(Texto originalmente publicado no Universo HQ)

Existe uma grande diferença entre uma obra de arte política e outra politizada. Peguemos Argo, o vencedor do Oscar de melhor filme de 2013. Apesar de narrar uma delicada situação diplomática, envolta por inúmeros desdobramentos sociais – o drama de cidadãos norte-americanos impossibilitados de voltar ao país de origem, presos no Irã do final dos anos 1970 –, o filme jamais emite opinião sobre o que é mostrado. Falta politização, mesmo abordando temas claramente políticos.

Justiça Ltda. representa o contraponto desse modo de criação artística. A HQ apresenta um ponto de vista e o sustenta, além de aprofundá-lo, conforme a história se desenvolve. Andrew Helfer e Kyle Baker optam por não oferecer soluções fáceis, principalmente por baterem forte na política externa dos Estados Unidos, o macarthismo e a Guerra Fria. Por trás da trama de espionagem, está um libelo pela liberdade e democracia.

O protagonista é Richard Benson, o Vingador, herói surgido em 1939, criado por Paul Ernst para a revista pulp The Avenger. O personagem, um bon-vivant explorador da natureza, sofre um choque traumático após o assassinato da esposa e filha durante um voo: os músculos de seu rosto ficam paralisados, dando-lhe a chance de manipulá-los como bem entender. Inclusive para copiar as feições de outras pessoas. A partir dessa tragédia, ele passa a dedicar a vida ao combate ao crime por meio de uma agência de detetives, a Justiça Ltda. do título.

bakerA releitura do personagem feita nesta minissérie em duas partes, publicada pela DC em 1989, utiliza a mesma origem, mas amplia o alcance das tramas. A face do personagem que se molda às situações traduz o espírito de paranoia da Guerra Fria, a impossibilidade de se reconhecer no outro.

Obviamente, com essa valiosa capacidade de ser todos ao mesmo tempo, Benson acaba cooptado pelo serviço secreto dos Estados Unidos. Seu trabalho visa garantir a influência do país na política de nações suscetíveis aos “vermelhos comunistas”. O espião se infiltra, mata, assume a vida de outras pessoas, tudo para destruir a influência soviética. Ele luta por um “mundo livre”. Mas que liberdade é essa que impõe valores, condições comerciais, modos de vida?

Benson, por fim, descobre que seu trauma não ocorreu por acaso. Finalmente entende a condição de ser uma mera peça em uma enorme engrenagem corroída pela ferrugem. Começa, então, a caçar aqueles que o impediram, por décadas a fio, de ser ele mesmo.

A genial arte de Kyle Baker não apenas ilustra o roteiro de Andy Helfer, mas também revela a opinião dos autores. Ao desfocar o rosto de praticamente todos os personagens, o desenhista define um período do século 20 no qual, não se podendo confiar em ninguém, não era possível perceber a diferença entre realidade, artifício e propaganda ideológica.

justincAs cores esmaecidas reforçam a sensação de um mundo em decadência, enquanto os traços experimentais remetem aos de outro ilustrador, Bill Sienkiewicz, porém mais minimalistas e disformes. Preste atenção nas expressões faciais: com poucos traços, o artista releva toda a loucura e melancolia dos personagens.

Ao longo da trama, diversos flashbacks são usados para revelar fatos passados ou recordar ações importantes do enredo. A técnica não funciona como uma muleta narrativa graças às inventivas soluções visuais aplicadas. Em um momento, por exemplo, os quadros passeiam por diversos rostos em uma fotografia, enquanto fatos sobre a vida daquelas pessoas são mostrados. Em outra sequência, um movimento semelhante a um zoom no olho de Benson inicia uma lembrança. A violência física e psicológica da história se contrapõe à elegância da diagramação.

A visão de mundo de Helfer e Baker é clara: a política feita pelos EUA se baseia na agressão. Nem é preciso se limitar às ditaduras plantadas pela América Latina e outros locais do mundo a partir dos anos 1960 para perceber isso. Basta lembrar do Vietnã, Iraque, Afeganistão etc.

Nesse ponto, Justiça Ltda. complementa a crítica contundente ao militarismo norte-americano presente em Fury Max – My War Gone By, de Garth Ennis e Goran Parlov. Assusta saber que ambas as HQs estão longe de ser totalmente ficção.

digitalizar0011A Abril fez um ótimo trabalho gráfico nesta minissérie, à exceção de pequenos erros de digitação em alguns balões. A capa cartonada, mais rígida que as dos encadernados atuais, e o papel interno com boa gramatura fazem com que hoje, mais de 20 anos após o lançamento, seja possível encontrar as revistas em ótimo estado.

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