Érico Assis gosta de quadrinhos. O jornalista, gaúcho de Pelotas, escreve sobre o assunto para o Omelete desde sempre, possui verdadeira biblioteca com obras do mundo todo e é dono de conhecimento enciclopédico a respeito da matéria, praticamente um Paulo Vinícius Coelho dos gibis (conhecimento esse que pode ser conferido no A Pilha). Como se não bastasse, também trabalha como tradutor, tendo adaptado ao português um portfólio invejável de HQs: Retalhos, HabibiUmbigo Sem Fundo, Flex Mentallo, Wilson, Y – O Último HomemVocê é Minha Mãe? etc e etc.

E esse é o tema de uma conversa, por e-mail, que tive com ele: tradução de quadrinhos. Há alguns meses, Érico causou debates ao expor suas ideias sobre a tarefa nesse post em seu espaço no blog da Companhia das Letras. Além de abordarmos essa questão, falamos sobre o papel do tradutor em uma obra, curiosidades da profissão e o mercado nacional de gibis.

Érico, no texto publicado no blog da Companhia das Letras, você comenta que os tradutores podem ser considerados uma espécie de “coautores” das obras traduzidas.

Érico Assis: Tive todo cuidado de não usar os termos “autor” nem “coautor” naquele texto. Pela minha concepção, ser “autor” não é só colocar palavrinhas num documento do Word. O autor cria personagens, teses, interações, problematizações, estrutura isso mais ou menos na cabeça e aí sim coloca palavrinhas num documento do Word. O tradutor só transforma essa confabulação toda em outro idioma.

Às vezes, isso exige repensar um pouco a estrutura. Em termos profissionais, entendo que é isso o que se espera de um tradutor. Passando de reescrever e de reestruturar, aí a gente entra num terreno pantanoso que alguns diferenciam entre adaptação e tradução. Aquele meu texto, principalmente a reação àquele texto (e aos que o Caetano Galindo escreveu antes e depois), me fez ver que temos um problema de definições e que eu “maltratei” as definições de outras pessoas a respeito de criação, autoria, tradução, redação. Ainda concordo com tudo que escrevi, mas vejo que esses conceitos são muito tênues e imprecisos.

Em literatura, a relação entre obra e tradutor é bem clara e direta, afinal um livro é feito unicamente por palavras. As HQs, porém, possuem outro suporte, a arte. O tradutor de quadrinhos, portanto, também é esse “coautor”, assim como o tradutor de livros?

As HQs têm essa peculiaridade de palavras e imagens aparecerem juntas e, muito grosso modo, você só traduzir as palavras. O tradutor de uma HQ reescreve essa HQ, mas, se você considerar que desenho também é escrita (que palavras + imagens formam o texto da HQ), a reescrita do tradutor costuma ficar só no que está nos balões, recordatórios, algumas onomatopeias. Então, normalmente o leitor da tradução vai ficar com boa parte do que os autores projetaram no original: desenhos, narrativa visual, layout, viradas de página, menos o que colocaram em palavrinhas.

Em um podcast antigo do Terra Zero, um dos participantes comenta que a histórica passagem do roteirista Chris Claremont pelos X-Men nos anos 1970/80 era muito melhor quando lida na época do formatinho da Editora Abril do que hoje em dia. A explicação: os cortes no texto para caber na página reduzida feitos pelo lendário tradutor de HQs Jotapê. Com isso, a verborragia descontrolada do roteirista era eliminada, o texto ficava mais fluído.

Olha a coincidência: acabei de traduzir quase duzentas páginas de Claremont, lá dos anos 1980. As primeiras histórias da Excalibur. E Claremont merecia umas multas por excesso de diálogo, sem dúvida. Dá pra ver o esforço do letreirista para que tudo caiba. Em parte isso é coisa da época – tipo o personagem entrar numa sala escura e dizer “esta sala está escura”, ou o fato de que hoje a narrativa é bem menos condensada. Mas em parte era exagero dele. John Byrne já reclamava dos excessos do Claremont nos anos 1970.

