Nenhuma outra pessoa no mundo poderia criar Os Invisíveis, verdadeiro marco do selo Vertigo da DC Comics, a não ser Grant Morrison. A série é o autor – e vice-versa. Quer entender a mente hiperativa do roteirista escocês? Leia Os Invisíveis. Ele escreve sobre os temas caros para si mesmo, no ritmo e formato que lhe dão na telha.

Mas, aí, mergulhar a fundo na personalidade de alguém não é agradável a todo momento. Têm bizarrices e incongruências, coisas que só interessam à própria pessoa. Os Invisíveis é mais ou menos isso: uma egotrip auto-masturbatória com múltiplos sentidos – uns se sobrepondo aos outros.

Olhando por outro viés (assim como o quadrinho nos ensina), talvez a obra seja mesmo algo diferente. Uma jornada quase espiritual, de pensamento elevado, um convite para a tomada de consciência individual, com o objetivo de enxergar além num mundo cada vez mais complexo.

O que é ou não é, eu não sei. Só sei que nunca uma HQ me dividiu tanto como essa. E olha que só a li – imagine tê-la traduzido inteira, como fez o Érico Assis? (Aliás, muito da opinião dele bate com a minha). Resumindo: eu amo/odeio Os Invisíveis.

Temas
Impossível fazer uma sinopse sem deixar passar algo. Tem de tudo ao mesmo tempo: ficção científica, super-herói, semiótica, mocinho versus vilão, espionagem, filosofia, profecias de fim do mundo, ação, drama de época, ocultismo, horror, psicodelia, magia do caos, teorias da conspiração, xamanismo… No meio disso tudo, um grupo de terroristas libertários, os Invisíveis, em plena luta contra as forças opressoras da Igreja Externa, presentes em todos os níveis de poder na sociedade. O cerne da obra está na dualidade liberdade eterna/controle total. Para responder essa questão (tentar, na verdade), Morrison não se prende a padrões narrativos, fazendo experimentos diversos na forma de contar a história. Existem exageros, mas ele sempre tenta envolver a percepção do leitor de maneiras surpreendentes.

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Impossível ler e não ter a sensação de que se está deixando passar algo.  É muita coisa acontecendo ao mesmo tempo – e Morrison nunca deixa clara a importância dos diferentes momentos e situações. No meio disso tudo, várias ramificações do enredo murcham de repente, enquanto poucas se concluem de forma satisfatória. Existem exageros (inserção de subplots inúteis; a insistência em não explicar os significados dos elementos esotéricos; falta de foco dramático etc.) que corroem o frescor narrativo, deixando de surpreender o leitor.

King Mob, líder dos Invisíveis no início da série e alter-ego do próprio Grant Morrison

Personagens
A construção dos protagonistas é um grande trunfo. King Mob (alter-ego do Morrison), Dane McGowan (garoto inglês considerado o messias que salvará o planeta), Ragged Robin (telepata vinda do futuro), Lord Fanny (travesti brasileira especialista em magia), Boy (ex-policial mestre em artes marciais): todos os Invisíveis têm suas personalidades desenvolvidas lentamente, dando tempo para se conhecer e se acostumar com as diferentes facetas de cada um.

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A construção dos protagonistas é um trunfo até determinado momento. Morrison gosta de colocar frases filosóficas pomposas na boca de seus personagens, principalmente King Mob. Mas, a certa altura, os diálogos se tornam quase ininteligíveis. Não importa quem esteja em cena: todos são cool, descolados e falam da mesma forma grandiosa, perdendo assim as diferentes facetas de cada um desenvolvidas até então.

Grande plano
Fica óbvio constatar que Morrison tinha um planejamento geral para a série, sabendo mais ou menos seu andamento até o fim. A maior prova disso é perceber como o arco de praticamente todos os personagens se fecha, cedo ou tarde. E tem mais: pequenos detalhes mostrados lá no início voltam várias edições depois para desempenhar papel relevante no desenrolar das ações. O grande plano de Os Invisíveis existia, sim – apesar de muitos, incluindo seus fãs, acharem o contrário.

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Fica óbvio constatar que Morrison não tinha a mínima ideia do andamento da série. A maior prova disso é perceber como ele inicia um conceito interessante, mas o descarta logo em seguida, sem aprofundá-lo. E tem mais: personagens surgem do nada e somem para o mesmo lugar (qual o propósito do homem vestido de arlequim? E qual mesmo o nome do cara com um lenço no rosto?), plots são finalizados abruptamente. O grande plano de Os Invisíveis não convencia nem mesmo seu autor.

