Em abril, quando O Idiota chegar às lojas, André Diniz terá lançado três quadrinhos inéditos em cerca de quatro meses (os outros são Matei Meu Pai e Foi Estranho e Olimpo Tropical). Momento iluminado vive esse carioca, dono de um dos estilos de desenho mais reconhecíveis entre artistas nacionais.

Morar em Lisboa nos últimos anos não retirou de André a principal característica de seus roteiros: abordar assuntos estritamente brasileiros. A luta social nas favelas ou a vida em uma metrópole como São Paulo são contadas com tintas de quem entende a fala, o gosto, os cheiros tupiniquins.

Por isso, surpreende sua escolha de adaptar o maior escritor russo de todos os tempos, Fiódor Dostoiévski, um colosso da literatura mundial. O Idiota, de 1869, pode ser tudo, menos brasileiro. Mostra a aristocracia de uma sociedade rural em pleno século 19, cujo protagonista é um príncipe epiléptico.

A versão em HQ ficou quase tão grande como o clássico, um catatau com mais de seiscentas páginas. E essa talvez seja a única semelhança entre as versões, pois não poderiam ser mais diferentes. Sai a verborragia psicológica, densa, do livro e entra uma narrativa sem diálogos. Das 416 páginas do quadrinho, apenas 95 têm palavras. Trabalho hercúleo de decupagem para alterar completamente a linguagem da obra – seria como transformar o roteiro de um filme mudo de Charles Chaplin numa screwball comedy cheia de falatório dirigida por Howard Hawks.

Por não depender do diálogo, André constrói a adaptação em cima de olhares, expressões e movimentos corporais. O corpo dos personagens se torna condutor de sentimentos, num exercício brilhante de construção visual para demonstrar temas universais como bondade, amor, submissão e exploração.

Para entender melhor as escolhas artísticas em relação a O Idiota, conversei com o autor por e-mail. Ele, que mora em Lisboa há algum tempo, estará no Brasil em abril para o lançamento do quadrinho, que saiu primeiro em Portugal no ano passado. É, desde já, uma das grandes obras nacionais de 2018.

 

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Capa da edição nacional de O Idiota, publicação da Cia. das Letras

 

André, a mais forte característica de sua obra é abordar questões brasileiras. Então, por que adaptar uma obra tão distante de nossa cultura?

O pontapé inicial nessa ideia foi o mais fácil de se imaginar: poucas vezes me senti tão fascinado com uma história e seus personagens. Ao terminar a leitura, estava decidido a trabalhar com aquilo de alguma forma.

A minha constância em usar temas bem brasileiros não é exatamente uma questão de nacionalismo, dever ou obrigação. Escrevo sobre algo sempre que acho que tenho algo a dizer, e foi o que aconteceu com essa adaptação. Até porque ela se passa em outro cenário, mas o foco ali não é a Rússia: são os personagens e suas fraquezas, ódios, ingenuidade. Amor, obsessão, inocência: assuntos universais.

Mas, o Brasil não sai de mim. Mesmo estando em Lisboa há dois anos, os quatro roteiros que escrevi desde então (Matei Meu Pai e Foi EstranhoMalditos Amigos, que é meu próximo lançamento; e outros dois ainda inéditos) situam-se nas metrópoles brasileiras. Não tenho propriedade para falar de Lisboa numa HQ. Ainda possuo um olhar de deslumbramento, quase de turista. Assim, essa Lisboa no meu quadrinho seria óbvia e rasa.

Numa história em São Paulo ou Rio, eu consigo, por exemplo, criar um personagem que diz que odeia a cidade – e o leitor vai perceber que, por trás desse discurso, pode haver um amor incondicional por aquele lugar. Ou não. Esse grau de intimidade eu só consigo com Rio ou São Paulo, cidades nas quais vivi e que odeio e amo, tudo junto e misturado.

Já que você comentou da proximidade que tem com nosso País: como foi lançar um trabalho em outro local que não o Brasil? Havia um desejo inicial de publicá-lo por aqui também?

