Já no prefácio de Meu Amigo Dahmer, o autor Derf Backderf expõe sua tese a respeito do tema da graphic novel – a juventude de um colega de escola que se tornou serial killer: “Creio que Dahmer não precisava ter acabado como um monstro, que todas aquelas pessoas não deveriam ter morrido horrivelmente, se os adultos que fizeram parte da vida dele não fossem tão inexplicável, incompreensível e imperdoavelmente sem noção e/ou indiferentes”.  É ao redor desse fato que a obra gira, mais do que na vontade de revelar detalhes mórbidos do protagonista.

capa_meuamigodahmer.png

Capa da edição nacional de Meu Amigo Dahmer, lançada pela Darkside Books

Jeffrey Dahmer foi um dos mais célebres e infames casos modernos de assassinos em série nos Estados Unidos. Entre 1978 e 1991, matou dezessete pessoas – todas do sexo masculino, alguns adolescentes. Fazia sexo com os cadáveres e comia sua carne. Foi morto na prisão em 1994.

Os caminhos de Backderf e Dahmer se cruzaram na escola, durante a sétima série. Viviam nos arredores de Akron, uma cidade industrial então falida do estado de Ohio. Típico local onde não se tem nada pra fazer – ainda mais em pleno anos 1970, ainda mais se você tem uns 14, 15 anos. Eles não eram amigos próximos, mas conversavam, zoavam juntos, eventualmente até faziam algo fora do ambiente escolar. Em 1991, quando os crimes foram descobertos pela polícia e divulgados amplamente na imprensa americana, Backderf resolveu voltar àquela amizade e fazer algo com as lembranças.

O resultado foi um gibi de oito páginas, lançado numa antologia em 1997, contando os momentos vividos com o amigo. Tempos depois, o artista criou uma versão um pouco maior, com 24 páginas, mas ainda limitada em relação à quantidade de informações e fluência narrativa. Só em 2012 ele conseguiu publicar um trabalho definitivo sobre o assunto – essa é a graphic novel que acaba de chegar ao Brasil pela Darkside Books.

Como virar um monstro

Backderf fez uma extensa pesquisa para tornar o relato o mais factual possível: consultou os arquivos do FBI sobre o caso, revirou matérias de jornal e depoimentos de Dahmer para a televisão. Também entrevistou outros colegas de adolescência. Assim, trabalhou a percepção da memória, cavando em busca de lembranças nem sempre tão confiáveis, às vezes confusas ou parciais.

dahmer.jpg

Li outro dia um comentário de um leitor decepcionado com a HQ, pois, segundo ele, faltou mostrar as mortes e atrocidades. Que fique claro: o foco não é esse. A obra trata dos fatores que levam ao nascimento de um monstro, não da monstruosidade em si.

Dahmer era o arquétipo do solitário clássico, do qual poucos fazem questão da presença – isso quando a notam. Não tinha ninguém pra conversar em casa, graças aos pais mergulhados em problemas conjugais. Sofria bullying na escola. Dissolvia animais mortos em ácido e os guardava em potes. Reprimia sua homossexualidade, enquanto desenvolvia tendências à necrofilia (o desejo sexual por cadáveres). Bebia em quantidade absurda para esquecer os pensamentos impuros. Isso tudo sendo um mero garoto. Sua mente borbulhava de medo, vergonha, rejeição de si mesmo, violência – e ninguém sabia disso. Ou, então, preferiam não saber.

A grande questão levantada pela obra: é possível impedir alguém com sérias disfunções psicológicas de se tornar um maníaco? Não existe resposta concreta, mas alguns lampejos reveladores. O maior deles: a indiferença das pessoas pode levar à tragédia. Não foram poucas as vezes em que Dahmer chegou à escola exalando álcool – nunca um professor qualquer perguntou o motivo ou o repreendeu. Quando estava em casa, encontrava um ambiente pior que o da sala de aula, com o casamento dos pais se desintegrando à sua frente – em nenhum momento se preocuparam com os sentimentos do filho, chegando a deixá-lo morando sozinho. A falta de afeto o distanciou das relações humanas comuns. Ele vivia num mundo paralelo.

 

dahmer2.jpg

Nem mesmo Backderf escapa – fica nas entrelinhas uma sensação de culpa do autor por não ter agido, de alguma maneira. Dahmer olhou por muito tempo para o abismo e gostou do que viu – até que resolveu se jogar nele. Faltou alguém lhe estender a mão para ajudar a sair da beira do precipício.

Então, a culpa é de todos, menos do próprio assassino? Não é bem assim. Embora vítima de circunstâncias extraordinárias, causadas por si próprio, mas também pelos outros ao redor, ele não pode ser considerado um anti-herói que lutou contra a injustiça da sociedade. Como diz o criador da HQ: “Assim que mata uma pessoa, contudo – e não há como deixar isso mais claro -, termina a minha simpatia por Dahmer. Ele podia ter se entregado depois do primeiro homicídio. Podia ter botado uma arma na cabeça. (…) era um infeliz, um ser problemático, cuja perversidade estava além da compreensão. Tenha pena, mas não empatia”.

Underground contido

Pra contar essa história, Backderf utiliza um estilo episódico. Narra um momento relevante na jornada de Dahmer rumo ao inferno e já passa para outro, com bastante fluência – nada é truncado. E a adição de um prólogo que mostra o jovem e sua mania de recolher animais mortos já revela ao leitor, logo de cara, o funcionamento dessa mente doentia, gerando mais curiosidade a seu respeito.

dahmer3.jpg

Os traços do autor bebem bastante do estilo underground, buscando referências óbvias como Robert Crumb e S. Clay Wilson, mas também nomes menos famosos, como Gary Panter. As feições duras e corpos robóticos das pessoas desenhadas trazem uma aura surreal à HQ. Parece que tudo se passa em um local à parte da realidade. Perto de outros trabalhos underground, Meu Amigo Dahmer parece mais contido em experimentalismo. Porém, se falta certa ousadia, sobra em dinamismo narrativo.

A edição nacional da obra é belíssima. Em capa dura, inclui farto material extra, como cenas excluídas, sketchbook e o quadrinho original de oito páginas. Backderf demorou quase vinte anos para contar essa história como queria. Mas, ao se ver o fruto final desse trabalho, valeu a espera: é difícil ficar indiferente à deprimente jornada de um serial killer.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s