Personagens com formas simples, sem expressão, envolvidos em discussões mundanas sobre livros, arte e ciência, sempre com um humor sarcástico que mistura alta e baixa cultura, literatura chique com ficção científica barata.

Os leitores dos jornais Guardian New York Times e da revista New Scientist estão acostumados a ver, quase semanalmente, essa salada deliciosa feita pelo escocês Tom Gauld. No Brasil, nenhum livro dele foi publicado, somente tiras na revista piauí – mas, com o mercado aquecido por aqui, isso deve mudar: o artista é fácil um dos principais cartunistas do mundo atualmente.

autoretrato

Tom Gauld por ele mesmo

 

A terceira via das tiras
Generalizando bastante, dá pra dizer que existem dois tipos de cartunistas: aquele com personagens fixos contando histórias ao redor deles (Bill Watterson, Charles Schultz, Jim Davis) e o voltado para comentários políticos sobre a sociedade (Bruno Maron, Ricardo Coimbra). Alguns até transitam entre os dois modelos (Angeli, Laerte). Gauld, no entanto, tem um trabalho tão único a ponto de não se encaixar em nenhum.

As pautas do noticiário dificilmente são temas para ele. Prefere fazer graça em outro campo, o da leitura. Suas tiras abordam “questões literárias”: o processo de escrever ou editar uma obra, escritores renomados e personagens clássicos, clichês de gêneros, a maleabilidade da língua em tempos de Internet etc.

Vê-se então James Joyce ao lado de robôs futuristas tirados do sci-fi mais fuleiro; as irmãs Brontë em videogames; protagonistas de épicos preocupados se a adaptação para a TV das obras das quais participam será fiel ao material original. O erudito e o popular são duas faces da mesma moeda – e é possível rir de ambos.

Abaixo, uma amostra da anarquia cultural criada por Gauld (clique nas artes para vê-las em tamanho maior).

 

 

 

Dois livros lançados pela Drawn + Quarterly compilam parte do material feito para jornais e revistas: You’re All Just Jealous of My Jetpack (de 2013) e Baking With Kafka (2017).

Narrador do mundano
Mas nem só de tiras vive Gauld. O autor já se mostrou um brilhante narrador silencioso em duas graphic novels: Goliath (de 2012) e Mooncop (2016).

A primeira reconta a história bíblica de Davi e Golias a partir do ponto de vista do gigante – que, nessa versão, era apenas um funcionário administrativo, e pacifista, trabalhando para o rei dos filisteus. Duas características já aparecem nessa obra: o humor melancólico (que junta gags visuais com questões existenciais) e cenas sem diálogo.

O quadrinho seguinte é uma pequena pérola sobre solidão. O título faz alusão a um policial lunar (cujo nome não é revelado), membro da força responsável por manter a ordem em nosso satélite natural. Só existe um problema: não existem crimes para serem resolvidos na Lua. Como se isso não bastasse, a maioria das pessoas está voltando para a Terra – e o protagonista precisa ficar em um lugar sem nada pra fazer.

Em meras noventa e poucas páginas, Gauld analisa o impacto negativo causado pelo isolamento e também a importância do contato com o outro. Nós, humanos, temos a tendência de não olhar com ternura para as pequenas coisas boas da vida. Apesar dos momentos ruins, sempre existe uma forma de se escapar da rotina maçante.

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Capa de Mooncop, publicação da Drawn & Quarterly

mooncop

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Mooncop_página2

 

Mais histórias e ilustrações
Em 2017, o artista ilustrou uma história real de um morador de Nova York publicada num suplemento de quadrinhos do New York Times. Clique abaixo para lê-la na íntegra.

Ele também faz ilustrações para outros veículos de peso – como essa capa para uma edição da New Yorker de dezembro passado. Incrível como todo um contexto pode ser comprimido em uma única imagem, praticamente contando uma história sem necessitar de outras ferramentas narrativas.

newyorker

 

Pra finalizar esse passeio por sua carreira, vale mencionar um projeto experimental lançado em 2015, chamado Endless Journey, que mostra o tamanho da inventividade desse rapaz. Trata-se de um myriorama, invenção francesa do século 19 que consiste numa coleção de cards a serem colocados na ordem em que se quiser para formar diferentes imagens.

A série feita por Gauld homenageia as obras do escritor irlandês Laurence Sterne. Com os doze cards da coleção, é possível criar 479.001.600 imagens. Se alguém conseguir checar se o número está correto, me avise, por favor.

endlessjourney

Alguns cards de Endless Journey

 

 

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