No fim de janeiro, Liz Wrightson anunciou que o marido, a lenda dos desenhos Bernie Wrightson, estava se aposentando. O motivo era a saúde cada vez mais debilitada, culpa de um câncer no cérebro que limitou severamente as funções do lado esquerdo do corpo do artista, que estava com 68 anos. Neste sábado, mais um comunicado, aquele que ninguém queria ler: a batalha contra a doença acabou – não foi possível vencê-la. Mas Bernie de forma alguma pode ser considerado um perdedor.

Existiram muitos traços icônicos nos quadrinhos de terror ao longo dos tempos. Richard Corben vem logo à cabeça como um dos maiores; Jack Davis deu vida aos contos de horror da EC Comics; John Totleben imprimiu um estilo etéreo ao gênero. Mesmo assim, Wrightson é imbatível.

Ele fez parte de uma geração que assumiu o protagonismo no mercado americano a partir da virada dos anos 1960 para os 1970. Ao lado de P. Craig Russell, Jim Starlin, Barry Windsor Smith e Michael Kaluta, buscou influências que iam além da HQ de super-herói. Era discípulo de Frank Frazetta, Alex Raymond, Hal Foster, todos donos de um estilo de ilustração mais acadêmica, com abordagem naturalista da anatomia e ênfase no contraste entre luz e sombra.

Tem uma definição perfeita para seu estilo no livro Quadrinhos – História Moderna de uma Arte Global, de Dan Mazur e Alexander Danner: “Wrightson era gótico: suas figuras emergem das sombras, rostos magros, com os olhos perdidos nas órbitas sombrias e narizes aduncos”. Impossível discordar. Seu traço remete a tempos antigos, florestas enevoadas, medo do desconhecido.

Seja nas antologias de terror Creepy e Eerie (da Warren Publishing) ou House of Mystery (DC Comics), criou atmosferas únicas usando um nanquim carregado, baseado em hachuras e sombreado esfumaçado. Adaptou contos de Edgar Allan Poe e H. P. Lovecraft, desenvolveu histórias autorais – geralmente envolvendo criaturas fantásticas.

Elas, aliás, são determinantes para sua carreira. Um dos personagens seminais da DC a partir dos anos 1980, o Monstro do Pântano, foi cria sua em parceria com Len Wein uma década antes. Isso sem falar naquele que talvez seja seu maior trabalho (e nem quadrinho é): a versão ilustrada de Frankenstein, clássico romance de Mary Shelley. Ali está um artista completo, com domínio total sobre sua arte.

Nesta maravilhosa entrevista, ele fala sobre diversos aspectos das obras das quais participou. O melhor momento é quando comenta o tipo de terror que aprecia: “Apesar de meus desenhos de monstros, zumbis rastejando para fora dos túmulos, vampiros e Frankenstein, o horror para mim é a imagem de um homem bem-vestido esperando por um ônibus na esquina – e tudo a respeito dele está absolutamente perfeito, exceto por uma mancha de sangue em seu sapato”.

Adeus, mestre do macabro.

☆ 27 de outubro de 1948     † 18 de março de 2017 (Foto do Nakatomi Inc.)

(Clique na galeria abaixo para ver as artes em tamanho maior – ou abra cada imagem em diferentes abas do navegador)

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