Quando Mark Millar se interessa em criar boas histórias, não apenas produtos para serem transformados em filmes e séries de TV, ele faz coisas como Superman – Entre a Foice e o Martelo. Não que essa minissérie, mostrando o Superman crescendo na União Soviética em vez de nos Estados Unidos e se tornando um símbolo comunista, seja uma obra-prima. Mas é uma história sólida, que passa longe do maniqueísmo “americano bonzinho contra russo malvado”, tão vista em obras feitas na terra do Tio Sam – Millar é escocês, e isso explica bastante coisa.

capa_panini

 

Dave Johnson, mais conhecido por seu trabalho como colorista e capista de inúmeras séries de DC e Marvel, desenha parte da obra. E é na primeira edição que se encontra a página dupla abaixo, tema da aula de hoje.

entre a foice e o martelo_página dupla

 

Como ler uma sequência assim, cheia de imagens diferentes sobrepostas umas às outras, aparentemente sem ordem lógica? O trabalho básico do desenhista é fazer com que a arte tenha fluência. Ou seja, fazer o leitor percorrer todas as partes importantes da página sem que ele, leitor, perceba estar sendo conduzido. É como se existisse um caminho pré-determinado no desenho a ser seguido por nós, inconscientemente – o quadrinista Rapha Pinheiro fala mais sobre o assunto aqui, ao analisar Surfista Prateado – Parábola, de Moebius.

Isso parece fácil na teoria, mas passa longe de ser na prática. Tem que dispor os elementos de cena com inteligência, usar linhas de ação, posicionar quadros, balões e onomatopeias nos lugares certos… Se alguma HQ parecer truncada, com continuidade quebrada, pode apostar: faltou o artista fazer esse dever de casa.

Johnson segue a cartilha à risca na cena citada. Pois, vejamos:

caminho_olho.jpg

 

Pra ficar mais fácil de entender, dá pra quebrar a página em oito momentos diferentes:

caminho_olho_sequência

 

A leitura começa, obviamente, no lado superior esquerdo (1). Descemos o olhar e aí vemos um rastro branco subindo (2). É o Superman voando e saindo de cena. Instintivamente, seguimos esse rastro, lemos os dois balões à frente e os dois quadrinhos pequenos (3). A torre do prédio apontando para o céu faz o olho subir (4) para chegarmos ao lado superior direito da página. Nesse momento, só é possível descer (5) para continuar a acompanhar o diálogo entre os personagens. Agora, chega o grande truque: o longo quadro na parte central da página mostra pessoas segurando bandeiras e andando para a esquerda (6). O olhar segue essa direção e nos joga para a lado inferior esquerdo, que ainda não foi lido (7). Por fim, é preciso fazer o caminho de volta para a direita, enquanto o balão do penúltimo quadro nos guia para o final da sequência (8) – e assim acaba uma experiência de linguagem só encontrada nas HQs.

Superman – Entre a Foice e o Martelo acabou de ser relançado pela Panini numa edição caprichada. Vale procurar. Nem mesmo um errinho de revisão de doer (em certo momento, o adjetivo “capaz” ficou “capas”) invalida a recomendação.

 

Curta a página d’O Quadro e o Risco no Facebook!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s