(Texto originalmente publicado no Universo HQ)

“A única glória na guerra é sobreviver”. Quando disse essa frase, Samuel Fuller, um dos mais importantes diretores da história do cinema norte-americano, já sabia muito bem que não existe heroísmo quando homens pegam em armas: ele serviu na Segunda Guerra Mundial e esteve presente durante a libertação de um campo de concentração judeu.

Se a guerra é, então, a parte mais baixa da história da humanidade, torna-se obrigação do artista retratá-la como tal. Em Era a Guerra de Trincheiras, o mestre francês Jacques Tardi não dá trégua ao leitor: cria uma obra pesada e depressiva sobre a Primeira Guerra Mundial, com o intuito de desnudar toda a degradação humana por trás de um conflito armado.

trincheiras

O drama do homem comum em meio à carnificina: esse é o mote de Era a Guerra de Trincheiras

Como bem comenta Tardi no prefácio da luxuosa edição nacional publicada pela editora Nemo, esse trabalho não possui fins históricos. Interessam mais o homem e seus sofrimentos do que os grandes momentos da “guerra para acabar com todas as guerras” e estatísticas oficiais. O autor narra os fatos, baseados em relatos “contestáveis ou não, alguns duvidosos ou contraditórios”, pelos olhos daqueles que lutaram, e morreram, no front.

Não há um personagem central aqui. Diversos capítulos curtos mostram soldados lutando pela sobrevivência e encontrando, inevitavelmente, a morte. O verdadeiro protagonista é o horror, o medo. Foi ali, entre 1914 e 1918, que se deu a industrialização da morte: quem imaginaria, ao longo das Revoluções Industriais dos séculos 18 e 19, que a máquina seria usada para tirar vidas em larga escala? A história da humanidade estava fadada a nunca mais ser a mesma.

Se as tramas contadas talvez possam não ser tão acuradas, como o próprio autor insinua, a pesquisa feita por ele, com a preciosa ajuda do historiador francês Jean-Pierre Verney, mostra-se monumental: mais de setenta obras consultadas, entre livros e filmes, para recriar com fidelidade a vida nas trincheiras. É até fácil encontrar referências a algumas delas, como o livro Paths of Glory, de Humphrey Cobb, no qual foi baseado o clássico longa-metragem de Stanley Kubrick, Glória Feita de Sangue.

trincheirasO impressionante nível de detalhes dos desenhos – encontrados nos cadáveres espalhados pela lama, nas fardas dos soldados, nos parcos mobiliários dos buracos enfiados nas linhas de frente – deixa a arte livre para transitar entre o traço realista e o caricato. O preto e branco expressionista, em conjunto com uma narrativa reflexiva, que leva o leitor a olhar demoradamente para os quadros em busca de todo tipo de informação visual, torna a sensação de proximidade da morte quase palpável, assim como os gritos dos feridos agonizantes, o fedor dos corpos em decomposição, as vísceras expostas.

Os personagens, muitas vezes, olham diretamente ao leitor para falar de si, fazendo com que a HQ ganhe forte tom intimista, mesmo tratando de um assunto tão amplo. Nesses momentos, lembramos que a guerra é feita de uma rotina cansativa e brutal para corpo e mente. Homens comuns face a face com o inferno, como o que grita pela esposa quando está prestes a morrer, de outro que não se esquece do rosto das pessoas que matou, daquele que deixa a gangrena tomar conta de seus membros para voltar para casa, do que ajuda o inimigo e é fuzilado pelos próprios companheiros.

O avô de Tardi esteve na Primeira Guerra. Certa vez, enquanto fugia de um bombardeio, caiu no chão, com as mãos dentro da barriga aberta de um morto. O fato, contado ao autor por sua avó, lhe marcou a vida para sempre. Era a Guerra de Trincheiras é o exorcismo dessa cena de pesadelo, um documento para honrar a memória daqueles milhões que lutaram no conflito e tiveram a juventude, e o futuro, arrancados das mãos.

A Nemo fez um trabalho editorial primoroso nesta edição. Além da capa dura e papel de alta gramatura, conta ainda com outro quadrinho sobre guerra feito por Tardi, Le Trou d’obus, e dois textos do quadrinista comentando seu interesse pelo tema.

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