Nem sempre o leitor comum de quadrinhos percebe a importância da cor para a narrativa gráfica. Mesmo assim, esse “esquecimento” por parte do público não impediu que a profissão de colorista ganhasse o enorme status de relevância para o mercado editorial atual. O que era um simples processo mecânico se tornou arte complexa e, hoje, coloristas são tão reconhecidos quanto desenhistas: frequentam convenções, distribuem autógrafos, são paparicados por fãs.

Dentre os talentos nacionais desse nicho, Marcelo Maiolo se destaca. Nascido em Piracicaba, interior de São Paulo, é formado em publicidade, mas nem pensa em voltar para esse ramo. Afinal, trabalha há anos para editoras americanas, tendo ajudado a construir vários sucessos editoriais de DC e Marvel nos últimos anos, incluindo Eu, Vampiro, All New X-MenOld Man Logan e a série do Arqueiro Verde escrita por Jeff Lemire.

No bate-papo que tive com ele, conversamos sobre inspirações para paletas de cores, a importância de se criar parcerias criativas com autores e o processo de recolorização de HQs antigas. Além disso, Marcelo comentou seu novo empreendimento, desta vez no ramo dos quadrinhos autorais: a série King, com roteiros de Joshua Hale Fialkov e arte de Bernard Chang, cujo primeiro número foi publicado no mês passado nos Estados Unidos.

Marcelo, gostaria de iniciar com uma pergunta óbvia: qual a importância da cor nos quadrinhos?

Marcelo Maiolo: Ela é como a trilha sonora de um filme. Você pode ter um filme sem trilha sonora, mas com a música você cria uma gama de emoções no espectador. Eu acredito que, além de criar essa emoção, a cor precisa conversar com o desenho e elevar a qualidade dele – e também trabalhar de forma narrativa, mesmo em detrimento da própria qualidade.

Já que você citou a cor como elemento narrativo, tenho visto vários exemplos brilhantes desse tipo de uso nos últimos tempos. Um exemplo é o trabalho do Jason Latour em Southern Bastards (da Image Comics), no qual ele utiliza o vermelho como uma lembrança da violência vivida pelo protagonista ao longo de sua vida. No Arqueiro Verde do Jeff Lemire, você também faz isso – principalmente no uso do branco para marcar as cenas de ação. Qual o grau de liberdade para experimentar na aplicação da cor ao trabalhar em grandes editoras?

Na Image, e principalmente na linha autoral de quadrinhos, você tem mais liberdade. Entretanto, isso não é algo que eu possa reclamar de Marvel e DC. Tenho muitos amigos do ramo que implicam com essa questão. Eu acredito que você deve inovar, pelo menos tentar. Tudo aquilo que é diferente assusta, mas às vezes o editor aceita e o publico gosta, então as portas se abrem. O que eu digo: sempre testar formas novas, especialmente no quesito narrativa, pois nem os editores nem os agentes sabem o que pode funcionar. Quem vai definir isso é o público.

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Em Arqueiro Verde, Maiolo utiliza o branco para dar destaque às sequências de ação física, criando uma identidade visual para os movimentos dos personagens

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A narrativa fragmentada do desenhista Andrea Sorrentino em Arqueiro Verde favorece as cores saturadas. Nesta página dupla, o vermelho também indica a sequência de leitura

Voltando para os primórdios de sua carreira: em qual momento você rumou para a função de colorista?

Quando fui convidado por dois amigos a ajudá-los com um roteiro. Durante a produção, pensamos em lançar o material digitalmente. Como um deles faria o desenho e o outro, as artes-finais, resolvi começar a xeretar sobre cor. Gostei da coisa e não parei mais. Mas eu já desenhei também – até os 14 ou 15 anos. Acho importante o colorista ter noções de desenho. Eu, por exemplo, ainda estudo muito o assunto, seja sobre linhas, hachuras etc.

Posso estar errado, mas percebo que sua paleta de cores usa bastante verdes, roxos, vermelhos. Cores fortes, saturadas, que fogem um pouco do estilo pesado e sombrio dominante no mercado de super-heróis. Como você definiria sua paleta de cores?

Com os verdes e vermelhos eu concordo, é minha paleta complementar favorita. O roxo nem tanto. Acho que a paleta é o elemento de trabalho do colorista em que ele se expressa mais fielmente. Muita coisa vem inconscientemente – e, nessa hora, tem um pouco da sua personalidade ali. Acredito que a minha paleta reflete muito a mim mesmo.

