A vida pode ser cruel numa velocidade espantosa. O mundo dos quadrinhos ainda lamentava a notícia, divulgada na sexta-feira última, de que Darwyn Cooke recebia tratamento paliativo por conta de um agressivo câncer, quando, no sábado pela manhã, familiares confirmaram seu falecimento. Em menos de 24 horas, fomos da tristeza pela doença ao luto, sem mal conseguir refletir sobre esses sentimentos. Cooke se foi aos 53 anos, cedo demais. Tinha ainda tanta coisa pra fazer, tantos corações pra aquecer com seu trabalho… É lamentável um artista desse porte morrer tão jovem.

Entristece também notar que Cooke não possui uma bibliografia das mais extensas. Bom, quem fez DC: A Nova Fronteira não precisa se preocupar muito com isso. É sua obra mais óbvia, reconhecida e importante. Não por menos: essa carta de amor aos ideais altruístas representados pelos super-heróis costura dezenas de personagens da DC Comics ao mundo real – os prósperos, complexos e politizados Estados Unidos do pós-Segunda Guerra Mundial.

Ele ajudou ainda a modernizar vários conceitos da Mulher-Gato, em parceria com o roteirista Ed Brubaker, trazendo ao título uma atmosfera de heist movie (filme de golpe), com forte influência de clássicos como Ladrão de Casaca, Onze Homens e Um Segredo, Golpe de Mestre. Selina Kyle se tornou mulher forte e independente, uma gatuna (perdoem-me pelo trocadilho) da melhor espécie.

Revitalizou o Spirit, lendário personagem de Will Eisner, e quadrinizou a série de livros hard-boiled Parker, do escritor policial Donald Westlake (mais conhecido pelo pseudônimo Richard Stark). Fez um punhado de histórias curtas, edições especiais (procure pela maravilhosa Solo #5), capas e ilustrações. Trabalhou também com animação, incluindo a cultuada Batman: A Série Animada.

Mas tudo isso parece tão pouco. Cooke ainda estava no caminho para a maturidade artística – por mais contraditório que pareça, dado o alto nível de tudo que fez na carreira. Mas especular a respeito de um futuro impossível é apenas isso mesmo, especulação. O que o artista criou efetivamente estará sempre por aí, para ser lido e relido. Fica a pergunta, então: qual mensagem eles quis passar com seus quadrinhos?

Quando Cooke precisava de matéria-prima para suas histórias, voltava lá para as décadas de 1940-60, época do otimismo pelo “sonho americano”, de JFK, da luta pelos direitos civis. Claro que nem toda sua obra se encaixa nessa temática. Mas vários trabalhos compartilham da ideia humanista de que precisamos retomar valores tão pouco usuais hoje em dia como força de vontade, empatia, fraternidade. Ao usar cenários e situações talvez até datadas, o autor fala do mal-estar na civilização atual: quando todos pensam em si mesmo, ninguém está pensando em nada.

Aí entra o poder do super-herói: trazer à tona os bons sentimentos de uma pessoa. Existe algo mais onírico, mais fantástico, do que alguém rasgando os céus para lutar pelo oprimido? Do que dedicar sua vida ao outro sem querer nada em troca? Do que praticar o bem, no sentido mais filosófico do termo?

Esse é o legado de Cooke: uma história em quadrinhos pode, e vai, fazer de você um ser humano melhor. Basta aplicar na vida real o que está no papel.

darwyncooke

☆ 16 de novembro de 1962     † 14 de maio de 2016

(Clique na galeria abaixo para ver as artes em tamanho maior – ou abra cada imagem em diferentes abas do navegador)

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