Para o grande público da cultura pop, Ed Brubaker sempre será o cara que mudou o Capitão América. De 2005 a 2012, escreveu o título mensal do personagem e fez com que a franquia voltasse a ser relevante para a Marvel. Com uma abordagem sóbria e realista, criou tramas com jeitão de filme de espionagem dos anos 1970. Menos histéricas, mais humanas e violentas. Inclusive, o segundo filme do super-herói, lançado ano passado, adapta o mais famoso arco de histórias dessa fase para o cinema.

Talvez esse reconhecimento como escritor de grandes editoras seja injusto, pois é no material autoral que Brubaker se dá ainda melhor. Suas séries sobre crime, desenvolvidas com o artista Sean Phillips, resgatam com propriedade a tradição dos quadrinhos policiais de Charles Biro e da EC Comics, da literatura pulp e do filme noir.

Scene of the Crime, minissérie de 1999, marca o início da parceria dos criadores – embora o roteirista já fizesse histórias policiais desde o início dessa década. Uma obra menor, mas que possuía todas as características centrais do que fariam a seguir: mostrar a violência urbana como ela é, inesperada e sem sentido, em contos repletos de intrigas e personagens amorais.

Sleeper

Capa de Sleeper #12 (Vol.2)

A primeira série “pra valer” da dupla é Sleeper, publicada pelo selo Wildstorm, da DC Comics, de 2003 a 2005. Em suas 24 edições, subverte o gênero de super-herói, borrando as linhas entre o “bem” e o “mal”. O protagonista, um agente secreto completamente imune à dor chamado Holden Carver, infiltra-se em uma organização terrorista. Acontece que a única pessoa a saber disso, seu superior direto, sofre um atentado e entra em coma. Ele, então, passa a viver sem saber se possui aliados. A cada assassinato de pessoas inocentes que comete, se questiona se está do lado dos mocinhos ou dos bandidos.

Os autores pegam emprestado dos hardboileds de Mickey Spillane, Raymond Chandler e Dashiell Hammett a narração rápida, sem firulas, e o clima barra pesada, uma sensação de céu desabando; do cinema noir, a femme fatale. Curioso notar que, assim como nesses filmes, as mulheres são um importante elemento para a queda dos homens – mas a culpa é toda deles, talvez pelo fato de o sexo ser uma das poucas fugas da dureza da realidade.

sleeper2

Em Sleeper, os diálogos secos ajudam a entender as motivações dos personagens, sempre mergulhados em um mundo de mentiras e traições

Sleeper escorrega em alguns momentos, quando coloca frases clichê na boca dos personagens para fazê-los mais durões do que já são. Ainda assim, é muito acima da média. Narra um jogo de gato e rato disputado por mentes brilhantes, com conspirações, ação e tensão palpável. No trabalho seguinte da dupla, lançado de forma não contínua entre 2006 e 2011, a sintonia fina dos roteiros seria ajustada. O resultado: uma obra-prima moderna.

Em Criminal (do selo Icon, da Marvel), saem os super-heróis dúbios, entra a crueza do submundo dos ladrões pé-rapados, das máfias e dos golpes. A estrutura narrativa não muda: narrador em primeira pessoa, linguagem direta, diagramação sóbria. Porém, aqui não existem protagonistas, pois cada arco de histórias, com quatro ou cinco edições, conta a vida de uma pessoa. Todos esses personagens retornam em diferentes momentos da série, o que ajuda a aprofundar suas personalidades.

criminal

Poucas séries têm um elemento urbano tão forte como Criminal. Nela, as cidades são como na vida real: feias, sujas, cheias de perigos mortais

Conhecemos o assaltante de banco covarde, o soldado fugido do exército que vira capanga do tráfico, o dono de bar com coração partido, o falsificador esquizofrênico, a jovem que sofre com o racismo e busca vingança, entre outros. Embora sejam a escória, sabemos quais seus desejos, medos, opiniões. São terrivelmente humanos, como qualquer um de nós.

E é esse o principal mote das séries de Brubaker e Phillips: bondade e maldade coexistem e, em muitos casos, são conceitos relativos. As pessoas apenas tentam levar suas vidas da melhor maneira possível. Isso torna o mundo um lugar muito mais complexo para se viver, para sobreviver. No arco The Last of the Innocent, por exemplo, um homem casado com bela e rica mulher decide matá-la para assim retomar a vida idílica da juventude. Ele se esquece, no entanto, que o passado não pode ser reconstruído à força.

criminal_badnight

Cena do arco Bad Night, de Criminal, talvez o ápice criativo da parceria entre os quadrinistas. O personagem principal, um cartunista, tem alucinações com o detetive da tira que ele próprio escreve para jornais, enquanto se afunda em um inferno pessoal de assassinato e paranoia

Nenhum outro desenhista seria capaz de traduzir o pessimismo de Brubaker além de Sean Phillips. Sua arte é engolida por sombras: a maioria dos quadros esconde o rosto dos personagens, o que ressalta o caráter sombrio dos enredos. A diagramação tradicional, sem grande ousadia, relembra que as histórias fazem parte de um gênero já consolidado, com características previamente existentes. Experimentação não combinaria com os temas abordados.

Além disso, Phillips traz ao século 21 o estilo de mestres como Johnny Craig e Wally Wood. Composições aparentemente simples, com vários quadros por página e personagens sendo mostrados a partir de planos médios ou em closes, mas cheios de expressividade. Seu traço transmite o desespero nos rostos desses seres: um olhar basta para se entender o sofrimento de um amor deixado para trás, como no one-shot (história de uma edição) Second Chance in Hell, também pertencente a Criminal.

Em 2014, a dupla de criadores finalizou outra série, desta vez já pela Image Comics. Fatale está mais próxima de um filme de horror psicológico, uma mistura de crime, monstros lovecraftianos e magia. Ainda no ano passado, lançaram The Fade Out, o passo mais óbvio da carreira: um conto genuinamente noir, passado na Era de Ouro de Hollywood dos anos 1940, envolvendo a morte de uma jovem estrela de cinema e a busca incessante pela fama.

Brubaker e Phillips ainda têm muito a oferecer ao mundo dos quadrinhos – estão entrando agora na casa dos cinquenta. Que continuem com esse fôlego por muito tempo.

OBS: de todas as séries citadas, somente os dois primeiros arcos de Criminal, Covarde e Lawless, foram publicados no Brasil, pela Panini. Uma pena: público pra esse tipo de história não falta por aqui.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s