O documento de tradução de um gibi de 22 páginas geralmente dá umas cinco páginas de Word. As traduções de Os Invisíveis, do Grant Morrison, batem nas oito, nove, porque ele é um autor denso. Essas que fiz do Claremont têm 12 a 13 páginas.

Excalibur #21

É uma HQ da EC Comics? Não, somente Excalibur de Chris Claremont

Tenho um certo problema com o Claremont. Pra mim, ele consegue ser mais redundante e arrastado que o Stan Lee dos anos 1960… Mas sobre o comentário do Terra Zero, achei bastante curiosa aquela afirmação. Revela como mudanças vindas de fora podem alterar bruscamente uma obra – seja para melhor ou pior.

Se o gibi traduzido fica melhor ou pior, aí a questão é de gosto do leitor. É claro que às vezes existem erros de tradução, quase sempre há perdas (de referências mais complicadas da língua ou do lugar, por exemplo) e em algumas ocasiões há ganhos (quando o tradutor consegue algum lirismo que só é possível no português, por exemplo).

Chegamos a um tópico interessante. As intervenções editoriais da Abril (cortar diálogos e, às vezes, páginas inteiras) não existem mais, ainda bem. Porém, o tradutor é um “interventor” por natureza, principalmente nos momentos em que precisa adaptar algum ditado, piada ou referência estrangeira inteligível para seu idioma. Como é o processo de trabalho em exemplos como esses, cujos significados ficam restritos a um local ou língua específica?

Nessas edições que fiz de Excalibur, tem uma cena em que a personagem fala “They’re pulling a Siskel and Ebert number on me!” (nota do blog: referência aos críticos de cinema americanos Gene Siskel e Roger Ebert). Se você não está seguro quanto ao significado, em dois minutos de pesquisa você entende. Mas aí percebe que é uma referência datada e que, se ela ficar com os mesmos referentes, pouquíssima gente no Brasil vai entender. Não sou fã de trocar por referentes nacionais (“Mas chamaram o Rubens Ewald Filho e o Inácio Araújo pra me criticar?”), nem de notas de rodapé. Fora essas transmutações, o tradutor ainda tem outros recursos: acrescentar texto, trocar por uma coisa mais geral (“Assim eles detonam minha auto-estima”) ou cortar.

Faz uns meses, saiu nos EUA uma história do Homem-Aranha, em tom de paródia, chamada Too Many Spider-Men!. O título é referência ao Too Many Cooks, um vídeo viral que teve alguma repercussão durante umas semanas de 2014. Fora a questão linguística, como você mantém a referência quando essa história chegar aqui e praticamente todo mundo tiver esquecido do viral, se é que o conheceu?

Ainda sobre essa questão, a adaptação. Na tradução de quadrinhos, existe um grande empecilho: o espaço do balão. Uma frase em português não pode ser muito maior que a mesma frase em inglês, pelo simples fato de não caber no espaço destinado a ela. O que fazer pra tudo ficar no seu devido lugar?

Isso varia de HQ para HQ. O máximo que os editores já me disseram é que a quantidade de texto, preferencialmente, devia ser mais ou menos a mesma – mas que o entendimento do leitor deve vir em primeiro lugar. Isso pode implicar em textos maiores ou menores que o original (“Não se preocupe com o tamanho do balão. Isso fica pro letreirista”, um editor me falou recentemente). Mas tem HQs nas quais eu sei que o tamanho do balão e a quantidade de texto vão ter impacto na composição da página, o que pode exigir mais fosfato na hora de traduzir.

Aquelas produzidas à moda industrial (Marvel, DC) atualmente colocam balões em layers separados da arte. Assim, fica bem fácil mexer nos tamanhos e o prejuízo à composição tende a ser mínimo. Mas no caso de um Bryan Lee O’Malley, por exemplo, eu sei que ele desenha os balões antes dos personagens, porque é muito preocupado com os beats de diálogo e como isso afeta a composição. Nesses casos, não é impossível, mas é um pouco mais complicado, na questão técnica e em termos de prejuízo estético, mudar o tamanho do balão.

