Ter um dos traços mais reconhecíveis do quadrinho nacional é para poucos. Olhando de longe, já dá pra afirmar se o desenho pertence ou não ao gaúcho Eduardo Medeiros. Suas formas lúdicas, quase infantis, se encaixam como luva nas tramas que se propõe a narrar: a vida comum de jovens e os caminhos tortos que seguem pela vida.

Em novembro último, durante o Festival Internacional de Quadrinhos, Medeiros lançou Open Bar vol. 1 pelo selo Stout Club. O enredo é um fiapo: dois amigos de infância, Barba e Leo, têm a tarefa de levar adiante o bar que pertencia ao falecido pai do primeiro. Mas, com esse fiapo, o artista consegue aquilo que faz melhor: desenvolvimento de personagem.

Em A História Mais Triste do Mundo, lançada em 2014, Medeiros consolidou seu estilo. Usou humor escrachado para comentar uma situação comum na adolescência de qualquer leitor – no caso, um coração despedaçado. No trabalho atual, a coisa muda de figura: ainda há vários momentos para rir, mas tudo quando gravidade. Além de amores não correspondidos, entram na equação o fracasso no trabalho e amizades estremecidas por segredos. O moleque brincalhão cresceu e agora tem contas pra pagar, casa pra arrumar.

Conversei com Medeiros por e-mail a respeito das ideias contidas em Open Bar. Veja o papo abaixo.

OpenBar

Capa de Open Bar vol. 1

Eduardo, em Open Bar, mais uma vez temos uma história cotidiana, sobre jovens que não sabem ao certo o que fazer da vida. A trama do bar deixado de herança nem é tão importante quanto a relação entre os personagens. É mais complicado escrever enredos como esse, mais intimistas, no qual os personagens precisam de forte empatia com o público?

Eduardo Medeiros: Não sei te dizer se é mais difícil, mas toda vez que faço uma HQ desenvolvo a trama e os personagens se sobrepõe a ela. O que eu acho ótimo. Acho que isso ajuda o leitor a se afeiçoar a eles, mas não é algo que eu faça de caso pensado.

Sua tira Sopa de Salsicha é um quadrinho autobiográfico – até pelo fato de você ser um dos personagens. A História Mais Triste do Mundo também aparenta ser fruto de experiências próprias. Qual sua ligação pessoal com o enredo de Open Bar?

Todas minhas histórias normalmente são um pouco autobiográficas. É um gênero que eu curto bastante e eu disfarço isso colocando as minhas histórias em outros personagens. Open Bar não tem muita coisa de mim. Porém, me vejo muito nos personagens, tanto o Barba como o Léo.

Eu admiro o humor auto-depreciativo dos seus personagens. Eles estão sempre rindo de si mesmos – ou entrando em situações que parecem grandiosas, mas na verdade são ridículas. Em Open Bar, o humor está lá, não tão escrachado como em A História Mais Triste, pois você trata de assuntos mais sisudos, como morte e traição amorosa.

Eu sempre tento levar minhas histórias pro lado do humor. Mas não se repetir é um exercício constante e aqui eu tento fazer isso de um modo um pouco diferente do que faço. Desde o início, a trama é centrada no drama dos personagens.

Seus trabalhos têm como característica um diálogo bastante fluído. Os personagens não falam de jeito empolado, cheio de frescura. Pelo contrário: são pessoas comuns, que falam de uma maneira comum, encontrada em qualquer rua de qualquer cidade do País…

Escrever diálogos é um exercício. É a parte que eu mais gosto na hora de trabalhar.

E como você dá voz aos personagens?

É muito uma questão de ir testando, ler em voz alta, reescrever, pedir para alguém ler pra ti…. Essas coisas ajudam bastante, mas basicamente eu tento deixar as conversas fluídas como se eu estivesse conversando com um amigo. Textos truncados me incomodam e me tiram da leitura.

open

Por falar em testar, voltando à questão do humor: como você sabe que as piadas do roteiro irão funcionar?

Puro achismo, mesmo. Eu só escrevo – às vezes é engraçado, às vezes não é tão engraçado, mas se encaixa na cena… Algumas pessoas já comentaram comigo que riram de cenas que eu nem escrevi para serem engraçadas! Acho que devo isso à relação que os personagens têm entre si.

Quanto tempo você levou para preparar Open Bar?

Fiz esse primeiro volume no período de um ano. Na verdade, Open Bar foi lançado primeiro como webcomic no site do Stout Club. Depois, juntei tudo o que tinha sido publicado, refiz bastante coisas e acrescentei quarenta páginas inéditas.

Algo que funciona muito bem são as cores monocromáticas. São inclusive um elemento narrativo, pois o presente tem uma cor (laranja) e o passado, outra (cinza). Por que essa escolha?

Como comentei, esse trabalho começou como tira semanal e as cores precisavam ser mais simples. O Rafael Albuquerque (criador do selo Stout Club) e eu chegamos à paleta que, no fim, casou bem com o estilo da HQ. Claro que fiz alguns testes até chegar a esses tons de cinza e laranja. Tudo é questão de ter paciência e testar mil coisas até achar algo que te agrade.

Ggostei bastante da forma como a trama vai crescendo, abordando temas mais densos, até o final inesperado e bizarro, com um enorme gancho para uma sequência. Você já sabe como vai trabalhar a continuação desse trabalho?

Eu montei Open Bar tentando seguir uma estrutura parecida com a de uma série de televisão. Ao todo, vai ter dois volumes e lançarei o segundo na CCXP 2016. Eu não comecei a trabalhar na arte dele ainda, mas sempre soube como a história termina. No momento, estou terminando o roteiro, tentando deixá-lo redondo, amarrando as coisas e, quando estiver seguro, começo a desenhar – o que deve acontecer em março.

OpenBar_60_final_baixa

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