Nem imagino o quanto sofriam os leitores argentinos que, ao longo de dois anos (1957 a 1959), compraram a revista Hora Cero para ler os capítulos semanais de O Eternauta. Penso isso porque no fim de (praticamente) cada página da HQ, tem lá um gancho dramático, uma surpresa, uma reviravolta. Se nas edições que compilam a história já é difícil conter o ímpeto de virar a página, esperar uma semana inteira para saber o que iria acontecer devia ser um martírio.

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A importância ideológica de O Eternauta para a América Latina é enorme. A HQ anteviu o movimento repressor contra as democracias que tomaria conta da região a partir da década de 1960. O roteirista Héctor Germán Oesterheld e o desenhista Francisco Solano López documentam nosso espírito de solidariedade, união e luta ao fazer os habitantes de Buenos Aires enfrentar um ataque alienígena de proporções mundiais. Esse aspecto moral do latino, povo constituído por um heroísmo coletivo, em contraponto ao heroísmo individual norte-americano, se tornou um dos principais legados da obra.

Para a Argentina, então, o quadrinho e seu protagonista viajante do tempo são símbolos nacionais. Oesterheld, que se tornou atuante ativista político contra a ditadura militar instaurada no país, desapareceu em 1977 – seu corpo jamais foi encontrado. No período de um ano e meio, foram assassinadas ainda suas quatro filhas, duas delas grávidas, e dois genros (mais informações a respeito da biografia de Oesterheld, o jornalista Paulo Ramos revela aqui).

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Por se passar em diversos locais icônicos de Buenos Aires, os leitores da época em que a HQ foi publicada tinham a impressão de acompanhar uma história em tempo real. Aqui, o Monumental de Núñez, estádio do River Plate

Acontece que, por trás dessas questões sociais, existe uma história boa pra caramba. Desde o início do enredo – a neve que mata ao contato com a pele caindo sobre a cidade portenha -, a “ficção científica realista” de Oesterheld mistura suspense psicológico com ação física. Ao mesmo tempo, o roteiro atira conceitos (sejam científicos, morais ou observações cotidianas) atrás de conceitos na cara do leitor. O tom de fim de mundo iminente está lá, na urgência de cada nova descoberta a respeito dos invasores, nos perigos mortais de batalhas contra o desconhecido. São essas ideias que evitam que uma obra de folêgo como essa, com 350 páginas, caia no tédio.

Os cliffhagers, aqueles ganchos da trama que ligam capítulos, são a alma d’O Eternauta. Não lembro de ter lido nada que usasse a técnica de forma tão poderosa quanto aqui – talvez as séries de Brian K. Vaughan, escritor acostumado a concluir edições sempre com situações surpreendentes. A edição nacional da Martins Fontes não indica onde começam e terminam as partes semanais do quadrinho, mas dá pra perceber somente pela dramaticidade do fim das páginas.

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A arte de López ajuda a modular os sentimentos do leitor: a expressividade dos rostos dos personagens nos dizem tanto sobre eles como as extensas descrições do roteiro

Assim, O Eternauta é um ato mais do que intelectual, é um ato físico: virar a página se torna fundamental para se chegar ao nível de emoção pretendida pelos autores. Quando se sente o impacto da única splash page (um único quadro que ocupa toda a página) da obra, entende-se melhor isso.

O que quero mostrar, então? Que, lá em 1957, já existia uma HQ com um domínio moderno sobre a mídia da qual faz parte. Oesterheld comentou certa vez que não tinha a história pronta desde o início. Pode até ser verdade, mas fica difícil acreditar totalmente nessa versão quando a página final faz uma referência saborosa à inicial, utilizando-se do tipo de metalinguagem que Grant Morrison cansaria de usar em sua carreira. No quesito narrativo, Oesterheld e López eram como o protagonista de O Eternauta: viajantes, muito à frente de seu tempo.

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