Seconds66.

Seconds, de Brian Lee O’Malley

Você lê outras obras de um artista que está traduzindo para ter mais contato com seu jeito de escrever?

Modéstia à parte, sou um consumidor de quadrinhos onívoro há quase 30 anos. Foram poucas as vezes em que me convidaram para traduzir uma HQ que eu não conhecia. Às vezes, releio uma ou outra coisa do autor, ou do personagem, para entrar no ritmo de um trabalho. Tendo a seguir autores depois que os traduzo, mas diria que isso tem mais a ver com meu gosto por HQ do que com tradução.

Por falar em autores, você traduziu recentemente dois trabalhos de um dos maiores, Alan Moore. O bardo aparenta ser um escritor complexo para se traduzir, já que sempre usa referências à arte em geral e a personagens históricos – além, claro, de ter um trato cuidadoso com a língua inglesa. Como foi “reescrever” os textos dele?

Do Moore, traduzi dois trabalhos considerados minúsculos em sua bibliografia: uma história da Vampirella (um projeto perdido lá nos anos 1990, que deveria ter tido continuidade mas ficou naquelas míseras páginas) e as histórias do Capitão Britânia (bem no início da carreira). Também trabalhei uma biografia do barbudo, o que acarretou traduzir várias declarações e textos dele também.

Sinceramente, não foram minhas traduções mais difíceis. Sim, os textos do Moore às vezes exigem pesquisa aprofundada e consulta ao thesaurus para encontrar uma equivalência boa para aquela palavrinha específica que ele escolheu. Só que isso vale para quase tudo que eu traduzo. A genialidade do Moore está na interação entre palavra e imagem e isso, sim, cria dificuldades pro tradutor. Mas só acontece nas obras mais portentosas dele: Watchmen, Do Inferno, Promethea, Liga Extraordinária.

Qual foi, então, o trabalho mais desafiante em sua carreira como tradutor de quadrinhos?

Toda tradução tem suas dificuldades. Acho que o mais difícil mesmo foi começar, fazer as primeiras. Lembro, na época da editora Pixel, que um editor de lá disse que quem quisesse fazer esse trabalho para eles devia traduzir uma HQ bem difícil e enviar. Peguei Promethea #13, do Alan Moore, que é cheia de rimas e jogos de palavras, e fiz metade. Nunca me responderam. E foi uma das primeiras coisas que traduzi, então tenho 99% de certeza que não ficou legal.

Teve um caso peculiar, bastante desafiante: Daytripper. O Gabriel Bá entrou em contato comigo e pediu para eu traduzir. Ele e o Fábio Moon haviam escrito em inglês e não tinham tempo pra fazer esse trabalho. Seria minha primeira (e acho que única) tradução na qual os autores, e não só o editor, teriam como dizer se fiz um trabalho bom. Depois da revisão, fizemos uma reunião para falar das mudanças – várias, mas eles foram gentis.

Existe um lado menos profissional da tradução: os scans. Sites, blogs e fóruns online se dedicam à tradução de quadrinhos estrangeiros com o objetivo de disponibilizar, de graça e em português, obras ainda não lançadas por aqui. E, apesar do amadorismo, nota-se certo respeito ao leitor. As traduções não são perfeitas, mas é possível encontrar notas de rodapé explicativas, atenção especial com a diagramação. Qual sua opinião sobre a cultura do scan?

Acho a questão da pirataria bastante delicada e bem complicada para dar uma opinião que valha para todos os casos. Todo mundo tem justificativas para piratear – e quem se sente prejudicado também tem justificativas contra esse ato. Não acompanho as “scanlations” português-inglês, então não sei falar dessa cultura. Mas já recorri, por exemplo, a “scanlations” japonês-inglês.

De minha parte – e isso é uma prática pessoal, não é uma recomendação para mais ninguém – recorro a piratas principalmente para selecionar o que vou comprar. Li HQs pirateadas que depois adquiri em versão impressa ou digital, ou que me levaram a fazer uma doação direto ao autor.

