Ouso dizer que a criação do selo Vertigo pela DC Comics é a mais importante iniciativa do quadrinho americano moderno. Ajudou a institucionalizar uma abordagem madura nos comics, um entretenimento adulto à parte do mundo dos super-heróis, seguida por todas as outras editoras do mercado (para o bem e para o mal).

A lista de publicações da Vertigo é gigantesca. Seus clássicos são conhecidos por quase todo mundo que gosta de HQs. Algumas séries, como Sandman ou Preacher, já fazem parte da cultura popular. Mas, para cada “arrasa-quarteirão definidor dos rumos do mercado”, existem dezenas de Gone To Amerikay, Junk Culture e Scarab implorando para serem descobertos (eu mesmo nunca tinha ouvido falar desses antes de procurar na Wikipedia). Com certeza nem tudo isso deve ser bom, mas que existem obras-primas perdidas por aí, não tenho dúvidas.

Por isso, começo uma série de textos com indicações de materiais do selo que considero de alta qualidade, mas completamente abaixo do radar da mídia e grande público.

O Sistema (Peter Kuper)

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(Publicado originalmente em três edições – maio a julho de 1996 – e depois coletado em volume único. No Brasil, saiu pela Editora Abril, em 1998)

Peter Kuper é um mestre da política. Quase todos os seus trabalhos possuem um olhar crítico em relação a governos, industrialização, exploração das classes mais baixas – dá pra encontrar um subtexto desse tipo até mesmo no período em que passou à frente da tira de humor Spy vs. Spy. Em O Sistema, ele cria uma complexa rede de personagens que se esbarram por acaso em uma metrópole: o policial corrupto, o milionário aproveitador, a stripper que trabalha duro, o jovem envolvido no crime etc. O enredo não possui grandes firulas: retrata a vida dessas pessoas, entrelaçadas sem nem se darem conta.

A HQ é muda – a não ser por alguns jornais, televisões e placas espalhadas pelos ambientes. E essa talvez seja a principal marca da carreira de Kuper: um dos poucos artistas que, literalmente, não precisam de palavras pra contar histórias. A forma como constrói seus quadrinhos mais se assemelha a uma técnica comum no cinema, o plano-sequência. Assim, consegue encadear diferentes cenas (com personagens, locais e ações diversas) de forma fluída, sem deixar o leitor confuso. Sua arte também pode ser considerada única: quase um grafite sobre papel, pintado com tinta spray – veja detalhes do processo criativo aqui.

O título faz referência às engrenagens sociais, manipuladas por uns poucos, que diariamente devoram muitos. A única saída é mesmo se deixar levar, pois não dá pra escapar do sistema.

Face (Peter Milligan e Duncan Fegredo)

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(Publicado originalmente em edição única em janeiro de 1995. Nunca lançado no Brasil)

Assim como a maioria dos quadrinhos autorais do roteirista inglês Peter Milligan, Face é uma viagem bizarra por situações nas quais os personagens nunca estão no controle. Aqui, temos como protagonista um jovem cirurgião plástico. Típico novo rico, daqueles que precisam falar alto e gastar dinheiro pra ser respeitado, é um homem pequeno: tem uma esposa-fetiche que trata como objeto, canta mulheres pra se afirmar como macho, fala mal do próprio pai pelas costas…

Ele ganha a chance de se firmar profissionalmente quando é escolhido para rejuvenescer um velho e genial pintor, verdadeira lenda artística do porte de Dalí e Picasso, que prepara seu retorno à mídia após décadas de reclusão. A partir daí, a história vira um pesadelo violento, regado pelos comentários irônicos de Milligan a respeito da arte moderna e do culto à beleza. O corpo humano seria a nova tela em branco, a nova massa de modelar, na qual o artista cria suas obras?

Os traços pesados de Duncan Fegredo, beirando rabiscos disformes em alguns momentos, traz o devido aspecto soturno para uma obra estranha. O incômodo não vem apenas dos temas abordados, mas também da forma como os personagens são desconstruídos à medida em que afundam num inferno psicológico. O médico bonachão se transforma em criança medrosa, enquanto o idoso decrépito manipula a todos.

A conclusão amarra tudo isso em uma reviravolta ridiculamente genial, surreal como o mundo retratado. Arte, carne mutilada e sangue: o cineasta David Cronenberg aprovaria Face com gosto.

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2 comentários sobre “Pérolas esquecidas da Vertigo – parte 1

    • Que bom que gostou, Rafael!

      A edição da Abril de O Sistema é bem fácil de achar em sebos. Tem ainda uma capa dura importada. Comprei no site da Ugra por R$50 – procura lá que deve ter ainda.

      Agora, Face só baixando ou importando, pois nunca foi relançada. Veja se na Rika Comic Shop eles têm – às vezes, surgem uns importados bacanas por lá.

      Abraços

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