Por algum motivo, Scott Snyder é um astro dos quadrinhos americanos atuais. Não que ele seja um escritor totalmente descartável. Até possui boas ideias, porém já demonstrou em inúmeros trabalhos, como Monstro do Pântano e O Despertar, que não sabe conduzi-las. Poderia ser argumentista, desenvolvendo histórias e deixando os roteiros para outras pessoas. E o melhor exemplo de suas limitações enquanto criador está no Batman dos Novos 52, a controversa iniciativa da DC Comics que zerou a cronologia de todos os seus gibis em 2011.

Desenhada por Greg Capullo, a revista ganhou um tom detetivesco pouco visto durante a longa odisseia de Grant Morrison à frente do título, uma espécie de volta às origens do personagem. Mérito também por transformar Gotham City em personagem pulsante, cheia de mistérios mesmo para Bruce Wayne. Mas aí começa a sucessão de erros, enumerados a seguir.

Desenvolvimento arrastado
À época do reboot, o leitor estava acompanhando a complexa trama construída por Morrison desde 2006. O título do herói necessitava de uma mudança de rota, com enredos menores, mais contidos. Snyder fez o contrário: seu primeiro arco durou quase um ano. Outro, mais à frente, teve doze números. Durante as 40 edições publicadas sob a marca Novos 52, o roteirista escreveu apenas quatro arcos.

Histórias “inovadoras”
Praticamente nenhum tema levantado ao longo dessas 40 edições é inédito. Até aí, nenhum problema. Ideias podem ser recicladas, ainda mais em um personagem criado há 75 anos. Mas, para tal, é preciso oferecer novos pontos de vista, subverter o conceito original. Obviamente, Snyder não conseguiu criar algo consistente em terrenos já explorados por outros. Alguns exemplos:

Primórdios
Não existe história de origem de super-herói tão bem acabada como Ano Um, de Frank Miller e David Mazzucchelli. A essência do Batman está lá, em sua totalidade. Snyder cria, então, o Ano Zero, um modo de revelar outras facetas dos primórdios do Homem-Morcego. Embora funcione em alguns momentos, como no protagonismo do vilão Charada, quase sempre relegado a coadjuvante, no geral, é apenas mais do mesmo. O desenvolvimento de Bruce Wayne como personagem, no entanto, se mostra falho: embora mero iniciante no combate ao crime, se mostra mais inteligente do que deveria, ao contrário do jovem falível, humano, criado por Miller.

zeroyear

O Batman de Ano Zero: um novato que não hesita

Coringa
Por duas vezes (em Morte da Família e Fim de Jogo), o escritor tenta reinterpretar a relação entre Batman e seu nêmesis. Seria válido se trocentas HQs não tivessem feito o mesmo antes – e com melhor resultado: O Cavaleiro das Trevas, Asilo Arkham, O Advogado do DiaboO Homem que Ri. Isso sem falar nos filmes de Tim Burton e Christopher Nolan, os videogames da Rocksteady Studios… Como se não bastasse, Ano Zero ainda reconta o surgimento do vilão, trabalho já feito por Alan Moore em Piada Mortal.

Mal antigo
O primeiro arco, Corte das Corujas, introduz uma antiga sociedade secreta que age nos bastidores de Gotham e pretende destruir o herói. Poucos anos antes, Morrison criou um plot sobre uma antiga sociedade secreta que age nos bastidores de Gotham e pretende destruir o herói.

Família Wayne
A ideia de vilões tentarem manchar a reputação dos pais falecidos de Bruce Wayne também já tinha aparecido no trabalho de Morrison (que, por sua vez, se inspirou em histórias da Era de Prata sobre o assunto) e Jeph Loeb.

Verossimilhança e uso do clichê
É complicado pedir realidade em um quadrinho que narra as aventuras de um homem vestido de morcego. Nem por isso, deve faltar verossimilhança, uma probabilidade de verdade – as próprias tramas do Snyder pedem isso, pois se baseiam em conceitos de tecnologia e ciência.

Até dá pra relevar quando o herói – após dias preso em um labirinto, drogado e sem comer – é esfaqueado pelas costas e ainda assim consegue ganhar do vilão na porrada. Agora, Batman segurando na beirada da turbina de um avião em movimento enquanto discute com o malfeitor entra em outra categoria: desrespeito ao leitor.

batman11

Batman #5 tem uma das cenas mais vergonhosas dos quadrinhos nos últimos anos. Tanta coisa errada que é melhor nem tentar explicar

Se não bastasse cometer absurdos como esses, Snyder ainda se dá ao luxo de ser preguiçoso. Não consegue fazer com que o roteiro apresente soluções naturais para cenas de ação ou conflitos mais agudos. Quase sempre depende de um deus ex machina, aquele acontecimento caído do céu, cuja função é somente tirar a história de um beco sem saída (por exemplo, um blecaute no momento em que Bruce levaria um tiro na cabeça).

Para o roteirista, jogar frases grandiosas na boca dos personagens é construir um subtexto psicológico. E uma das maiores dificuldades de Snyder está mesmo no diálogo: falta naturalidade, fluência. Até seria perdoável se as tramas em si não fossem inundadas com outro cacoete narrativo recorrente: o clichê.

Todas as convenções mais pegajosas do gênero super-herói estão presentes na revista. Desde a batalha mortal entre mocinho e bandido no desfecho da história (Batman versus Talon ao final de Noite das Corujas), passando pelo drama forçado entre protagonista e aliados (as discussões de Bruce e o mordomo Alfred) e ainda pelo inimigo que aparentemente morre, embora não se encontre seu corpo (Coringa em Morte da Família), o que deixa aberta a possibilidade de seu retorno mais à frente.

batman17

Vilão caindo de precipício deveria ser proibido em qualquer obra de qualquer mídia

Scott Snyder tem potencial para fazer obras de qualidade. Mas a crítica e o público não podem aceitar de bom grado tudo o que ele entrega. O Despertar, por exemplo, ganhou um inexplicável Eisner de Melhor Série Limitada, enquanto esse Batman já foi chamado de revolucionário. Sua evolução como escritor jamais vai acontecer se continuar sendo mimado.

Anúncios

Um comentário sobre “O Batman de Scott Snyder é um gibi ruim

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s