Um parênteses: tenho grande simpatia por essa ideia de cortar intermediários e dar o dinheiro direto ao artista, sem pagar por um trabalho específico. Gostaria muito que essas propostas novas, como do Patreon, esses “mecenatos coletivos”, fossem para a frente e bastante gente sustentasse os autores que gosta para eles também fazerem o que gostam.

patreon

Evolução do conceito de financiamento coletivo: Patreon permite que usuário financie artista mensalmente para a criação de projetos artísticos

Gostaria de saber sua opinião acerca do mercado nacional de quadrinhos atualmente. Não sei se falar em um “boom” da indústria nacional é correto, pois muita, mas muita gente ainda não lê e mal sabe o que é uma HQ. Porém, aos poucos, a mídia vai ganhando mais adeptos, seja por conta do sucesso de filmes de super-herói (ou outras adaptações no cinema e tevê), pela maior presença de reportagens sobre o tema em veículos de comunicação de massa (incluindo matérias de capa nos cadernos de cultura em jornais impressos), pela maior oferta de eventos nos quais os quadrinhos são o centro da atenção (como a FIQ e a Comic Con Experience) ou até mesmo pelo crescimento do espaço dedicado às HQs em livrarias. Estamos em uma boa época para se ler quadrinhos no Brasil?

Sim, não tenho dúvida. Há algumas duas semanas fui procurar um livro numa livraria física para dar de presente a uma amiga e fiquei em dúvida se levava Love & Rockets (dos irmãos Hernandez), Castelo de Areia (Frederick Peeters), aquela coletânea da Aline Crumb (Essa Bunch é um Amor) ou Talco de Vidro (Marcello Quintanilha). Nunca tive uma dúvida dessas, pois nunca existiu essa variedade na minha frente, literalmente pra eu escolher na hora, na minha mão (fiquei com Castelo de Areia). Fora a boa seleção de gibis de super-heróis que a livraria tinha, de coletâneas do Calvin e Haroldo, do Liniers, do Angeli. As bancas estão cheias de todo tipo de herói, de mangás, até de material nacional. E ainda tem uma cacetada de material bom na internet. Duvido muito que a gente já tenha tido uma variedade tão boa.

E existe algum motivo em especial para isso?

O mercado editorial está em mudança porque o Brasil teve um crescimento econômico real. A geração que está entrando no mercado de trabalho consumiu mais e tem mais instrução que as gerações anteriores. Esses grupos estrangeiros que compram nacos do mercado editorial daqui estão apostando que essas pessoas, e as próximas gerações, vão ler mais – os europeus, principalmente, não aceitam que uma população tão grande como a nossa compre tão pouco livro. A gente vai ver o resultado dessa aposta daqui a uns dez anos. Os quadrinhos se consolidaram como setor das livrarias, então vão se beneficiar desse investimento editorial.

Olhando o cenário mundial dos quadrinhos, o mercado brasileiro já pode ser considerado forte? Acredito que a chance de nos tornarmos gigantes no assunto (como os EUA, França e Japão) é mínima. 

Existem vários fatores confluentes que fundaram as indústrias de quadrinhos nesses locais. Nenhum outro país conseguiu fazer o mesmo nos últimos sessenta anos. Sei que é pessimismo, mas acho que o Brasil não chega lá, pois não há mais ensejo para esse tipo de coisa.

Mas podemos ser uma Espanha, por exemplo, que possui lançamentos de qualidade em todos os nichos?

Será que já não estamos no mesmo nível? Temos bons lançamentos nacionais, eles também. Temos um bom mercado de importações, eles também. Eles tinham uma proto-indústria nos anos 1950, 60, nós também. Eles não têm mais produção industrial expressiva, nem nós. Exportamos talentos, eles também – aliás, é possível que exportemos até mais. Valia a pena analisar esses dados com profundidade, mas eu diria que estamos muito próximos.

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2 comentários sobre “Palavrinhas e desenhinhos – entrevista com Érico Assis

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