John Constantine é um personagem moldado para histórias autocontidas. Sua personalidade errática e seu humor cáustico cabem de forma perfeita em enredos de tiro curto. Aparece um problema com fantasmas, demônios ou qualquer outra entidade bizarra, o mago inglês vai lá, resolve (bem ou mal) a situação e toca pra próxima aventura.

(Paradoxalmente, no entanto, os dois melhores momentos da revista Hellblazer, casa de Constantine por 25 anos, são arcos mais longos: O Homem de Família, escrito por Jamie Delano, e Hábitos Perigosos, por Garth Ennis)

Apesar de ser um título de terror, Hellblazer tem um bocado de crítica social. O protagonista se transforma em observador do cotidiano de Londres, Liverpool ou outro recanto do Reino Unido. Pelos olhos desse charlatão que já superou um câncer terminal e enganou o diabo, são revelados o egoísmo, a hipocrisia e a escuridão presentes na alma humana.

E, pra isso, nada melhor que one-shots: uma ou duas edições, no máximo, dão conta dessas tramas, sejam elas puramente sobrenaturais ou com características mais urbanas. A fase de Paul Jenkins é quase inteira composta por histórias curtas que tratam de violência no futebol a veteranos de guerra. Delano e Ennis também escreveram algumas muita boas – o primeiro, por exemplo, tirou sarro dos yuppies oitentistas, enquanto o segundo revisitou o folclore escocês. Grant Morrison criou uma pérola da paranoia nuclear e Neil Gaiman fez um tocante retrato da pobreza na cidade grande.

Contando até dez, presente em Hellblazer #51, não tem resquício desses temas, digamos, nobres, mas é a prova da capacidade de se comportar um universo criativo em apenas 24 páginas de um gibi mensal.

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Capa de Hellblazer #51 (março de 1992)

A edição conta com um fiapo de enredo: vemos Constantine em uma lavanderia do tipo “faça você mesmo” após se enrolar com um amigo em apuros. Velhinhas simpáticas estão ali, netos brincam sentados no chão. Anoitece. Para um cara como Constantine, uma banalidade dessa não está no cronograma. Tão normal que só pode ter algo errado por trás.

John Smith assina o roteiro – um inglês contemporâneo de Alan Moore, Morrison e Peter Milligan que não vingou na América. A julgar por Contando até dez, quem mais perdeu com seu ostracismo foi o público. Com ele, uma simples saída para lavar roupas em meio à vizinhança se transforma em um pesadelo criado por David Lynch. A lavanderia aos poucos deixa de ser confortável: os presentes começam a agir de maneira estranha, a falar sobre mortos que frequentam o local. As crianças desenham pessoas mutiladas, um cachorro raivoso começa a latir.

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Constantine, assim como o leitor, vai tendo sua percepção retorcida até o limite da sanidade. Não se sabe se aquilo tudo é real ou fruto de sua mente extenuada. A única certeza está na atmosfera onírica e opressiva criada pelos desenhos de Sean Phillips, cuja arte aqui, em março de 1992, já tinha o estilo soturno que iria caracterizar sua obra futura. Para as sombras, usaram-se pinceladas grossas, como se elas estivessem prontas para engolir os personagens a qualquer momento.

No fim, fica a sensação de não saber exatamente o que aconteceu – como todo bom terror psicológico deve fazer. O mestre do traço Bernie Wrightson, nesta entrevista antiga, fala que “apesar de meus desenhos de monstros, zumbis rastejando para fora de seus túmulos, vampiros e Frankenstein, o horror para mim é a imagem de um homem bem-vestido esperando por um ônibus na esquina, e tudo a respeito dele está absolutamente perfeito, exceto por uma mancha de sangue em seu sapato”. O medo está nos detalhes e espreita os lugares mais comuns, as situações mais inesperadas.

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OBS 1: Hellblazer #51 está encadernada em John Constantine, Hellblazer – Infernal – Volume 2: Sangue Real, lançado pela Panini no segundo semestre do ano passado.

OBS 2: a edição é importante ainda por levantar o tema, pela primeira vez na série, da suposta bissexualidade de Constantine. Ao entrar na lavanderia, ele começa a reclamar do quão fácil amigos e namoradas o abandonam – e cita também o termo odd boyfriend (algo como “namorado eventual, estranho”). Na tradução em português feita pela Panini, no entanto, a frase ficou como “melhor amigo”, perdendo o duplo sentido do original.

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