Tem uma geração de jovens artistas por aí atualizando os conceitos da linha clara, o renomado estilo de desenho desenvolvido pelos franco-belgas Hergé (criador de Tintim), Bob de Moor, Alain Saint-Ogan e outros, no fim da primeira metade do século 20. Dois exemplos são o americano Benjamin Schipper e o francês Bastien Vivès, que misturam as características desse movimento (arte-final com linhas finas, cores chapadas, sombras sem o uso de hachuras) com a linguagem narrativa dos quadrinhos independentes dos EUA, principalmente os surgidos nos anos 1990.

Tem ainda uma monstrinha italiana por aí, nascida em Milão, fácil um dos maiores talentos surgidos no país da bota em não sei quantos anos, que também utiliza traços daquelas duas escolas. Chegou a hora: precisamos falar sobre Bianca Bagnarelli.

A rotina do cotidiano

Histórias curtas contando momentos quietos do dia a dia, geralmente desinteressantes para quem não os vive, mas transformados em situações grandiosas do ponto de vista emocional. Bianca deve ter lido muita coisa do Adrian Tomine quando menina (se bem que ainda é menina, só 29 anos).

Assim como o genial cartunista americano, ela está atenta ao mundano, aquilo que passa despercebido ao olhar desatento. É a mãe se despedindo do filho prestes a viajar, a busca desesperada pelo cachorro perdido, a adolescente apaixonada em segredo pela amiga da escola, uma brincadeira de mal gosto entre colegas.

Tudo tratado com sutileza, ações dizendo mais que palavras – aliás, Bianca gosta de reduzir o diálogo ao necessário; com isso, a diagramação e a transição entre quadros acabam sendo tão importantes como o texto. Veja em Say Hi For Me como funciona a típica HQ da quadrinista (por coincidência, totalmente sem falas).

 

Yes or No segue a mesma toada: os enquadramentos revelam tudo que precisa ser revelado sobre as personagens.

 

Ano passado, a artista participou de edição especial da The New York Times Magazine, formada por histórias reais de moradores da metrópole adaptadas para quadrinho. Clique pra ler a versão da italiana a respeito de um bairro do Brooklyn mobilizado para encontrar um cãozinho que fugiu de casa. Suas características marcantes continuam aqui: poucas falas, o cenário fazendo os personagens ficarem menores (no sentido literal e figurativo).

Mas nem só de tramas melancólicas e bonitinhas vive sua obra. Bianca sabe ser dura como pedra, atingindo o leitor em cheio, como se fosse trator. As duas HQs abaixo, a segunda delas formada praticamente por apenas um quadro, deixam o sentimentalismo de lado – e um gosto bem amargo na boca.

(Obs: caso não seja possível ler os balões, abra as imagens em outra aba do navegador)

 

Temas agudos estão presentes ainda nas únicas tramas longas que já produziu até hoje. Fish, lançada pela editora inglesa Nobrow, trata de um filho lidando com a perda dos pais após um acidente de carro. Daughters, publicada pelo selo italiano Delebile, aborda a relação complexa entre pai e filhas.

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A edição de Fish está esgotadíssima em lojas online e na própria Nobrow. Torcer por uma reimpressão

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Nome grande no mercado editorial

Bianca colabora ainda com vários veículos de alcance mundial, como as revistas The New Yorker e Wired e o jornal The New York Times. Ela faz ilustrações para artigos opinativos, contos de ficção e reportagens científicas.

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Coover-The-Boss

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E suas artes estão longe de serem desenhos estáticos. Os exemplos abaixo mostram a habilidade para criar narrativas gráficas completas em espaços reduzidos.

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A mórbida preparação de uma receita…

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…e a solidão de uma garota em relação ao aborto. Pequenos dramas e tensões que se desdobram de forma silenciosa. Bianca segue aqui os passos de Chris Ware pra fazer HQs minúsculas

 

Aos interessados: no Tumblr dela, dá pra ler mais trabalhos curtos (como os encontrados aqui e aqui). Agora, é aguardar por mais material da autora, principalmente uma obra de fôlego.

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Um comentário sobre “Precisamos falar sobre Bianca Bagnarelli

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