No sábado, mais duas masterclasses – ambas de desenhistas.

Um artista que é tão personagem quanto seus personagens
bisley

Logo no início da apresentação, Simon Bisley comentou que no dia anterior um fã tinha lhe falado de sua semelhança com Gandalf, personagem de O Senhor dos Anéis. Na verdade, o artista, conhecido por histórias do Juiz Dredd, Batman e Lobo, está mais para uma versão inglesa e heavy metal do Dude de Jeff Bridges em O Grande Lebowski. Um cara que parece estar eternamente chapado, hilário de forma natural e ingênua.

Bisley é bastante espontâneo quando fala. Ao responder uma pergunta sobre como organiza o cronograma de trabalho, assumiu ser um tanto preguiçoso para começar as tarefas, sempre se distraindo com coisas diversas. Porém, quando senta pra desenhar, o faz freneticamente, como se tivesse uma explosão de energia: é capaz de finalizar 22 páginas em quatro dias.

Suas ideias vão ao encontro do que Bill Sienkiewicz compartilhou com o público na sexta-feira. A anatomia detalhista não importa na construção, mas, sim, a intensidade da imagem. Enquanto desenhava ao vivo, comentou sobre o conceito de “linhas de força”, uma maneira invisível de fazer a postura corporal dos personagens narrar sentimentos e emoções.

Nos anos 1980, Bisley tinha uma banda de rock – o hábito de tocar baixo segue até hoje, mesmo durante as sessões de trabalho. Para ele, música e arte são coisas indissociáveis. “É o mesmo estado criativo para ambos”, disse o homem que vestia camisa xadrez, correntes penduradas na calça e coturnos. O espírito rebelde da juventude ainda está lá.

Nos últimos tempos, ele tem desenhado principalmente capas. O esquema de criação é simples: prepara até três sketches bem soltos, com o objetivo de mostrar a ideia geral da ilustração, e os envia para as editoras. Material aprovado, termina a arte em cima desses mesmos esboços, algo bem diferente da maioria dos quadrinistas.

“Reflita sobre seu trabalho somente quando estiver finalizado”, filosofou. Não existe dica mais Simon Bisley do que essa. Seus traços refletem bem sua personalidade: selvagem, maluca, descompromissada, forte. Artista e arte são inseparáveis nesse caso – um não pode existir sem o outro.

 

Integridade narrativa
risso

“Quadrinhos estão relacionados com educação, com a cultura de um povo”, afirmou o argentino Eduardo Risso. Desenhista da série 100 Balas, Batman: Cidade Castigada e outros materiais renomados – parte deles em parceria com o roteirista Brian Azzarello -, o artista pensa as HQs não apenas como entretenimento barato. São elementos culturais importantes da sociedade, mas precisam sempre se renovar para competir com outras mídias, como séries de televisão e videogame.

E essa tarefa é, em grande parte, responsabilidade do artista. É ele quem deve capturar o leitor pelo olho. Para isso, existem diversas ferramentas, usadas largamente por Risso: romper a estrutura da página, fazendo as imagens “sangrarem” até as margens; sobrepor quadros; fazer personagens atraentes ao olhar, mesmo se forem pessoas feias; transmitir a essência dos cenários em que a história se passa, ao invés de simplesmente copiar pontos turísticos conhecidos.

O cinema também serve como fonte de inspiração. Ele citou o modo como Steven Spielberg, em E.T – O Extraterrestre, filma os primeiros minutos da história, mostrando apenas o essencial dos personagens e objetos em cena, sem redundância. Sugerir, não mostrar – basta pegar qualquer quadrinho de Risso para perceber que segue a regra à risca, usando e abusando do contraste entre claro e escuro como um mestre.

Luz e sombra, aliás, têm a função de separar planos, deixar claro o que está em close e no fundo do cenário. No começo da carreira, se acostumou a fazer histórias em preto e branco. Assim, aprendeu a relevância de construir uma narrativa clara, de fácil entendimento. “Cores ajudam a mostrar detalhes, mas em algumas histórias você não entende a arte, o que está acontecendo, sem cor. Isso é um erro do artista”.

Risso revelou uma história curiosa: quando garoto, fez um curso de seis meses ministrado por Alberto Breccia, verdadeiro monumento do quadrinho argentino. O jovem aspirante aproveitava todos os momentos para conversar com o veterano e absorver sua experiência. Fez tanto isso que se esqueceu do principal, desenhar: produziu apenas duas páginas durante todo o curso.

Outro compatriota, José Muñoz, também foi inspiração para sua composição geométrica, além de Moebius e Sergio Toppi. Do mangá, também vieram ideias sobre narrativa visual e questões referentes à passagem do tempo e aproveitamento do espaço – Vagabond, série de Takehiko Inoue, ganhou elogios.

Quando criança, no entanto, ele não lia super-heróis. E sua opinião atual sobre a indústria de massa dos quadrinhos é bastante crítica: “A dinâmica do super-herói é uma máquina de destruir artistas”. Seus trabalhos com o gênero eram mera desculpa para um público maior entrar em contato com seus projetos autorais. A integridade de Risso está em seus traços e, principalmente, na sua visão de mundo.

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