Eu fico impressionado (negativamente) em perceber como boa parte do público interessado em quadrinhos na Comic Con Experience não dá a mínima atenção para as masterclasses e paineis com artistas. Mais do que pegar autógrafos e tirar fotos, esse é o momento que compensa o ingresso caro, as filas na entrada e o cansaço no fim do dia.

Com formato semelhante a workshops, as masterclasses são um espaço no qual o quadrinista explica seu processo criativo, se aprofundando em questões referentes à sua arte e ao mercado de HQs. Na internet, só vejo o o jornalista e tradutor Érico Assis comentando sobre elas. Por isso, segue um relato do que vi na sexta-feira, dia 2. Amanhã, publico a programação de sábado.

 

De criança prodígio a mestre das formas expressionistas
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O pequeno Bill Sienkiewicz era fascinado por desenho: estudava os livros de enfermagem da mãe quando mal tinha idade para entender o que era um deltoide. Lia muito quadrinho também – e, para ele, isso o ajudou a ampliar sua capacidade de enxergar o mundo. “Se você tem contato com HQs desde cedo, se torna um leitor melhor do que os outros“, afirmou, logo no início de sua apresentação.

O público quis saber o segredo para conquistar o mercado. Fácil: muito suor. Desenhar se assemelha ao ato de dirigir. No início, você é consciente de todos os movimentos necessários para o carro andar ou fazer esboços. Com o tempo, quanto mais profissional a pessoa fica, mais acostumada com o processo inteiro. Assim, os problemas inerentes surgidos ao longo da carreira são resolvidos de forma mais rápida.

Cuidar da principal ferramenta de trabalho, o corpo, também é fundamental. O pai de Sienkiewicz teve problemas com a bebida – e, mais tarde, aos vinte e poucos anos, ele mesmo andou se metendo em encrenca, chegando a quebrar a mão certa vez, bêbado. Recebeu o acidente como um alerta. Largou o álcool e o cigarro, virou vegetariano. Não queria destruir seu principal instrumento.

Voltando à questão da anatomia: quando entrou na indústria, percebeu que tudo o que estudou sobre o assunto não importava. Se desenvolvesse um novo herói, outros desenhistas iriam desenhá-lo – assim funcionam as engrenagens das editoras. Por isso, cada artista deve oferecer os seus conceitos pessoais de anatomia aos personagens. Warlock, de Novos Mutantes, criação sua, foi o exemplo citado. Com formas que não se encaixavam em moldes predeterminados, o robô se tornou o cartão de visitas de um dos artistas mais experimentais a fazer quadrinho mainstream nos Estados Unidos.

bill3Hoje, se aceitam coisas novas com mais facilidade, diferente de quando era preciso romper barreiras“, relembrou. Nos anos 1980, nem mesmo o sucesso editorial garantia vida longa a publicações com arte fora dos padrões. Era sempre preciso voltar ao desenho certinho e limpo. Isso aconteceu enquanto estava em Novos Mutantes – a Marvel pediu para ele parar com as pirações. Resultado: saiu do título. “Eu quero ser capaz de contar a história do meu jeito ou estou fora“.

Perguntado sobre a criação de Elektra Assassina, seu trabalho mais famoso, comentou detalhes sobre o processo criativo, incluindo a escolha por retratar um dos personagens, candidato à presidência, com um sorriso congelado no rosto (a solução foi fotocopiar a cabeça de modelos masculinos presentes em catálogos de produtos antigos). “Não é algo como ‘vou fazer isso e já sei o resultado’. Muitas vezes, os processos vêm como uma resposta emocional“.

Sienkewicz não só falou, mas também desenhou. Fez uma figura feminina com traços soltos e velozes, como se sua mão dançasse conforme surgiam as linhas curvas. Para a silhueta masculina, sai a leveza e entra o peso das linhas retas e grossas. Para ele, a arte fotográfica, acadêmica, perde emoção, perde força. Deve-se capturar a distorção e expressão dos corpos o máximo possível.

Outra pergunta que não pôde faltar foi a respeito do lendário projeto Big Numbers, com Alan Moore – somente duas edições, das doze originais, foram publicadas no início dos anos 1990. Afirmou que não ter terminado essa série é o maior arrependimento da carreira. Também, pudera: o caos, tema central da história, tomou conta de sua vida na época. Além do processo desgastante de desenho, que usava 45 pessoas como modelos reais para os personagens, Bill passava por momentos pessoais terríveis, incluindo a morte de familiares e término de relacionamentos. O diretor de cinema Terry Gilliam até hoje tenta filmar sua versão de Don Quixote. Quem sabe Moore e Sienkiewicz não voltem algum dia para o maior quadrinho jamais finalizado?

 

Busca pela voz narrativa própria
brian

Brian Azzarello foi bem preguiçoso durante sua masterclass. O roteirista, natural de Chicago, se limitou a responder perguntas do público, nem sempre bem formuladas, diga-se de passagem. Podia ter preparado algo para falar – ou ao menos comentar tópicos relevantes para os jovens ansiosos em ouvir as dicas de escrita do autor de 100 Balas.

