(Texto originalmente publicado no Universo HQ)

Há quem acredite que as últimas palavras de um homem definem o que foi sua vida. No clássico do cinema Cidadão Kane, do diretor Orson Welles, o jornalista incumbido de desvendar o significado dos derradeiros sussurros do magnata das comunicações Charles Foster Kane é uma dessas pessoas. Todo o enredo do filme – um dos mais influentes, artisticamente falando, da história – se constrói na busca pela resolução do mistério: o que é rosebud, expressão dita pelo velho Kane antes de morrer?

Brian Michael Bendis deve ter o longa-metragem como obra de cabeceira, já que Demolidor – Fim dos Dias se apropria da mesma estrutura narrativa: Matt Murdock, o Demolidor, é assassinado pelo vilão Mercenário tão logo começa a minissérie em oito capítulos. Antes, porém, balbucia algo aparentemente sem importância: mapone. A partir daí, tem início a investigação por parte do repórter Ben Urich para entender o sentido dessa palavra.

A ideia de contar a “última história do Demolidor” era discutida por editores da Marvel desde 2007. À época, o roteiro de Bendis, escrito em parceria com o artista David Mack, já existia em quase sua totalidade. Juntaram-se ao projeto, posteriormente, um time invejável de desenhistas, todos com passagens marcantes pelo personagem: Klaus Janson, Alex Maleev e Bill Sienkiewicz.

Importante ressaltar que o sucesso de uma obra como esta, espécie de ode à toda a jornada de um personagem, bastante semelhante à proposta de O que aconteceu com o Homem do Amanhã?, de Alan Moore e Curt Swan, por exemplo, depende, e muito, da familiaridade da equipe criativa com o tema. Nesse caso, todos os envolvidos fazem parte do cânone de quadrinistas que já trabalharam com o herói – faltou Frank Miller, o autor definitivo do Homem Sem Medo, mas ele não demonstra interesse algum em quadrinhos há tempos.

mapone

“Mapone…”

O longo hiato entre a concepção e o lançamento da obra, cuja primeira edição foi publicada somente em outubro de 2012, pode assustar a princípio. Felizmente, o atraso em nada afetou a qualidade do título. Fim dos Dias entra automaticamente na lista de clássicos contemporâneos das HQs de super-herói americanas.

O maior mérito do título é abdicar da necessidade de mostrar o Demolidor e, mesmo assim, contar uma história profunda sobre sua vida. À exceção das páginas iniciais do primeiro capítulo, ele aparece em esporádicos flashbacks revividos por pessoas de sua convivência. Todo o enigma por trás de mapone importa menos do que o legado deixado pelo advogado cego à população da Cozinha do Inferno.

Não que a investigação em si seja desimportante. A partir dela, Ben Urich constrói um fascinante painel que mostra quem foi Matt Murdock. Ao indagar companheiros, amores e inimigos do protagonista sobre os últimos dias deste, o repórter, assim como o leitor, vê-se envolto por um complexo quebra-cabeças formado por percepções pessoais nem sempre confiáveis ou objetivas, às vezes carregadas de emoção, em outros momentos frias e distantes. Elektra, Mercenário, Rei do Crime, Tucão, Homem-Púrpura, Coruja, Gladiador, Justiceiro: a lista dos presentes é enorme.

O tom noir, detetivesco, impõe-se durante toda a trama, apoiado pela arte dura de Janson. O suspense é criado lentamente, baseado em aparições inesperadas, pequenos gestos, olhares e hesitações. A tensão se faz presente em cada encontro, em cada viela mal iluminada.

endofdays_splashPoucas são as sequências de ação neste roteiro focado no diálogo (afinal, é Bendis escrevendo), no qual o silêncio pode significar mais do que palavras e a dissimulação é uma constante. Isso não significa que o enredo não ande para a frente. Muito pelo contrário: a história sempre toma rumos surpreendentes, como o surgimento de um novo Demolidor.

A Nova York retratada também está cheia de detalhes que podem passar despercebidos, com observações curiosas sobre o futuro próximo. A polícia vigia de forma insistente seus cidadãos; a mídia impressa, incluindo o Clarim Diário, está à beira do fim; super-heróis são cada vez mais individualistas: o mundo, definitivamente, não se transforma em um lugar melhor. Para histórias urbanas como esta, Bendis dificilmente erra a mão.

O projeto de End of days, desde o início, levava em conta a importância da arte para o storytelling, o modo de contar a história. O resultado final é exemplar no sentido de combinar estilos diferentes e, às vezes, até conflitantes, de desenho.

Janson, o artista principal, oferece um trabalho que, se não impressiona à primeira vista, desenvolve a trama com eficácia – por exemplo, utilizando sequências de 12 ou mais quadros em páginas duplas envolvendo a busca de Urich pela verdade. Graças à arte-final com traços fortes feita por Sienkiewicz, esses desenhos ganham um sentido de urgência e aridez que casam perfeitamente com a trama.

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Splash page de David Mack

Pontualmente, magníficas artes de página inteira ou dupla, feitas por Mack, Maleev (o capista da minissérie) e Sienkiewicz, pausam a trama. Nesses momentos, é como se a lembrança dos coadjuvantes a respeito do morto se materializasse no papel. Sem dúvida, uma das mais inventivas formas de se criar um flashback.

Não é raro nos quadrinhos, talvez mais do que em qualquer outro tipo de mídia, encontrar obras que começam de forma magistral e decepcionam na saída. Fim dos Dias não ficará marcada apenas por conter um desenvolvimento exemplar, juntando elementos encontrados ao longo dos 50 anos do Demolidor em uma história coesa, mas, também, por apresentar uma conclusão de literalmente tirar o fôlego. A página final é tão emblemática e significativa quanto o último movimento de câmera de Cidadão Kane. Com Fim dos Dias, o demônio pode descansar: ganhou um epitáfio à altura.

OBS: a Panini publicou no Brasil, há algumas semanas, a primeira parte da minissérie. O volume final deve aparecer nas bancas em breve.

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