O macaco velho Warren Ellis vem logo à cabeça quando penso em histórias autocontidas, as chamadas one-shots, aquelas que se resolvem em apenas uma edição. Planetary, Cavaleiro da Lua, Fell, Frequência Global, Vingadores Secretos – a lista de ótimas obras dele nesse estilo vai longe. E, agora, eis que surge um novo talento na arte de colocar tudo o que se tem pra se dizer em meras vinte ou menos páginas.

Atual escritor do título quinzenal do Batman, Tom King foi indicado nos últimos dois anos ao Eisner (prêmio mais reconhecido do mercado americano), na categoria melhor história curta. Não é pra menos: o roteirista consegue aprofundar diversas ideias num espaço extremamente restrito, tudo com a ajuda de uma estrutura narrativa mais ou menos fixa.

Geralmente, King divide a página em três colunas horizontais (contendo quadros simétricos ou não – ele gosta bastante de um grid com 9 quadros). Isso cria um ritmo fluído ao longo de toda a trama, semelhante ao de uma tira – com apresentação de um tema/desenvolvimento/resolução. Pá, pá, pum. E tudo começa novamente na página seguinte. Assim, a história nunca para, sempre está em movimento pra frente, mesmo se possui poucos diálogos.

Um exemplo brilhante está em Batman #23, publicado no mês passado lá nos Estados Unidos. O conto The Brave and the Mold mostra um encontro do Homem-Morcego com o Monstro do Pântano em meio a uma investigação policial envolvendo o pai da criatura verde. A edição é quebrada em minicapítulos (às vezes de apenas uma página). Assim, toda a urgência do enredo se revela na própria divisão da história – etapa da investigação encerrada, passa-se para a próxima sem delongas.

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O caráter episódico de The Brave and the Mold permite a King inserir comédia, ação, drama e elementos de terror em momentos distintos da trama, sem perder o ritmo. Isso aqui é ouro puro, ainda mais com a arte carregada de sujeira de Mitch Gerads

Em Tomado pelos Demônios, presente na antologia Time Warp, publicada por aqui em Vertigo Especial nº2, a página também ajuda a modular a passagem de tempo: cada uma conta fatos passados em um ano específico. É possível lê-la na íntegra aqui – e prepare-se para o plot twist do final.

A seguir, coloco os dois one-shots do roteirista indicados ao Eisner. Vale perceber a divisão temática presente ao longo dos enredos, como nunca as coisas ficam desinteressantes, como sempre aparecem novas questões para os personagens trabalhar. O primeiro é Black Death in America, lançado na antologia Vertigo Quarterly: Black, com desenhos de John Paul Leon, que trata do racismo com um herói real americano da Primeira Guerra Mundial. O segundo, Good Boy, de Batman Annual #1 (2016), arte de David Finch, reconta a origem de Ace, o Batcão.

Escreva mais histórias curtas, caro King.

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