O mineiro Jão gosta de ousar: em Baixo Centro, trabalho publicado em 2015, acompanhamos uma dupla de personagens sendo perseguida pelas ruas de Belo Horizonte. A ação se desenrola como se o quadrinho fosse um enorme plano-sequência. Tudo mudou em seu último lançamento: no número 0 da revista Parafuso, o que manda é a repetição, a monotonia das coisas quase paradas.

A história, chamada Vigilantes, subverte o gênero dos super-heróis. Passando-se numa cidade futurista, na qual pessoas com capas e máscaras são algo comum, a trama se inicia com um rapaz furtando um produto numa loja. O que vem depois é uma avalanche de decisões erradas baseadas na estúpida questão do “bandido bom é bandido morto”. Justiça com as próprias mãos nunca é justiça – e Jão faz o favor de frisar isso ao mostrar a violência inconsequente nossa de cada dia. Afinal, Vigilantes pode ser uma ficção no futuro, mas existe em sua totalidade aqui, no presente.

Pra contar essa trama com fortes elementos de crítica social, o artista usa praticamente apenas um único enquadramento – a frente da tal loja, localizada numa esquina. Dá pra dizer que uns 80% da HQ estão sob esse ponto de vista. Veja abaixo: é como se assistíssemos os fatos por meio de uma câmera de segurança. Somos meras testemunhas, sem o poder de se aproximar e interferir nos acontecimentos.

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Conversei com Jão por e-mail sobre esse trabalho, um dos grandes lançamentos independentes de 2016. Na entrevista a seguir, ele explica as escolhas narrativas, o importante papel das cores e as particularidades de se criar uma história sem falas.

Capa da Parafuso nº0

 

Jão, assim como Baixo Centro, a Parafuso tem um tamanho enorme, bem maior que uma folha A4, por exemplo. Eu, como leitor, me sinto mergulhado na ação por conta dessa dimensão diferente do comum. Como um formato desse te ajuda a contar histórias?

Jão: A ideia do formato veio a partir da minha necessidade por detalhes. Nem digo do ponto de vista contemplativo, mas é porque trabalhar dessa maneira minuciosa demanda muito tempo. Vi que fazer algo mais próximo do produzido no mercado europeu – álbuns com cerca de 48 páginas – me ajuda a conseguir finalizar novos projetos.

Porém, minhas histórias normalmente são pensadas para terem mais que isso. Assim, optei por tentar contá-las em um espaço menor (de páginas), mas de um jeito no qual funcionem ao incluir mais informações em cada prancha. Já testei muitos tipos de revista e acho que encontrei algo que me agrada e representa o que quero na narrativa: um estilo próprio na forma de contar essas histórias.

Estilo próprio é o que Vigilantes mais tem, já que a trama se passa num único cenário. E esse estilo é o completo oposto do conceito de Baixo Centro. Explique um pouco de onde veio a ideia pra essa mudança.

Normalmente, gosto de experimentar novas formas de narrar dentro daquilo que já fiz. Quando comecei a pensar em Vigilantes, minha primeira HQ dentro do gênero dos super-heróis, percebi que poderia cair em algumas armadilhas preestabelecidas. Mas queria era contar da minha maneira uma história desse tipo.

Passei alguns dias pensando sobre isso e vi que também não queria me repetir, pois os conceitos de Vigilantes são muito parecidos com os do Baixo Centro, ao abordar temas como linchamento e justiça com as próprias mãos. Além disso, o momento pelo qual passa meu trabalho indica para esse caminho de micronarrativas dentro de algo maior, sem dar tanto destaque para características dos personagens, já que tudo é desenhado bem pequenininho. Juntando tudo isso, em algum momento eu vi que, se contasse a história por meio de um único cenário, conseguiria extrapolar o que já havia feito até então e, ao mesmo tempo, criar algo que tivesse sentido pra mim e minha produção.

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Por falar em repetição, como foi manter a sanidade pra desenhar o mesmo cenário, do mesmo ponto de vista, em uns 80% da HQ?

