“Como é ser mulher nos quadrinhos?”. Hoje em dia, nenhuma artista aguenta mais ouvir uma pergunta sexista e sem criatividade como essa (e que segue sendo feita em eventos e entrevistas por aí). Mas, no início da década de 1970, a presença feminina nessa arte nos EUA era tão incipiente que uma indagação desse porte não pegaria mal. No mercado mainstream de lá, somente uma ou outra conseguia espaço – mesmo assim, quase nunca desenhando e poucas vezes escrevendo, mais em tarefas consideradas secundárias à época, como colorir. No segmento independente, nem o engajado gibi underground escapava do padrão: nada de mulher na Witzend, de Wallace Wood, nem na Zap, de Robert Crumb.

Até que Trina Robbins, a lenda viva da HQ norte-americana, muda-se para San Francisco em 1970. Antes disso, ela desenvolvera o visual para a personagem sexy Vampirella, da editora Warren, e publicara em jornais de Nova York. Uma carreira curta, porém não muito representativa, convenhamos… Quando chega ao caldeirão da contracultura na Costa Oeste, tem enfim a ideia óbvia: já que elas não participam das revistas deles, tava na hora de um projeto sem o envolvimento de homens. Em julho daquele ano, nascia It Ain’t Me, Babe, primeiro gibi dos EUA feito somente por mulheres.

Capa da antologia

Para colocar o projeto em movimento, Trina teve ajuda fundamental de Barbara “Willy” Mendes, amiga desde a época em que faziam cartuns juntas em Manhattan. A revista seria um braço do jornal do grupo feminista Berkeley Women’s Liberation, chamado justamente It Ain’t Me, Babe, para o qual Trina trabalhava como designer há alguns meses.

O resultado é uma coletânea de conteúdo cáustico, interessada em contestar as relações de poder que subjugavam as mulheres no mercado de HQs, no mercado de trabalho e na sociedade em geral. O sucesso veio de imediato, provando o interesse das leitoras por material que dialogassem com sua vivência: lançado pela editora Last Gasp com tiragem inicial de 20 mil exemplares, vendeu tanto que precisou ser reimpresso duas vezes.

O impacto de It Ain’t Me, Babe na produção feminina foi colossal. De repente, abria-se todo um campo a ser explorado pelas artistas, no qual poderiam falar a respeito do assunto que quisessem, sem a necessidade de seguir tendências editoriais em voga. Inclusive, seria justo dizer que outra célebre antologia produzida por mulheres, a Wimmen’s Comix, só surgiria dois anos depois graças à bem sucedida experiência liderada por Trina e Willy.

Análises sobre a relevância histórica de It Ain’t Me, Babe existem em livros e na internet, mas pouco se fala em relação ao conteúdo da revista. Como eram esses quadrinhos? Qual o teor político presente neles? Oferecem alguma reflexão social ainda válida?

A publicação abre com uma página de Meredith Kurtzman, filha de Harvey Kurtzman, cartunista e editor da Mad. Ela usa de uma simbologia deliciosa pra dar o tom do que viria a seguir: num restaurante, vegetais se rebelam e fogem do local, embarcando para algum lugar onde não serão devorados.

No expediente: “Qualquer semelhança com personagens chauvinistas de gibi, vivos ou mortos, é estritamente admitida”

Metáforas estão presentes também em Oma, de Willy Mendes – desta vez, uma mais complexa para ser decifrada. A personagem-título tem a vida idílica destruida por invasores de seu lar. Curiosamente, o fato a permite descobrir a grandiosidade do mundo fora dali. Estaria a autora falando a respeito da prisão representada pelo matrimônio? Pode até ser, embora Oma precise morrer para reencontrar a felicidade ao lado da família em outro plano existencial. Temos, então, reflexões abertas sobre casamento, maternidade, morte e liberdade: um tipo de quadrinho poético e denso, mesmo parecendo simples na superfície, que se tornaria praxe décadas depois na cena independente local.

