a solução perfeita para veículos de notícias interessados em aumentar a audiência.

Como foi o trabalho com Michael Sloan? Ele também o acompanhava nas visitas?

Foi maravilhoso trabalhar com Michael. Ele é esperto, generoso e muito talentoso. E, sim, ele foi comigo encontrar os sírios quando chegaram aos Estados Unidos e em alguns outros encontros também. Nós fomos um time. Nunca tinha trabalhado com ele antes desse projeto, mas agora somos grandes amigos.

Qual o maior aprendizado (pessoal e profissional) durante o período em que teve contato com as famílias?

Paciência. Aprendi o valor de apenas sentar, ouvir e permitir a mim mesmo conhecer aquelas pessoas, de forma gradual, lentamente. A história funcionou porque as famílias confiaram em mim, mas essa confiança foi conquistada, não aconteceu de repente, e isso demandou paciência.

Qual o sabor de ser um vencedor do Pulitzer?

Tem sido muito emocionante. Quando eu recebi a notícia, estava com minha família embarcando num avião. Lágrimas rolaram pelo meu rosto. Minha esposa perguntou “o que aconteceu?” e eu disse “nós ganhamos o Pulitzer”. Então, eu liguei pra minha mãe e a agradeci por todo o apoio. Foi um momento bonito que jamais esquecerei.

 

Clique abaixo para ler a obra na íntegra (em inglês).

 

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