O falecido quadrinista estadunidense Joe Matt (morto ano passado de parada cardíaca) era uma pessoa tenebrosa: ególatra, sovina, machista, viciado em pornografia, dava em cima de mulheres enquanto mantinha relacionamentos sérios (e ainda achava ruim levar pé na bunda das namoradas), tinha pouco zelo por higiene pessoal (urinava numa garrafa pra não ter de ir ao banheiro e encontrar o senhorio do prédio onde morava)…
Essa, ao menos, era sua persona nos quadrinhos supostamente autobiográficos que produziu a partir dos anos 1990, na série Peepshow. Na vida real, Matt era um cara legal – com suas idiossincrasias, como qualquer um. Boa parte das situações retratadas nos gibis nem mesmo eram vivenciadas por ele: pegava de orelhada alguma história bizarra contada por conhecidos e a transformava em roteiro.
Na vida real, Matt era um cara legal – mas o legal mesmo era ler as desventuras de sua versão asquerosa. O que não faz sentido nenhum, afinal, com qual objetivo alguém em sã consciência venderia ao mundo uma imagem fictícia tão podre de si mesmo? Pra fazer seus leitores rirem, claro! Peepshow é das HQs mais engraçadas já feitas justamente pelo humor proporcionado pelo personagem Joe Matt.
Ele é um boy dodói noventista, sem dinheiro e paranoico. Acredita ser a última bolacha do pacote ao mesmo tempo que pragueja sobre como a vida é injusta. Vomita virtudes num quadro da página para, no próximo, contradizê-las completamente. E tudo isso vira ouro com o cartooning de Matt. Não sei se existe uma palavra em português que traduza o escopo desse termo em inglês, mas dá para explicá-lo como a capacidade de narrar com fluidez e clareza, aliada a um desenho cujo traço expressivo transborda carisma.
As histórias contadas pelo quadrinista funcionam por conta dessa capacidade. Sua decupagem perfeita e raro timing cômico, seja para gags visuais ou piadas baseadas no diálogo, transformam situações vexatórias, cheias de vergonha alheia e autocomiseração, em cenas hilárias.

Acima de tudo, Matt sabia o que fazia: paródia, não dissertação. O foco não era denunciar o quão baixo pode chegar o comportamento humano – estava na graça em rir de alguém escroto. E para não haver dúvidas a respeito desse propósito, ele se coloca como o alvo da risada.
Aí chega o ponto sobre o qual eu pensava enquanto lia Peepshow: especialmente no gibi brasileiro atual, falta esse desprendimento, essa dualidade necessária numa época em que retidão moral é cobrada de forma incessante – até porque o mundo de verdade está lotado de contradições. Diversas HQs e tiras sendo feitas hoje colocam a integridade moral dos personagens, e dos temas abordados, acima de qualquer qualidade artística. É como se a existência desses materiais se justificasse tão somente por tecerem um comentário social.
Ao mesmo tempo, noto a existência de um enorme apego, por parte de quadrinistas, ao relato, à reprodução fria dos fatos como aconteceram. Claro que uma reportagem em quadrinhos precisa se ater ao real para permanecer verossímil, mas o olhar aqui é pra uma HQ mais lúdica, fora do noticiário e de questões urgentes. Contar um fato como aconteceu, por si só, não dá conta de aprofundar um assunto.
Voltemos a Joe Matt: seu foco era a comédia de situações. Mesmo assim, conseguia trazer alguma reflexão sobre um tipo de comportamento, justamente pela escolha de não fazer mero relato. A parte inventada do enredo desses gibis, a parte que pode ter vindo de merdas feitas por ele no passado, os exageros, a vontade de rir de si mesmo… Tudo se soma para além da qualidade objetiva da obra, trazendo alertas a seus leitores, em especial os homens: ninguém quer se ver como o Joe Matt representado em Peepshow.
Vale, inclusive, pegar o exemplo de uma artista mulher que sempre esteve à frente de seu tempo temática e narrativamente, a canadense Julie Doucet. Ela cansou de tratar de temas tabu em sua revista Dirty Plotte; nem por isso se limitava a passar lição de moral, ou se colocar em posição defensiva, no que se refere a feminismo, abuso físico e psicológico, a vida em uma sociedade patriarcal etc. Pelo contrário, ia até as últimas consequências na mistura de biografia, ficção, metatextualidade e revolta – tem uma tira em que ela corta o pênis de um cara e usa o órgão ensanguentado pra pintar uma tela. Ter ido além das experiências pessoais faz de seu trabalho algo de vanguarda mesmo agora, trinta anos depois.

Falta muito dessa dinâmica a inúmeras HQs contemporâneas. O “quadrinho-cartilha”, que usa relato para pregar valores, diminui a capacidade de a obra dialogar com um público amplo. Deixa ainda as mãos dos artistas atadas em relação à forma como as histórias serão contadas: se o tema é mais importante que todo o resto, então o resto nem precisa ser pensado. Basta fazer o básico na questão gráfica com o intuito de vender a mensagem – o que só dilui ainda mais a percepção do leitor médio a respeito da capacidade dos gibis enquanto linguagem.
O editor e pesquisador japonês Asakawa Mitsuhiro já falava sobre a questão em 2007, quando escreveu introduções para os quadrinhos do mangaká Katsumata Susumu na revista sul-coreana Saiko Comics:
O número de artistas ocidentais desenhando suas experiências pessoais aumentou muito, mas a maioria desses esforços não impressiona. Há trabalhos interessantes, porém boa parte parece ser nada mais do que o autor documentando essa experiência. Um diário e uma obra criativa são coisas diferentes. Mesmo se o tema envolver a realidade, devemos analisá-la e criar novos significados para ela, para enfim isso se transformar em arte. Mergulhar nas profundezas da consciência e dar uma forma clara a conceitos intangíveis, como as emoções, pode ser doloroso. Mas não encontramos a eternidade exatamente naquilo que pode ser alcançado por meio de um processo trabalhoso?
No clássico O Visconde Partido ao Meio, do escritor italiano Italo Calvino, um nobre ferido em guerra retorna para sua cidade com apenas metade do corpo. Essa metade é terrivelmente má; seu prazer reside em tornar a vida dos súditos a pior possível. Lá pela metade do livro, porém, a outra metade aparece. Ela é completamente boa, embora mostre-se tão insuportável, arrogante e déspota como a primeira. Somente após o corpo do visconde ser costurado, voltando a ser um só, as coisas retomam certa normalidade.
A metáfora de Calvino é bem óbvia, mas importante: somos humanos, imperfeitos, com coisas boas e ruins, e assim devemos seguir. Buscar uma arte higienizada, mostrando apenas o lado elevado da vivência humana, é alienar tanto o leitor como a si mesmo enquanto artista.
PS: a edição número 15 de Peepshow, na qual Matt trabalhava quando de sua morte, será lançada pela Fantagraphics nos EUA, em julho. Chester Brown, um dos grandes amigos do falecido, fez a arte-final das últimas quatro páginas da obra.
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