Ler Hellboy não é um prazer apenas pelo universo mítico, cheio de criaturas fantásticas, criado por Mike Mignola: o que o artista faz graficamente enche os olhos de qualquer leitor e merece ser analisado mais de perto.

Lá atrás, no primeiro texto deste blog, comentei sobre como a elipse é ferramenta essencial para a linguagem das HQs. Um quadrinho não mostra o tempo de forma contínua (como o cinema, por exemplo): cada quadro representa um momento específico, uma “fatia” temporal – claro que alguns autores brincam e transformam essa ideia, como comentei aqui, mas isso não importa agora.

A grande questão para o quadrinista é: o que mostrar, como mostrar e o que deixar subentendido. Um personagem sai de casa e pega um táxi para encontrar alguém? Não tem necessidade de se desenhar todo o trajeto, talvez nem mesmo ele na rua entrando no carro – a não ser que isso seja relevante para a história. Enxugar a narrativa deixa a leitura mais fluída.

Manipular o tempo é fundamental. Esticar momentos de suspense e deixar sequências de ação mais frenéticas são técnicas que reforçam os elementos dramáticos do roteiro. Tudo isso para falar que Mignola é verdadeiro mestre da narrativa fragmentada e silenciosa. A seguir, algumas páginas ou sequências que mostram as principais características do artista.

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Em O Cádaver, encontramos o tipo de decupagem mais comum de Mignola: longas sequências sem diálogo, recheada de planos detalhes e closes.

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Elegância nos movimentos: nos primeiros três quadros, o fechamento do sarcófago é acompanhado pelo zoom em direção ao objeto. O quinto quadro não precisa de palavras para descrever o resultado macabro do sacrifício da personagem.

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A elipse em sua essência: ao tirar os momentos mortos da ação (como quando o personagem se aproxima da porta quebrada ou vai em direção à máquina), o autor imprime um ritmo mais veloz na mudança de quadro para quadro, tornando a leitura mais dinâmica.

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Em A Natureza da Fera, Hellboy precisa encontrar e matar um dragão numa floresta mística. Nessa página, o tempo é esticado para deixar a situação mais tensa, já que o protagonista não sabe se irá encontrar o bicho. Pra alcançar esse efeito, dá-lhe closes na estátua, nas flores, no pássaro cantando… O pássaro, aliás, se torna essencial pro suspense: ao parar de fazer barulho e voar, já sabemos que algo ruim vai acontecer.

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Essa sequência de O Verme Vencedor mostra como uma decupagem econômica deixa uma HQ menos redundante. A metralhadora fixa que atira em Hellboy já tinha sido mostrada na página anterior. Por isso, basta usar momentos como o clarão das rajadas e as balas caindo no chão para reforçar o perigo da situação.

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O assassinato do dono de um museu de cera é um dos pontapés iniciais na trama de O Despertar do Demônio. Aqui, Mignola insere planos detalhes dos objetos e estátuas em exposição enquanto mostra a morte do velho, tudo para deixar a cena ainda mais incômoda.

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Além dos diálogos mínimos em determinadas sequências, as onomatopeias são outro elemento importante para a narrativa de Hellboy.

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Em diálogos, vemos o campo/contracampo clássico do cinema. Ao falar, os personagens geralmente são mostrados em planos médios ou closes. É pouco comum um balão indicar alguém fora do quadro – e isso deixa as cenas mais pessoais, já que o leitor sempre vê os personagens envolvidos nelas.

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A Caixa do Mal é fácil uma das melhores histórias do título – e uma das mais bizarras, no sentido de incluir tanta coisa surreal que até parece mentira alguém ter pensado em escrever algo assim. A página acima resume todo o talento de Mignola para fazer quadrinhos. Tem de tudo: modulação do tempo (esticando o suspense, como nos três primeiros quadros, ou cortando as ações para deixar tudo mais frenético, nos três últimos), uso de plano detalhe para enfatizar um objeto importante, onomatopeia.  Fora que ainda tem uma das melhores sequências da história das HQs em todos os tempos:

-Aquilo é um macaco?

-Ele tá armado!

BLAM BLAM

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