Cara, uma loucura (risos). Quando comecei, pensei “nossa, como sou exxxperto, vou pegar as manhas que aprendi fazendo animação e tentar construir tudo em módulos. Sou um gênio!”. Grande besteira…

Para fazer os esboços das páginas, foi muito rápido. Desenhei um cenário e fui produzindo os personagens na mesa digitalizadora. Eu só tinha que fazer as variações daquilo que era destruído em um ponto ou outro do cenário. Nesse momento, fiquei bem animado, pois em cerca de quatro ou cinco dias tinha esboçado todas as páginas (normalmente, demoro esse tempo para esboçar apenas uma).

Mas eu sempre gosto de fazer a arte-final com canetas e aí começaram meus problemas. Imprimi tudo, fui passar a tinta nos desenhos – ponto crítico, já que percebi que todo o tempo ganhado nos esboços iria pelo ralo e eu voltaria ao meu ritmo normal de trabalho. Comecei a demorar um dia pra fechar cerca de três páginas – e aquele cenário maldito me perseguindo. Tive pesadelos com ele. Mas é engraçado e desafiador se propor situações assim.

Aliás, como disse antes, a ideia partiu da animação e lá é isso sempre. Você fica um dia inteiro desenhando e desenhando, e fica muito feliz ao ver que seu turno de oito horas te permitiu finalizar um segundo de vídeo. Ao menos, eu tinha que fazer cerca de trinta páginas – e não um ou dois minutos em animação.

Por falar em arte-final, gostaria de comentar um pouco seus traços. Lá em Baixo Centro, eles estavam mais grosseiros, no bom sentido do termo, trazendo urgência à trama. Em Vigilantes, é tudo mais limpo, detalhista (apesar de ser um desenho miúdo). Algo mais voltado pra um Brandon Graham do que o estilo Marcelo D’Salete de antes. Como você enxerga essa mudança?

Meu desenho varia muito. Acho que é por conta das minhas referências. Gosto muito do contrastão preto e branco, ao mesmo tempo em que piro na linha clara. Então, meu traço segue de acordo com o que a história pede e com meu momento ao fazê-la.

Mas é engraçado perceber a Parafuso agora, pois ela remete muito ao que eu fazia lá atrás, em 2009, 2010. Um período no qual estava muito mais comprometido com a ficção científica. É como se eu tivesse voltado no tempo para evoluir aqueles trabalhos – e não pra dar continuidade a Baixo Centro. Claro que a cada projeto a gente aprende e leva artifícios para os próximos, mas talvez eu tenha sentido que havia deixado algo muito legal pra trás e que precisava corrigir isso.

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As cores são um elemento interessante para serem observadas ao longo das páginas de Vigilantes, pois, apesar de o enquadramento não mudar, as próprias cores mudam. É como se a iluminação da cena fosse outra, de repente. Adoro também a forma chapada e os tons berrantes, quase fosforescentes, usados. Por que escolheu essa paleta de cores e qual o papel delas na história?

Isso foi algo surgido no meio do processo. Nos últimos tempos, tenho ficado muito chato em relação às cores. Quando comecei a colorir, vi que a história precisava de algo meio maluco nesse sentido, para apresentar o universo bizarro no qual ela se passa.

Por conta do formato da revista e de ser uma narrativa sem texto, também queria propor que o leitor passasse um pouco mais de tempo em cada abertura de páginas, nem que fosse pelo susto que as paletas poderiam causar. Pensei também que os capítulos poderiam ser definidos a partir da variação de cores. Como é uma história de superseres, também quis brincar com as tonalidades e com misturas estranhas.

Você citou algo que eu gostaria de entender: quais as dificuldades de se criar uma história sem falas? E quais as diferenças em relação a um roteiro com diálogos?

Muitas das minhas histórias são mudas. Acho legal produzir algo assim: você já começa com ferramentas a menos e tem que compensar isso na medida em que constrói a narrativa. E, falando nisso, eu acho que o meu ponto de maior interesse nos quadrinhos não é o desenho, o roteiro ou a história – é ela, a narrativa.

Eu nem definiria como uma dificuldade partir da opção de contar uma história sem o uso do texto, até porque sempre quis estabelecer uma ligação com meus leitores, e que eles possam, comigo, construir algo a partir de uma sequência de imagens. Talvez para quem lê a dificuldade seja maior, pois exige uma concentração maior na leitura.

Sobre histórias que usam o recurso do texto, acho que tem que saber dosar, para não entregar demais, não facilitar as coisas. Eu penso em voltar a usar esse recurso em alguma produção futura. Pra mim, é um desafio muito maior.

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