O nome é francês (significa preto, escuro, sombrio), mas nem por isso o noir deixa de ser um patrimônio cultural dos Estados Unidos. Gênero americano por excelência, como o faroeste, representado brilhantemente na literatura e cinema. Não deixa de ser irônico, portanto, que um dos mais bem sucedidos noir dos quadrinhos atuais seja feito por uma dupla de espanhóis.

(Já falei aqui sobre outras HQs de crime, feitas por Ed Brubaker e Sean Phillips, que bebem da mesma fonte: literatura policial e filmes de Hollywood dos anos 1940/50)

Blacksad é criação do escritor Juan Díaz Canales e do ilustrador Juanjo Guarnido. Narra as aventuras do detetive particular John Blacksad em meio à América da década de 1950. Ao todo, a série já teve cinco álbuns publicados – o primeiro, em 2000; o último, no meio do ano passado. Em relação a prêmios, faturou os mais importantes da indústria: Angoulême, Eisner, Harvey. Best-seller em vários locais do mundo, incluindo o mercado americano, nem sempre amistoso com material vindo de outras regiões.

blacksad

O detetive John Blacksad é o típico arquétipo do anti-herói noir: a pose de machão esconde marcas de uma vida dura em meio a um mundo sombrio

Qual a explicação para o sucesso? À primeira vista, nenhuma: são tramas policiais que substituem pessoas por animais. O álbum inicial, Somewhere Within the Shadows, até reforça essa impressão. O assassinato de uma estrela do cinema, ex-caso amoroso do protagonista, faz com que o detetive revisite fantasmas do passado. Apesar de bem construída, a história não traz nada de novo a algo contado inúmeras vezes antes, seja em filmes ou livros.

Nos trabalhos seguintes, a coisa muda de figura. O que era homenagem a um gênero adorado pelo público se torna um dos mais bem acabados exemplos do noir em qualquer tipo de mídia. Os plots se tornam mais complexos, reviravoltas inesperadas são acrescentadas aos roteiros e os autores passam a abordar temas caros à sociedade americana pós-Segunda Guerra.

Em Arctic Nation, por exemplo, Blacksad se vê em meio a um caso de racismo envolvendo uma seita semelhante à Klu Klux Klan. Red Soul mostra a paranoia macarthista contra o comunismo; A Living Hell revela a marca das drogas na cena musical de Nova Orleans.

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Nos Estados Unidos de Blacksad, o racismo ataca em plena luz do dia

Um profundo tom melancólico marca o modo como Canales e Guarnido, estrangeiros que são, enxergam os problemas sociais da América. Ao final das histórias, fica difícil saber se o protagonista é um homem melhor ou se apenas afundou ainda mais no lodo moral ao seu redor. Para isso, a dupla espanhola faz uso de ferramentas narrativas cheias de simbologia, que até podem passar despercebidas pelo leitor – como o momento no qual as ruas da cidade começam a ganhar uma espessa camada de neve branca ao mesmo tempo em que a perseguição aos negros se torna mais violenta.

Violência essa traduzida de forma surpreendente pelos desenhos fofos de Guarnido. O impacto da série vem muito daí: ver animais bonitinhos cometendo crimes, com morte, sexo e intrigas por todos os lados. Os traços claramente remetem aos filmes da Disney – e isso tem explicação, pois o artista já trabalhou como animador nos estúdios da companhia. O antropomorfismo, portanto, não vem de graça: os homens são verdadeiros animais instintivos, no pior sentido do termo. Em suma, a beleza estonteante da arte de Guarnido engana: ele pinta a degradação da sociedade com verniz de normalidade. Tudo está bem por fora, enquanto apodrece por dentro.

No Brasil, somente os dois primeiros álbuns dessa pérola foram publicados. Vai entender. O jeito é buscar as ótimas edições americanas da Dark Horse, em capa dura e com material suplementar.

hell,silence red-soul

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