O norueguês John Arne Sæterøy, mundialmente conhecido pelo nome artístico Jason, finalmente tem um álbum publicado no Brasil – a coletânea Sshhhh!, de 2002, lançada mês passado pela editora Mino. Lá fora, inclusive nos Estados Unidos, Jason é considerado um dos grandes quadrinistas em atividade. Aos 52 anos, está na boca da mídia por conta de sua mais recente HQ, On The Camino, relato autobiográfico da travessia do Caminho de Compostela, na Espanha.

Por isso, com a repercussão atual de seu trabalho aqui e em outros países, é hora de entender as características desse autor. Dá pra dizer que Jason é uma espécie de “Wes Anderson dos quadrinhos”: assim como o cineasta americano, ele conta histórias silenciosas e (na maioria das vezes) tristes, quase no estilo das fábulas, seguindo uma estrutura narrativa ordenada.

A importância da antropomorfização
Nesta entrevista para o Vitralizado, Jason explica o uso de personagens antropomórficos: segundo o artista, surgiu da necessidade de fugir do estilo realista a que estava preso, algo que o fazia perder muito tempo na hora de arte-finalizar. Animais com trejeitos humanos (sejam cães, gatos, coelhos ou pássaros) oferecem universalidade às histórias, algo fundamental para o impacto de suas tramas no leitor. “Todo mundo consegue se identificar com o Pato Donald ou o Mickey Mouse”, comentou.

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Em Hey, Wait…, um cachorrinho entediado com o blá blá blá do professor desenha durante a aula. Personagens sem feição, etnia ou características humanas claras funcionam como gancho imediato de identificação com o leitor, fazendo a mensagem chegar com mais facilidade ao público

Melancolia, solidão e esquisitices diversas
Jason conta histórias protagonizadas por desajustados sociais, solitários ou derrotados em busca de redenção. Ou seja, são apenas seres tentando viver da melhor forma possível – mesmo que fazendo tudo errado no processo.

Nesse sentido, é possível notar ainda mais as semelhanças de suas HQs com os filmes de Wes Anderson. Os dois autores gostam de histórias agridoces, cheias de melancolia e com finais que nem sempre solucionam as dificuldades dos personagens (mas, ao menos, trazem a eles um pouco de paz).

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O protagonista de Hey, Wait… tem um encontro com a morte: a profundidade lírica de Jason é coisa única, encontrada em poucos autores no mundo

O primeiro álbum do quadrinista, chamado Hey, Wait…, já traz essas características. O que aparenta ser um mero relato da infância se transforma em estudo sobre o peso de um trauma carregado por toda a vida. A primeira parte da obra, cheia de leveza e graça, dá lugar a uma reflexão profunda a respeito da morte. Mesmo assim, é cheia de lirismo – ele sabe criar momentos de ternura independente do tema.

Sua outra marca está na ambientação das tramas numa espécie de realidade fantástica, que não obedece às regras do nosso mundo real. Encontramos lobisomens, extraterrestres, animais gigantes, viagens no tempo etc. As coletâneas de histórias curtas são as mais propícias para o artista viajar na maionese. If You Steal, por exemplo, inclui uma releitura com vampiros do clássico do cinema O Mensageiro do Diabo e interpretações hilárias das músicas do disco Moondance, de Van Morrison, no formato pôster de filme de terror.

 

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As icônicas tatuagens nas mãos do reverendo Powell, vivido por Robert Mitchum em O Mensageiro do Diabo, estão presentes na paródia Night of the Vampire Hunter

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And It Stoned Me, faixa de abertura de Moondance, em versão filme de zumbi

 

A pequena obra-prima I Killed Adolf Hitler resume essas maluquices transformadas em roteiro: um assassino de aluguel contratado para voltar no tempo e matar o líder nazista. E esse é um quadrinho exemplar, pois ilustra também a típica forma usada pelo autor para desenvolver os enredos. As gags visuais de humor e as bizarrices existem para dar suporte ao que realmente interessa, os dramas dos personagens (no caso, um amor que sobrevive aos tropeços da vida). Não existem animais mais humanos que os de Jason.

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O absurdo (como viajar no tempo pra assassinar Hitler) é comum nas HQs do autor, mas sempre servindo como pano de fundo para os dramas e inquietações dos personagens

Inspirações: filmes antigos
Boa parte das ideias do artista vem do cinema – e ele não esconde isso, pois comenta sobre clássicos antigos em seu blog. O filme noir, vertente do gênero policial, é forte inspiração e está no coração de um dos melhores álbuns de sua carreira, Lost Cat.

Unindo a trama intrincada de À Beira do Abismo com a imprevisibilidade trágica de A Morte Num Beijo, a HQ homenageia o noir, mas também faz uma revisão do gênero ao acrescentar questões psicológicas sobre a solidão urbana. Tem espaço ainda para deliciosas referências aos históricos atores Humphrey Bogart, Alain Delon e Lauren Bacall.

lostcat

“Eu sou detetive particular”

Jason também se apropria de peculiaridades diversas de renomados diretores. É possível enxergar em seu trabalho o psicologismo de Ingmar Berman, o estilo frio de conduzir histórias de crime de Jean-Pierre Melville e o minimalismo emocional de Robert Bresson, que usava atores amadores para não gerar sentimentos forçados no público. Os animais sem expressão de Jason tem os dois pés no estilo bressoniano.

Linguagem: layouts, elipse e estilo de desenho
As histórias do quadrinista seguem uma linguagem bastante própria:
-possuem um desenho com traço fino, que remete à escola linha clara. O próprio Jason considera Hergé, o criador de Tintin, uma grande influência;
-são geralmente curtas. Mesmo as graphic novels não possuem grande extensão – ficam nas 180-200 páginas, no máximo;
-estrutura de página ordenada, formada por grids com quatro, seis ou oito quadros, dependendo da necessidade da trama;
-os diálogos são reduzidos ao máximo. Existem inúmeras cenas inteiras nas quais a ação é narrada somente pela imagem – basta ver algumas das imagens postadas ao longo do texto;
-uso brilhante da elipse. O autor é um mestre na arte de omitir informações sem perder fluência ou deixar as coisas confusas na cabeça do leitor.

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Mesmo nos momentos de ousadia na linguagem, Jason mantém a página ordenada – como neste momento de Werewolves of Montpellier, no qual os quadros acompanham a embriaguez dos personagens. Essa é mais uma semelhança com Wes Anderson: o cineasta, famoso pelo uso de cores saturadas e tomadas inusitadas, também é adepto de um rigor formal que se encontra em toda sua obra

Resumindo…
Agora que a porteira abriu, torcer para mais trabalhos desse verdadeiro mestre chegar por aqui. Quem ganha somos nós.

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