(Texto originalmente publicado no Universo HQ)

Avenida Paulista é daquelas obras de arte que não podem ser consideradas um trabalho concreto, com fim em si mesmas. Está mais para algo mutante, carregada de simbolismo e subjetividade, cujo sentido só se completa na visão do leitor. Isso ocorre em grande parte pois a graphic novel de Luiz Gê, datada de 1991, ainda está em processo de feitura: para o relançamento ocorrido há poucos anos, o artista acrescentou informações em textos de apoio, fato que permite ao quadrinho ser tão atual quanto há mais de vinte anos.

(Aliás, não seria má ideia se, a cada década, Gê atualizasse para novas gerações sua visão sobre São Paulo a partir de um dos principais símbolos da maior capital brasileira)

O projeto original da obra tinha o título Fragmentos Completos e foi encartado na Revista Goodyear, distribuída a clientes e revendedores da empresa automotiva, para comemorar o aniversário de 100 anos da construção da tão famosa via. O sucesso foi enorme: essa edição especial recebeu o maior número de cartas com pedidos de exemplares na história do periódico (cerca de 30 mil).

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Paulista: a avenida onde retirantes estão dentro e fora dos museus

Mas nem por isso a HQ teve vida fácil. Foi relegada ao ostracismo por mais de vinte anos e só chegou ao grande público em 2012 graças à Companhia das Letras, que a publicou em formato de álbum. Para a nova edição, acrescentaram-se uma longa introdução do autor explicando sua relação pessoal com o tema e detalhes do processo de criação, um posfácio do arquiteto e urbanista Nabil Bonduki e uma linha do tempo com os principais fatos da avenida.

Agora, sobre a obra em si. Ao mesmo tempo em que analisa o passado para entender o presente, Gê ousa imaginar o quê a avenida poderia ter sido. Tudo isso buscando projetar dois futuros distintos: um distópico, com a região dominada por empresas orwellianas sedentas por lucro, e outro otimista, acreditando na evolução do pensamento humano como forma de suprir as necessidades da população de uma metrópole como São Paulo.

Acompanhamos, então, a evolução da via desde antes de seu nascimento, quando o bairro na qual foi instalada ainda era conhecido como Alto do Caaguaçu. Há espaço para todos os momentos marcantes: a idealização do projeto, surgido graças ao engenheiro Joaquim Eugênio de Lima, que viu ali um reduto perfeito para a pujante burguesia local; a inauguração da avenida, em 8 de dezembro de 1891; a industrialização da cidade; a construção do Museu de Arte de São Paulo, o Masp; o início da especulação imobiliária; a substituição dos casarões centenários por arranha-céus corporativos.

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Gê utiliza diversos tipos de traços ao longo da obra, fazendo referência a quadrinistas e a movimentos artísticos do século 20, como nesta página com colorização à la Pop Art

Apesar do trabalho hercúleo de apuração histórica, os números, nomes e informações não são o mais importante: a ficção, a imaginação se torna ponto central dessa jornada centenária. Gê utiliza um tom psicodélico-surrealista para contar os fatos – e também brincar com eles, distorcê-los, misturá-los. Quando comenta a Belle Époque paulistana dos primeiros anos do século 20, aparecem castelos com cavaleiros, anões, faunos, tapetes voadores. Mais à frente, com o crescimento do império econômico da tradicional família Matarazzo, gigantes caminham pela cidade.

Além dos desenhos que se alteram conforme a evolução da região – tem espaço até para citações a movimentos artísticos como o Futurismo e a Pop Art -, vale destacar o uso das cores como elemento narrativo. Nas décadas de 1910 e 1920, uma paleta rica, saturada, ilustra a exuberância econômica do período; por outro lado, no futuro poluído e caótico, tudo se carrega de tons frios.

Essa mistura de realidade e devaneio traz ainda uma reflexão política a respeito de temas como planejamento urbano e civilidade. A avenida não deveria ser dominada pelo concreto e ferro: são revelados inúmeros projetos arquitetônicos jamais utilizados, incluindo o desenho original do Metrô, que previa a criação de duas pistas para carros, uma delas expressa, em níveis diferentes. Todos engavetados para sempre nos arquivos da burocracia estatal.

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Fica o alento de que, hoje, e cada vez mais, a Paulista representa um espaço democrático em meio à metrópole atribulada. Palco para todo tipo de cultura, cor, religião, estrato social. Talvez seja a esse novo estado de coisas que a utopia encontrada ao final da HQ faça referência: a vontade de se transformar, de mudar, nunca morre, mesmo em uma simples avenida.

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