O americano Ed Piskor nasceu pra contar histórias que se desdobram ao longo de décadas. Nas tiras de Hip Hop Family Tree, narra a trajetória do maior movimento cultural dos últimos quarenta anos, o hip hop. Começa nas festas de bairro com música, dança e arte em Nova York no final dos 1970 e vai até a dominação das paradas mundiais com o rap.

X-Men: Grand Design segue pelo mesmo caminho – transformar o histórico de um tema complexo numa única linha temporal harmoniosa. No caso, a caótica cronologia dos mutantes da Marvel, criados por Jack Kirby e Stan Lee em 1963. Pareceria exagero se eu escrevesse que o projeto reúne maiores dificuldades do que se meter com grafite, breakb-boys, DJs scratch.

Não é.

granddesign_capa

Capa do encadernado americano, em tamanho gigante, que reúne as duas edições de Grand Design lançadas até o momento

 

A maldita cronologia

Imagine um roteirista contratado pra escrever algum título do “universo X-Men”. Esses personagens têm mais de meio século de histórias em revistas mensais (ou quase, pois nos dois primeiros anos a publicação era bimestral). É necessário levar em conta tudo que veio antes? Dá pra deixar de fora acontecimentos menores? O que fazer ainda com prequelas, continuidade retroativa etc.?

Fato: o peso cronológico transformou-se num dos maiores limitadores da criatividade em gibis de super-heróis. Os diálogos entre editores e artistas devem incluir uns “veja bem, caro escritor, isso não pode, pois irá contradizer dois quadros da página 17 dum livro de mil novecentos e doze. Pense noutra solução.”

Entra, então, Piskor. Amante assumido dos mutantes desde criança, quando fazia os próprios quadrinhos, ofereceu à Marvel um projeto ousado, cria inteira dele: resumir, em somente seis edições, todas as aventuras vividas pelos personagens durante o período mais famoso da série, de 1963 até 1991. Algum problema na cronologia? Ed vai resolver pra você.

Por enquanto, um terço da obra foi lançada. Em oitenta páginas, Piskor comprimiu o conteúdo de anos de tramas sem deixar a coisa ininteligível. Foram embora a gordura textual, redundâncias, soluções forçadas de roteiro. Ficaram apenas os elementos relevantes do enredo. Teria como o resultado ser outro que não uma HQ com desenvolvimento veloz e citações a rodo?

Não teria. Essa é a graça.

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Combate psíquico mortal numa das melhores páginas de Grand Design. Sem texto, mas com muitas informações para serem lidas, como a tenacidade do jovem Charles Xavier contra a baixeza do inimigo. O fim da cena ainda é pontuado por um delicioso detalhe: o chapéu caindo da cabeça do vilão

 

O “projeto grandioso”

Grand Design poderia cair na vala comum do apelo para a nostalgia. Ser apenas uma enciclopédia para velhos fãs – seu próprio conceito leva a esse entendimento. Porém, quem ler (e essa prova dos nove é sempre infalível) encontrará uma HQ que funciona em dois níveis: o do entretenimento e o da linguagem. É pura alegria no formato de uma narrativa com estrutura própria e coerente.

Piskor faz duas escolhas sábias. Primeira: coloca Uatu, o Vigia como narrador onisciente – o que automaticamente explica a presença de recordatórios com palavras rebuscadas, pois o personagem é uma espécie de observador da humanidade.

Segunda (e mais importante): faz de cada página um capítulo completo da história, no estilo de tiras gigantes – palavras do próprio autor. O esquema básico da tira está lá: apresentação do tema, desenvolvimento da ação, conclusão da ideia. Esse ritmo é a chave da obra. Pela quantidade de informação, o leitor precisa de um respiro, processar o que acabou de ler.

Nesse sentido, a edição #1 é um primor de cadência e construção das motivações do elenco. Costura as primeiras histórias da Marvel na década de 1940 à origem do preconceito em relação aos mutantes, enquanto reconta sem pressa os primeiros passos de Charles Xavier na ciência, a fuga de Erik Magnus Lehnsherr (ainda longe de se transformar no vilão Magneto) das garras do nazismo, a descoberta de poderes físicos e psíquicos por parte de Jean Grey (Garota Marvel/Fênix), Scott Summers (Ciclope), Hank McCoy (Fera) etc.

Na edição #2, outros personagens aparecem, os fatos se desenrolam com velocidade e o andamento fica frenético – mas não necessariamente melhor. É compreensível: tendo que citar uma quantidade enorme de nomes, lugares e situações, Piskor precisa abrir mão do desenvolvimento de antes. Fosse escola de samba, perderia alguns décimos no quesito “evolução”. Porém, apesar de derrapar num momento ou outro, a diversão se mantém lá em cima.

(E um projeto como esse acaba sendo um comentário jocoso sobre o funcionamento da indústria de super-heróis desde sempre. Pra manter a máquina de produção rodando, tonelada de conteúdo sem critério é produzida. Precisa mesmo existir revistais mensais hoje em dia? O formato não poderia ter sido revisado há tempos?)

magneto

Enquadramentos a partir do ponto de vista de Magneto (percebam o formato do capacete dele). A inventividade do artista não tem fim

 

A caixa de ferramentas de Piskor

Uma das características de Hip Hop Family Tree era a criatividade das técnicas aplicadas ao desenho – retículas, colorização saturada. Isso tudo volta em Grand Design, com ainda mais atenção para a estética da página.

phoenix

Linhas de movimento dão agilidade à ação. E olha o uso do nanquim branco: as imagens parecem saltar na direção de quem lê

banshee

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A ação jamais fica limitada ao tamanho do quadro. Sempre que necessário para a cena, como nos exemplos acima, personagens e objetos vazam pelas bordas

x-men

scott

Certas imagens de grande impacto dramático ficam soltas na página, fora do requadro

misseis

X-Men Grand Design CR: Marvel

Aqui e acima, a composição do desenho faz o olho passear por todo o quadro. Arte dinâmica, que pede a participação do leitor pra ser apreciada

chess

Manipulação do tempo: o quadro do meio, sem falas, tem duração indefinida. Você pode olhar pra ele rapidamente e passar para o próximo. Ou gastar alguns momentos a mais ali. A tensão do debate (e da partida de xadrez) entre Xavier e Magnus repousa sobre a imagem do tabuleiro

jean

 

X-Men: Grand Design está em hiato: partes 3 e 4 serão publicadas no verão americano, entre junho e agosto. A expectativa é que o quadrinho esteja concluído no fim deste ano.

 

uatu

 

 

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