De qualquer forma, revelou fatos interessantes – como a busca de editores por novos talentos na internet. Sim, webcomics são ferramenta importante para a divulgação do trabalho nos Estados Unidos.

Para ele, o roteiro de quadrinho não é algo fixo: pode ser feito de diferentes maneiras, de acordo com o estilo do escritor. Quebrar quadros e páginas não é com Azzarello, por exemplo – afirmou que odeia fazer a direção de arte de suas obras. Por isso, sempre trabalha com desenhistas talentosos, que não precisam ser “dirigidos” para criar a narrativa visual. Impossível não lembrar da parceria gloriosa com o argentino Eduardo Risso.

Sobre a recente passagem pelo título da Mulher-Maravilha, sucesso de público e crítica, comentou ter desenvolvido a trama de forma semelhante a temporadas de séries de TV, com longos arcos temáticos de um ano de duração, aproximadamente. A ideia da série foi repaginar os mitos e deuses antigos para os tempos atuais.

Uma última dica valiosa: explicar o mundo no qual se passa a história por meio dos personagens. São eles os responsáveis pela construção do drama e dos sentimentos. Portanto, deixe-os falar.

 

Workaholic dos detalhes
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Um dos principais convidados da CCXP 2016 era Vincent Deighan. Não sabe quem é? Tudo bem, pouco gente reconheceria Frank Quitely por seu nome de batismo – sua alcunha famosa é uma “identidade secreta”, como ele mesmo definiu, uma brincadeira com a expressão inglesa quite frankly (algo como francamente ou sendo muito sincero em português).

Um dos mais inventivos artistas das últimas duas décadas, esse escocês de Glasgow é bastante reconhecido pela parceria com outro escocês, Grant Morrison. Quitely revelou que o roteirista dá plena liberdade para sua interpretação da história. São poucos os momentos em que precisa seguir determinações específicas.

Em We3, por exemplo, o artista criou páginas com diagramação tridimensional, o que não estava no roteiro. “Nós nos sentávamos para definir essas coisas, sendo que Grant sempre me instigava a tentar o diferente“, explicou. Para a mesma obra, ele desenhou 108 quadros para uma cena cujo ponto de vista era de câmeras de segurança e os recortou, de forma a facilitar a criação do layout das páginas. Esses quadros eram guardados numa caixinha de papelão, cortesia da esposa de Quitely.

Essa forma heterodoxa de produzir, aliada ao traço extremamente detalhista, fazem de sua produção um processo bastante lento. “Não ganho mais dinheiro colocando mais detalhes, mas é preciso ter alegria na hora de desenhar“. Ele diz saber que os leitores vão gastar tempo olhando seu trabalho.

Workaholic, Quitely trabalha seis ou sete dias por semana, cerca de dez horas por dia, num estúdio próprio. A lentidão com que desenha já ganhou fama na indústria: se no começo da carreira, precisava entregar histórias do Juiz Dredd toda semana, hoje se dá ao luxo de fazer quatro, seis edições de 24 páginas por ano – e isso em um ano movimentado. Como se não bastasse, nos últimos tempos, sua velocidade ainda diminuiu: revelou ter trabalhado mais para entregar menos material. “Nunca estou satisfeito o bastante com meu trabalho“, disse, assumindo o lado perfeccionista. Se for para continuar fazendo as maravilhas encontradas em Authority, Flex Mentallo ou Grandes Astros Superman, tudo bem.

Por falar em Grandes Astros, vale prestar atenção na diferença da postura de Clark Kent e seu alter-ego, o Superman. Quitely criou identidades diferentes para ambos, que são a mesma pessoa, somente com a posição do corpo. Enquanto Kent anda com as costas curvadas, parecendo um homem tímido e atrapalhado, o herói estufa o peito, um símbolo do otimismo.

E quanto ao futuro de sua carreira? “Fiz vários quadrinhos que eram meu sonho de criança. No momento, não tenho vontade de voltar para grandes personagens“. Porém, trabalhos autorais estão na mira. Há alguns anos, começou a escrever histórias curtas – possui quinze ou vinte roteiros que pretende desenhar algum dia. O cinema também faz parte de seus planos: seu curta animado Nothing to Declare está em processo de financiamento coletivo. Quitely nas HQs, nas telas, em todo o lugar – quanto mais, melhor.

*Fotos de Renato Fernandes

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2 comentários sobre “CCXP 2016: masterclasses de Bill Sienkiewicz e Brian Azzarello; painel de Frank Quitely

  1. Olá. Descobri esse site ao ler a matéria sobre MENSUR do coutinho e fiquei muito feliz ao ver que alguém se prestou a fazer um release das masterclasses da CCXP (que não fui por N motivos, em especial por achar que não teria como encontrar os artistas mais destacados pra pegar um autógrafo – o que o começo desse texto tratou de descartar). Muito obrigado!

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