Arte
A rotação de artistas pode ser vista como um problema, mas só se nos esquecermos da qualidade dos principais nomes que passaram pelo título: Jill Thompson, Chris Weston, John Ridgway. Tem até pequenas participações de gente do quilate de Frank Quitely, Duncan Fegredo, Michael Lark, Ivan Reis, Mark Buckingham. Isso sem falar em Phil Jimenez, o cara que mais desenhou edições, o traço que é a cara da série. Isso sem falar nas capas psicodélicas de Sean Phillips e nas esquizofrênicas de Brian Bolland.

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A rotação de artistas é um problema, sim, pois não se cria uma identidade própria para a HQ – aquilo de se ver uma página e imediatamente falar “isso é Invisíveis“. Ok, Phil Jimenez ficou bastante tempo como dono dos lápis. Ainda assim, existem muitos estilos diferentes, alguns nem tão bons: Steve Yeowell no volume 1, Philip Bond. Isso sem falar em algumas edições nas quais se muda o desenhista a cada três, quatro páginas, sem qualquer necessidade para tal. Isso sem falar nas cores de Daniel Vozzo, feias e esmaecidas na maior parte do tempo.

Gimenez: o melhor desenhista da série

Melhores momentos

  • Beatles Mortos (#1, Vol. 1): o primeiro de 59 capítulos. Opressão juvenil sendo combatida com tática de guerrilha pelos olhos de um garoto delinquente. A abordagem dessa edição é bem-diferente da maior parte do que viria depois. Uma pena, pois é um início poderoso;
  • Arcádia (#5 a 8, Vol. 1): arco em quatro partes com tanta coisa maluca acontecendo: os Invisíveis viajam ao passado para resgatar o Marquês de Sade, assistem uma encenação de 120 Dias de Sodoma, encaram um demônio sem face e encontram a cabeça de João Batista transformada em dispositivo tecnológico. Paralelamente, se desenrola uma trama envolvendo os poetas Lord Byron, Percy e Mary Shelley. Nada e tudo fazem sentido aqui;
  • Nobres Monstros (#11, Vol. 1) e Bom em Queda (#12, Vol. 1): as duas melhores edições da série nem mostram os personagens principais. Ambas possuem histórias fechadas: a primeira tem um climão sufocante de terror (Morrison deveria fazer mais esse tipo de enredo, vide também a qualidade de seu arco curto para Hellblazer); a segunda relembra a vida de um soldado assassinado por King Mob em Beatles Mortos – por trás da violência, existem pessoas com nome, família, passado;
  • Entropy in the U.K. (#17 a 19, Vol. 1): arco em três partes que mostra certo personagem sendo torturado e uma batalha mental entre herói e vilão. Consciência, id, ego, supergo, subconsciente: tudo se mistura num delírio psicológico.

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Piores momentos

  • Ciência Negra – parte 3 (#3, Vol. 2): a edição anterior tinha um gancho de deixar o leitor sem fôlego. Mas essa (que dá início à resolução de um arco bem interessante) abusa de momentos confusos, envolvendo jogos mentais e magia masturbatória (?);
  • Somos Todos da Polícia (história curta de Vertigo Winter’s Edge 1): bom conceito sobre uma sociedade na qual o indivíduo está acima de tudo. Poderia ter continuado como conceito;
  • Carmagedon (#8 a 5, Vol. 3): de longe, o pior arco da série. Fala sobre coisas que provavelmente só o Morrison sabe. Inclui uma trama arrastadíssima a respeito da morte de um personagem coadjuvante – tão redundante que qualquer impacto emocional se perde. A edição #8 ganha o prêmio: em formato de conversa de e-mail, deve ser a coisa mais chata já escrita pelo roteirista.

And so we return and begin again
Os Invisíveis segue importante, como retrato dos anos 1990, um período de revolução nas relações do homem com a tecnologia. Além disso, influenciou diretamente um dos produtos culturais mais relevantes da época: o filme Matrix, das irmãs Wachowski. O maior mérito da série foi ter permanecido comigo até nos momentos em que não a estava lendo. Queira ou não, é uma obra que faz o leitor refletir.

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Os Invisíveis envelheceu um tanto mal, pois está muito ligada ao período no qual foi concebida. Boa parte das referências de Morrison perderam o significado para as novas gerações. Lê-la hoje em dia é mais um ato de curiosidade do que de rebeldia contra o sistema. O maior demérito da série foi ter me feito torcer, enquanto a lia, pra acabar logo.

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