A minha cabeça não mudou nesse sentido. Ainda escrevo e desenho como um brasileiro, com olhar brasileiro e linguagem do Brasil. Já notei, inclusive, que isso não me afasta do leitor estrangeiro, pelo contrário. O Idiota saiu antes em Portugal por uma questão de programação das editoras, pois o contrato com a Cia. das Letras tinha sido assinado muito antes. E nem foi a primeira vez que uma HQ minha é publicada antes na Europa. Isso aconteceu também com Duas Luas, lançada enquanto ainda morava no Brasil. E aqui aconteceu, mais uma vez, por questões práticas.

O leitor brasileiro nunca estará em segundo plano, nunca. Uma obra minha que seja publicada em outros países, mas não no Brasil, vai ser sempre uma obra inacabada. Dito isso, já criei um vínculo forte também com Portugal, com amigos do meio das BDs (as “bandas desenhadas”, como são chamados aqui os quadrinhos) e com leitores.  O carinho com o qual o trabalho é recebido já me faz pensar em portugueses e brasileiros indiscriminadamente.

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Voltando para o Dostoiévski… A condução de O Idiota me lembrou um pouco a encontrada em Noites Brancas, livro que também conta com personagens de certa forma ingênuos, movidos por sentimentos puros, em estado bruto.

Dá pra fazer um paralelo, sim. Embora, em Noites Brancas, estejam talvez os personagens mais leves do Dostoiévski. O príncipe Míchkin, o “idiota”, é uma pessoa realmente do bem, mas jogada em um mundo sombrio. Foi isso que me arrebatou.

E qual a responsabilidade de um autor quando se mete com um clássico dessa estatura? É possível encarar uma obra assim de igual pra igual?

Toda a criação da HQ baseou-se numa convicção: a adaptação não pode ser uma versão com desenhos do livro original. Quem lê a HQ não está lendo o clássico – e seria até uma pretensão arrogante de minha parte tentar algo nesse sentido. São duas experiências diferentes e fiz questão de marcar isso ao máximo.

Talvez isso fique mais evidente na decisão de fazê-la quase sem textos, partindo de um original maravilhosamente verborrágico. Nisso, tudo fica às claras ao leitor: o quadrinho não é um resumo. Até porque se for para ler o original, ele tá ali, nas livrarias, acessível a todos.

Já que citou a questão da narrativa sem diálogo: apesar de ser sua obra mais longa, a leitura dela é muito rápida. Imagino que o processo de transformar o texto de Dostoiévski em imagens tenha sido bem complexo…

Sem dúvidas. É uma métrica bem diferente. Cada cena precisa se esticar em mais quadros, ou o leitor nem percebe que algo aconteceu. Se formos lembrar que as imagens têm ainda a missão de transmitir sentimentos, pensamentos e reações que eram descritas por meio de palavras, isso só torna mais complexo o trabalho de transição dos quadros.

O número grande de páginas está diretamente ligado a isso. A decupagem foi conturbada, o roteiro teve mil versões diferentes – ainda mais se considerar cada vez que eu pegava o que tinha em mãos e mexia, e reduzia, e acrescentava, e reduzia de novo. Mas isso me ajudou no caminho que queria: esquecer aos poucos a narrativa original, mantendo a essência, para reescrevê-la para a linguagem das HQs.

E essa questão do tempo de criação de uma HQ versus o tempo de leitura tem um lado ingrato. Leva-se um, dois anos, às vezes, para construir algo e o leitor lê esse trabalho em meia hora. Lembro que a Laerte comentou sobre isso numa entrevista bem antiga. Só que tem HQs da Laerte que foram lidas em cinco minutos, mas comentadas e lembradas ao longo dos trinta anos seguintes. Então, a leitura deu-se em cinco minutos? Ou em trinta anos? Eu repeti essa linha de raciocínio pra mim mesmo umas duzentas vezes enquanto desenhava O Idiota. Caso contrário, talvez desistisse no meio do caminho.

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E vale comentar que a produção de O Idiota foi realmente longa, também pelo fato de você ter sofrido de depressão durante alguns anos. Como foi esse momento de sua vida?

Gosto de falar abertamente dessa questão da depressão, que me derrubou por uns dois, três anos, até porque esse tempo teria sido menor se eu tivesse mais informação sobre o assunto.

