Uma leitura apressada de Lavagem não faz jus ao potencial narrativo da obra mais recente de Shiko, paraibano que surgiu como uma das mais originais forças criativas do quadrinho nacional nos últimos anos. Apesar de relativamente curta (72 páginas), a HQ clama por atenção, cautela, para ser apreciada. Só assim se consegue entrar nas múltiplas camadas dessa crítica social travestida de horror psicológico. Acho até que reler Lavagem é tão vital e recompensador quanto entrar em contato com ela pela primeira vez.

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Capa de Lavagem, lançado em abril pela Mino

Não que seja aquele típico quadrinho “difícil”. Pelo contrário: a trama é um fiapo, baseada livremente num curta-metragem criado pelo próprio Shiko em 2011. Mostra um casal que mora em alguma região alagada do Nordeste. O homem desconfia da traição da mulher, enquanto ela, após visita inesperada de um desconhecido no meio da noite, acredita que será assassinada pelo marido.

Mas, embora a história seja simples de ser acompanhada, existem muitos becos no enredo para se perder. São insinuações, significados escondidos, jogos narrativos criados pelo artista a partir de uma situação banal, a deterioração de um casamento, que transformam Lavagem em análise psicológica da alienação social a qual boa parte da população de um país como o Brasil está sujeita a enfrentar, dia após dia.

O elemento-chave para o quadrinho funcionar é a tensão crescente entre os personagens – a mulher, o homem e, posteriormente, o terceiro elemento que se instala na casa deles. Conforme os fatos se desenrolam, mais há a sensação de estranhamento com as coisas ao redor. Como em um filme de David Cronenberg ou David Lynch, imagens fantásticas, de pesadelo, pontuam a trama – incluindo bizarrices sexuais, animais mortos, violência inesperada.

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E esses momentos não estão lá somente para chocar. Além de criar suspense, geram dúvida no leitor. Estariam realmente acontecendo? Seriam fruto da imaginação dos personagens? O próprio fato que inicia a trama (a suposta traição da esposa) jamais se confirma. Ela teve relações extraconjugais ou apenas desejava, em sua mente, outro homem? Essa batalha entre real e inconsciente, porém, não está escancarada. Explica-se nas entrelinhas. Basta olhar para a situação ao redor dos protagonistas.

Se em uma metrópole já é possível encontrar isolamento e alienação em grandes proporções, nem dá para imaginar a situação nos confins do País. Lavagem se mostra um tanto documental nesse sentido. Em meio à pobreza e ao analfabetismo, a televisão se torna uma das poucas janelas para o mundo exterior. A isso se soma a crescente influência da religião nas decisões tomadas pelas pessoas – principalmente o extremismo moral de igrejas evangélicas pentecostais.

Tem-se, aí, um cenário pouco promissor para o livre arbítrio. A vida é ditada pelo medo do pecado e da punição oriunda dele. Nesse ambiente, os protagonistas encontram a deterioração psicológica – e a única forma de fugir é abraçar a loucura. Ao final, o mangue se torna uma espécie de purgatório, local ideal para “lavar os pecados” – com isso, até mesmo o nome da obra, cuja referência inicial se dá à comida dos porcos, ganha um novo significado.

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Essa doideira de história só funciona com o preto e branco expressionista de Shiko. A falta de cores sufoca os personagens, transformando tudo em um borrão mental, um déjà vu infernal de culpa e submissão. Esse estado de irrealidade só se aprofunda com o modo escolhido pelo autor para mostrar os fatos: repete imagens em ordem aleatória; usa diferentes fontes tipográficas; pinta os quadros de forma mais grosseira conforme a trama avança; alterna entre narrativa muda e verborrágica.

O que mais surpreende em Shiko é sua capacidade de passear por diferentes gêneros, sempre oferecendo um toque pessoal à história. Foi assim com o drama poético O Azul Indiferente do Céu, com a aventura folclórica Piteco – Ingá e, agora, com o terror-denúncia Lavagem. Que essa inquietação em contar diferentes histórias sob diferentes pontos de vista só aumente.

A edição de Lavagem só confirma o status da editora Mino como relevante pólo para o quadrinho autoral independente: tratamento gráfico impecável, preço condizente com a qualidade do produto, HQ brilhante. A casa publica ainda nomes como Mike Deodato Jr., Luciano Salles, Pedro Cobiaco e Diego Sanchez.

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4 comentários sobre “O horror social: “Lavagem”, de Shiko

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