A notícia surgiu neste sábado, vinda lá da New York Comic Con: a brasileira Bilquis Evely será a nova desenhista do título da Mulher Maravilha. A partir do próximo ano, ela assume a arte dos números pares da revista – que, até então, estavam sob os cuidados da australiana Nicola Scott. E vale lembrar que Evely já estará nas páginas do gibi neste mês, como artista convidada numa edição especial.

Mulher Maravilha. Não é a HQ de um super-herói restolho, lido por ninguém. Mas, sim, a de uma das personagens mais importantes dos quadrinhos mundiais. Uma das bases sobre a qual foi construída a DC Comics, ao lado de Superman e Batman. Dá pra contar nos dedos de uma mão os brasileiros que já tiveram a chance de, assim como Evely, trabalhar no mainstream do mainstream do mercado americano.

Esse anúncio me fez pensar em várias coisas. Olhei pras minhas mal arrumadas pilhas de quadrinhos e procurei por mulheres autoras, sejam roteiristas, desenhistas ou coloristas. Encontrei os seguintes nomes (não contei participações em antologias): Julie Maroh, Alison Bechdel, Luciana Cafaggi, Ulli Lust, Colleen Doran, Rutu Modan, Bianca Pinheiro, Pia Guerra, Fiona Staples, Kelly Sue DeConnick, Jillian e Mariko Tamaki, Marie Pommepuy (do casal belga Kerascoët), Cris Peter, G. Willow Wilson, Jill Thompson, Cristina Eiko, Annie Wu, Emma Rios, Kathryn Immonem, Ann Nocenti. Pode ser que tenha mais algumas, não sei.

Lista grande, né? Até parece… Comparada com a quantidade de artistas homens dessa biblioteca pessoal, é minúscula. Chuto que seja umas dez vezes menor, no mínimo. E a situação fica ainda pior quando olho para a presença de compatriotas – só quatro brasileiras.

Quer dizer que não existem mulheres quadrinistas em nosso País? Longe disso. A autora Aline Lemos, do Desalineada, compilou mais de QUATROCENTOS nomes de profissionais nacionais que trabalham ou trabalharam nessa mídia do início do século 20 até hoje. O site Lady’s Comics criou também um banco de dados somente com criadoras contemporâneas.

Então, por que tão poucas minas na estante?

A verdade é que a maior parte delas está atuando de forma independente (internet, zines etc.). Sua presença em editoras é minúscula: o financiamento coletivo se tornou uma ferramenta fundamental para elas, permitindo a publicação de material que jamais veria o papel anos atrás – por falta de interesse das empresas ou por atender um público específico.

Aqui entra uma questão pertinente: quantas obras feitas por mulheres brasileiras estão no catálogo de selos especializados em quadrinhos? Resolvi fazer a conta – e o resultado é terrível. De seis editoras analisadas, apenas 18 HQs. A lista se divide da seguinte forma:

  • na Companhia das Letras, quatro (As Barbas do Imperador e D. João Carioca, da antropóloga Lilia Moritz Schwarcz; Guadalupe, da poeta Angélica Freitas; e A Máquina de Goldberg, da jornalista Vanessa Bárbara);
  • na Jambô, sete (Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço Vol. 1 e 2, de Germana Viana; Holy Avenger Vol. 1 a 4 e DBride: A Noiva do Dragão, de Érica Awano);
  • na Marsupial, três (O Astronauta de Pijama, de Samanta Flôor; Bia Quer um Cachorrinho, misto de livro infantil ilustrado com quadrinho de Vivian Marassi; e Pétalas, com cores de Cris Peter);
  • na Mino, uma (Dora, de Bianca Pinheiro);
  • na Veneta, duas (Carolina, da mestre em língua portuguesa Sirlene Barbosa, e Afrodite – Quadrinhos Eróticos, da poeta Alice Ruiz);
  • na Zarabatana, uma (Spam, coletânea de Cynthia B., Samanta Flôor, Camila Torrano, Germana Viana e Cátia Ana).

A Nemo vai contra esse cenário de pouco espaço para autoras. Dos 15 criadores a serem lançados ao longo de 2016, 12 são mulheres – quatro brasileiras, o equivalente a mais de um quarto do total. Em cinco anos de vida, a editora já publicou trabalhos de Bruna Vieira, Luciana Cafaggi, Paula Pimenta, Fernanda Nia, Fefê Torquato, Bianca Pinheiro e Marcela Godoy.

Quem também aposta no talento feminino é a Maurício de Sousa Produções: das doze edições da Graphic MSP, selo com histórias da Turma da Mônica criadas por grandes nomes do mercado, sete possuem mulheres na equipe artística.

O que dá pra concluir desses dados todos? a) existem muitas mulheres quadrinistas no Brasil, porém b) a visibilidade da maioria é quase nula – e, geralmente, voltada para um nicho no qual elas mesmas já estão inseridas. Com isso, existem poucas chances de alguém de fora desse círculo entrar em contato com as obras. Só que isso nem é o pior.

Imagine ser uma garota que gosta de desenhar, ali por volta dos 14, 15 anos. Você ama ler quadrinhos. Inclusive, já pensou em criar algo seu. Mas, analisou melhor: não deve ter menina que faz gibi. Nas bancas, só encontra cara escrevendo e desenhando super-herói. Nas livrarias, uma ou outra coisa aparece com nome feminino na capa. Então, deixa pra lá, né?

Nesse texto da quadrinista Renata Nolasco, são apontados interessantes pontos a respeito do papel coadjuvante exercido pela mulher nas HQs (e também na arte em geral). Resquícios do mercado criado por homens para homens desde o início do século 20 ainda vivem fortemente em pleno 2016. Ao citar a historiadora americana Linda Nochlin, Nolasco comenta que “as mulheres não se destacaram na história da arte porque eram desencorajadas a se aperfeiçoar e a ingressar em escolas artísticas”. Dá pra concordar plenamente.

Por isso tudo, as editoras precisam dar mais atenção ao trabalho de autoras – da mesma forma que se interessam pelos autores. Os leitores também têm sua parcela de culpa, eu incluso. Mas, sem oferta ao grande público, fica difícil ler coisas novas. Dessa mudança de pensamento depende toda uma nova geração de leitoras/artistas. Afinal, quadrinhos também são coisa de menina.

E agora, após essa volta toda, volto à Bilquis Evely. Ano que vem tem filme da Mulher Maravilha. Aí, a garotinha vai sair do cinema, passar na banca e encontrar um gibi da personagem (uma mulher forte, independente, que não precisa de ninguém para ditar suas ações) com o nome de uma brasileira na capa. Um belo empurrão para mais Evelys surgirem por aí.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s