Estava numa ótima fase da vida, por ironia num período em que quase tudo dava certo. Porém, cada vez mais, eu me sentia anestesiado e indiferente a todos. Coisas maravilhosas aconteceram nesse período e eu reagia apenas com um “ok”. Junto a isso, surgiu uma estafa crônica física e mental, que minaram minha memória, foco e concentração. Não levantava do sofá e sequer ligava a TV pra ver uma série qualquer, porque isso seria um esforço enorme. Ler, responder mensagens, escrever o que fosse ou mesmo ter um diálogo com alguém eram tarefas impossíveis. Acontece que eu não sentia tristeza, e por isso demorei a descobrir o que era.

Comecei o roteiro de O Idiota em 2011, e até 2013 já tinha mais de cem páginas prontas. Foi quando parei pela depressão. Em 2016, quando terminei o tratamento que me tirou desse buraco, olhei aquelas páginas e já não me agradavam. Reescrevi boa parte do roteiro, joguei aquilo tudo fora e recomecei a desenhar do zero. Foi a decisão mais acertada.

Eu queria comentar um pouco sobre como os temas do livro original continuam atuais. O protagonista é uma pessoa boa que se vê sufocada graças ao conservadorismo e falta de empatia da sociedade ao redor, situação que continuamos a viver hoje. Pra você, quais lições o clássico ainda pode nos ensinar?

Confesso que são poucos os autores dos quais li várias obras seguidas. Mas Dostoiévski está nessa lista, e no topo. Acho que nunca vi, nem antes nem depois, personagens tão verdadeiramente humanos, no que isso tem de bom e de ruim ao mesmo tempo. Personagens com todas as dimensões possíveis, que nunca perdem sua coerência. Essas criações vão ser eternamente atuais, quer se leia hoje ou daqui a duzentos anos. Os indivíduos mudaram pouco e as sociedades também, infelizmente. É possível apontar alguns avanços pontuais, mas na essência, as pessoas ainda são as mesmas.

Acho que não havia espaço para alguém como o príncipe Míchkin nem mesmo naquela época. E olha que tinha dinheiro e uma certa posição social herdada. Aliás, nem sei se a maior questão era a sociedade, o sistema. O inferno ali é, acima de tudo, o egoísmo, a inveja, o preconceito, a hipocrisia. Tudo de pior que o ser humano tem, desde antes de inventar qualquer sistema que fosse.

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Em matéria recente de O Globo, o jornalista cita que seu desenho tem influências de arte africana e xilogravura (gravação em madeira). Qual a técnica usada pra essa HQ?

Praticamente todas as que fiz foram feitas de forma digital. Essa foi a minha primeira totalmente desenhada em tablets. Primeiro, num da Samsung, e a partir de um ponto, com o iPad Pro. Não quero outra vida! Posso pegar o tablet, levar pra um café e trabalhar lá. Meu estúdio cabe numa bolsa.

Uma última curiosidade: algo que chamou minha atenção foi o padrão de desenho usado para mostrar a epilepsia se manifestando no protagonista, formado por hachuras e asteriscos, como se a imagem estivesse tremendo, inconstante. Você conseguiu transformar a doença em algo sempre à espreita, esperando para atacar. Como chegou a essa solução gráfica?

Olha, eu poderia dar mil explicações pra tornar a resposta mais interessante. Mas vamos à verdade: eu simplesmente não me lembro! Essa forma de ilustrar a ameaça constante das crises de epilepsia do personagem já estavam ali desde os primeiros esboços. Daí, já rolaram tantas água… A história, os desenhos e a minha própria vida pessoal já mudaram tanto nesse período que eu não saberia agora recompor o processo inicial de criação.

No entanto, posso enriquecer com uma curiosidade: foi no hiato entre a versão 1 e 2 da obra que descobri que, assim como o protagonista, eu tinha desde criança (e continuo a ter muito eventualmente) manifestações de um tipo de epilepsia. Eu também sou epiléptico, olha que doideira… Num grau brando, claro, que nunca atrapalhou a minha vida, salvo algumas situações em que fiquei um minuto sem conseguir prosseguir uma conversa. Isso explica em parte minha identificação com o personagem e talvez tenha influenciado na forma de retratar suas crises.

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