E de onde vem a inspiração para sua paleta, seu trabalho em geral?

No desenho, minha maior inspiração sempre foi John Buscema. Nas cores, são muitas pessoas – e diferem em momentos diferentes da minha carreira. Os quadrinhos europeus sempre foram grande inspiração, como o Enrique Fernández e o Juanjo Guarnido. Ultimamente, minha maior referência é o mundo real. Uso fotografias em quase 90% do meu trabalho. Tento sempre extrair do mundo real o que preciso e estilizo à minha maneira.

Você já está há um bom tempo na indústria americana de quadrinhos. Como é a relação entre desenhista e colorista por lá?

Depende de cada indivíduo. Dos dois artistas estrangeiros com quem trabalho há vários anos (Bernard Chang e Andrea Sorrentino), posso dizer que, apesar da distância, somos amigos, não só colegas de trabalho.

Essa questão de amizade parece ser importante pra você. Afinal, gosta de trabalhar em parcerias (seja com o Eddy Barrows ou com o Luciano Salles, pra ficar nos artistas nacionais).

Eu gosto de criar um vínculo, pois no mercado americano facilita para o colorista. Mas se não tomar cuidado, pode se acomodar com a situação. Aí, quando pego projetos fora dos EUA, principalmente com meus amigos da HQ nacional, estou procurando por desafios. O Luciano Salles sabe que não faço por grana – é lógico que preciso receber o mínimo necessário para despesas -, mas o foco é outro. Então, criar vínculo é bom, mas testar coisas e estilos é ainda melhor.

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L’Amour: 12 oz, de Luciano Salles

Qual o melhor trabalho em cores que você já viu nos quadrinhos?

O Mágico de Oz, de Enrique Fernández (nota do blog: essa adaptação do conto original de L. Frank Baum foi realizada pelo francês David Chauvel em 2005).

Por falar em clássicos, muitas pessoas do meio consideram bastante revolucionário o trabalho de cor feito por John Higgins em Watchmen, por conta do uso de cores secundárias, algo bastante incomum nas revistas de super-heróis da época (geralmente caracterizados por tons primários). Qual sua opinião sobre as cores de Watchmen?

Eu gosto bastante, tem muito a ver com a “sujeira” do meu estilo. E eu acho que ele teria ido muito além se não fossem as limitações técnicas da época.

Ainda sobre quadrinhos mais antigos: recentemente, alguns trabalhos de DC e Marvel, principalmente os dos anos 1970 e início dos 1980, estão passando por processo de recolorização digital para relançamentos. Você acha válido recriar as cores de uma HQ?

Não vejo problema nenhum. Não acredito nessa aura “intocável” da arte, como se a obra fosse algo acabado, divino. O problema mesmo é botar tudo numa cesta e colorir como se fosse qualquer quadrinho contemporâneo. Tem que estudar o estilo do desenho e da narrativa para as cores funcionarem, senão, cria-se uma monstruosidade atemporal. Acho válido, mas tem que ser bem feito.

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O Mágico de Oz, de David Chauvel e Enrique Fernández

Sobre seus projetos atuais: sua primeira HQ autoral, King, foi lançada no mercado americano em meados de agosto pela editora Jet City Comics. Como foi o processo de criação da série?

Na verdade, não é a primeira HQ autoral na qual participo – já fiz Fade Out aqui no Brasil. Mas é a primeira pros EUA. A ideia inicial e o roteiro são do Joshua Hale Fialkov, mas todos ajudam em todas as partes do processo (nota do blog: a arte é feita por Bernard Chang, parceiro de longa data de Maiolo). Nós temos um editor, óbvio, mas acaba funcionando de um jeito diferente. Inicialmente, teremos 5 números. Se as vendas forem boas, aí sentamos e renegociamos o contrato. O Josh já tem material para muitas edições. Veremos.

Já existe algum plano no sentido de lançar King no Brasil – ou ainda é cedo pra pensar nisso?

Eu quero. E, conversando com o Bernard e o Josh, eles têm interesse, mas só se for por uma editora bacana, numa negociação bacana pra todo mundo. Eu acredito que King é uma HQ que funcionaria muito bem no Brasil. Tem muito humor – e humor negro. Ver os problemas do mundo a partir da perspectiva do humor é uma marca nossa.

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Capa de King #1

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