Um diálogo absurdamente bizarro, lá pro meio da HQ, define bem o espírito de Hitler, biografia de uma das figuras mais nefastas da história, escrita e desenhada por Shigero Mizuki. Adolf, antes de ser o líder supremo da Alemanha, reprime a sobrinha bastarda Geli, seu amor platônico, sobre os “perigos” do mundo: “Judeus são a mais baixa das classes inferiores. Um único beijo mancha uma mulher para sempre. Você será judificada!“. A resposta da garota: “Você não faz sentido“.

Não que a obra seja somente sátira, como essa cena sugere, pois não é: acompanha com rigor histórico a transformação de um pintor fracassado em (quase) conquistador do mundo. Mas existe uma vontade de expôr certas facetas ridículas da personalidade de Hitler que seriam impensáveis de serem encontradas em líderes políticos de tal porte. E tem também o traço característico de Mizuki, marcado por personagens com expressões faciais cartunescas, exageradas, o que ajuda ainda mais a fazer graça dele e de seus seguidores.

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O começo do quadrinho é bastante poderoso. Várias imagens aleatórias são justapostas, incluindo judeus se escondendo em um sótão, pilhas de corpos num campo de concentração, um caminhão da SS se esgueirando pelas vielas de Paris, um comício nazista reunindo multidão que se perde de vista. Antes de entrar nos detalhes de sua vida, vemos os efeitos práticos da existência do führer no mundo ao seu redor. A partir daí, somos mandados de volta para Viena, em 1908, quando ele ainda era adolescente.

Dá pra dividir essa biografia em dois grandes blocos. O primeiro (equivalente a dois terços do livro) revela os anos de formação de Hitler, seu ingresso na política e ascensão como líder de partido. Na sequência, mostra-se o desenrolar da Segunda Guerra Mundial. Sendo justo, essa é a parte menos empolgante: apesar de narrada com maestria, oferece poucas informações inéditas para o leitor – afinal, a história do conflito pode ser encontrada em inúmeras outras obras. Além disso, Hitler deixa de ser o foco, tornando-se apenas um dos incontáveis personagens envolvidos na guerra. O filé mesmo vem antes, quando Mizuki segue os passos do jovem Adolf.

Ele é retratado como um ser tragicômico, um autista social, que finge se engasgar quando perguntado sobre a escola de arte (falhou o exame da academia vienense por duas vezes) e chorava como criança por seu país. Chegou a dormir em albergues, sem ter o que comer – ainda assim, conseguia ganhar a simpatia de notáveis das classes altas, sendo apadrinhado por eles. Essas contradições são o que chamam a atenção em sua vida: um mestre da oratória, capaz de render, sozinho, uma pelotão de inimigos durante a Primeira Guerra (serviu como mensageiro do exército alemão), que não conseguia trocar duas palavras com uma mulher, graças a sua timidez patológica.

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A abordagem ácida também deve muito à arte. Impossível não rir com as caras e bocas com que Mizuki desenha Hitler (e outros, principalmente Rudolph Hess e Benito Mussolini). Isso traz humanidade a eles – e, acima de tudo, os fazem parecer ridículos. Do alto de seus uniformes reluzentes, cheios de medalhas, ninguém sai ileso da troça feita pelo autor japonês.

Ainda sobre a arte, que desbunde! Várias técnicas estão presentes: uso de fotografias, retícula, pontilhismo, pincéis grossos. Os cenários de fundo, realistas e hiperdetalhados, são o contraponto à estilização (e aparente simplicidade) dos personagens. É como se o mundo real se transformasse em palco de teatro para essas pessoas.

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A dramaticidade e grandiosidade dos desenhos de Mizuki atingem proporções extremas nas páginas duplas da obra

O quadrinho não se limita ainda a ser apenas um relato biográfico. Mizuki dá enorme espaço para o contexto político alemão da época. Em especial, vale destacar a longa e tensa articulação para a escolha do novo chanceler alemão, em 1933, cheia de intrigas, manipulações e assassinatos. Isso só revela aquilo que já sabemos: política não se faz somente com idealismo.

A história de Hitler, por fim, se mostra uma jornada de obsessão e sorte, muita sorte – a morte passou raspando por ele mais de uma vez quando ainda não era o führer. Parecia fadado a cumprir o destino de liderar seu povo. Para sorte do mundo, seu sonho louco acabou antes de se concretizar inteiramente. E o mais inquietante é pensar que, por mais vilão que tenha sido, ainda era somente um homem. Uma cena em especial nos relembra disso, quando August Kubizek, companheiro de quarto de Hitler durante sua juventude em Viena, é interrogado pela CIA após o fim da guerra.

— Você era próximo dele?
— Sim.
— Teve algum benefício com isso?
— Não.
— Ele te deu dinheiro, acesso a mulheres?
— Não.
— Foi recebido por ele como convidado, sozinho, sem guardas?
— Sim.
— Então me explique por que você não o matou.
— Ele era meu amigo…

Shigeru Mizuki faleceu aos 93 anos no fim de novembro de 2015 – curiosamente, no mesmo mês em que Hitler era lançado pela primeira vez em inglês (a obra é de 1971). Ele lutou na Segunda Guerra e perdeu um braço. Mesmo assim, se tornou um dos mais renomados mangakás japoneses, principalmente por conta de seus trabalhos com cunho histórico. Essa edição americana, da Drawn & Quarterly, é muito boa: sentido de leitura oriental, extras diversas como pinturas coloridas, mapas, glossário de personalidades e eventos, além de prefácio por um tradutor de quadrinhos. Rezar para alguma editora brasileira se interessar pelo material – afinal, temos o vergonhoso número de 0 (zero) obras do Mizuki publicadas por aqui.

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5 comentários sobre “Ascensão e queda do Terceiro Reich: “Hitler”, de Shigeru Mizuki

  1. Bela indicação.
    Pois é, tanto clássico de mangá precisando ser publicado por aqui. Mas, sinceramente, não sei se teria público. Acho que o público de mangá é outro, mas talvez seja só impressão.

    O tradutor dos quadrinhos do Shigeru Mizuki pra Drawn & Quarterly escreveu recentemente um belo artigo sobre tradução. Vale a pena. Polêmico pra grande maioria do público (,que nunca estudou linguística, tradução).
    http://www.tcj.com/confessions-of-a-manga-translator/

    Um artigo do tipo que o Érico Assis escreveria por aqui. 🙂
    http://www.blogdacompanhia.com.br/2015/04/tradutor-escritor-palavrinhas-quadrinhos/

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