Michele Brand, futura colorista da Marvel e da Heavy Metal, traz uma crítica bem-humorada à exploração de trabalhadoras em meio a empregos desumanizantes – é o conceito de interseccionalidade, no qual a opressão de gênero soma-se à de classe, etnia etc., sendo debatido numa HQ underground em pleno começo da década de 1970. Enquanto datilografa em sua mesinha num escritório, uma jovem fantasia ser uma espécie de rainha da selva, à la Tarzan, salvando pessoas de mercadores de escravos e domando animais selvagens na base do tapa. O devaneio só termina quando chega a hora do cafezinho, fazendo-a se dar conta, outra vez, da rotina cansativa. E a luta por melhores condições laborais não seria apenas temática para as HQs de Brand: ela e um ex-esposo, também artista, ajudaram a fundar anos mais tarde a United Cartoon Workers of America, um sindicato informal para quadrinistas.

Na outra participação dela na revista, um pequeno desabafo ilustrado (com fortes tons autobiográficos) sobre a dificuldade de levar a vida em paz sendo mulher. Gibi universal e atemporal: as cantadas na rua, as tentativas de abordagem desrespeitosas e os demais abusos sofridos diariamente lá atrás são os mesmos de hoje. Nesse sentido, Brand antecipa os roteiros baseados em observações do dia a dia tão característicos de criadoras como Aline Kominsky e Julie Doucet.

O foco muda com Trina Robbins, responsável por mostrar didaticamente como as mulheres poderiam se organizar para enfrentar o machismo, usando o formato da fábula para tal. Lavender coloca a busca por conhecimento no centro da trama – a feiticeira protagonista passa a entender a importância da irmandade feminina após quase cair num golpe de um ex-amante charlatão. Não é das histórias mais interessantes da antologia, admito, culpa da trama meio simplória. Mas, em I Remember Telluria, Trina eleva o nível. Escreve sobre sociedades matriarcais dizimadas em prol de novos credos (com culto a figuras masculinas, obviamente) e o embate entre o interesse individual e o coletivo. No final, uma virada de roteiro inesperada liga o passado ao futuro, como lembrete de que a luta contra a perseguição nunca termina.

As duas páginas da cartunista socialista Lisa Lyons, figura carimbada de diversas publicações de esquerda estadunidenses, falam por si só (leia-as a seguir). São um chamado à revolução contra os ricos – e aí entram no balaio donos de terras improdutivas, herdeiros, capitalistas em geral que se apropriam do trabalho alheio. A luta por igualdade também se dá na frente político-econômica.

E enfim chegamos à história mais icônica da antologia. Chamada Breaking Out, usa de metalinguagem para desferir um golpe certeiro nos pequenos costumes que, somados, formam uma teia de opressões com o objetivo de sufocar a existência feminina. As artistas sabiam da força desse material, pois assinam o roteiro em conjunto (“Coletivo It Ain’t Me, Babe”). Já os desenhos são de Carole (mais sobre ela a seguir). A ideia é tão simples como genial: personagens mulheres dos quadrinhos, eclipsadas por personagens homens, quebram o ciclo de submissão no qual estavam inseridas – uma bela deixa para as leitoras fazerem o mesmo em suas vidas.

A HQ insere humor escrachado em questões sexistas reais, como manipulação psicológica, isolamento de amigos e família, mansplaining etc. Logo de cara, Luluzinha xinga Alvinho. Na sequência, Betty e Veronica deixam a rivalidade de lado para darem um pé na bunda de Archie. A Supergirl se enche do caráter ultraprotetor do Super-Homem, indo viver suas próprias aventuras, enquanto Petúnia abandona Gaguinho, livrando-se de uma relação em que recebia migalhas de afeto. Por trás dessa “rebelião feminista” está a bruxa Hazel (aquela dos Looney Tunes), que ri enquanto o mundo pega fogo. HQ espirituosa, Breaking Out faz a denúncia, reflete a respeito das soluções para o problema e ainda funciona como trama bem narrada. Pacote completo.

E apesar das qualidades, Breaking Out revela indiretamente uma faceta triste do mercado de quadrinhos: não se sabe o que houve com a carreira de Carole após It Ain’t Me, Babe. Ela seguiu fazendo gibis? Abandonou a vida de artista? Está viva hoje em dia? Perguntas às quais ninguém consegue responder. Em parte, culpa da época pré-internet em que a antologia foi produzida. Toda a comunicação das colaboradoras com Trina Robbins ocorreu por correio, nunca pessoalmente. Elas se encontraram poucas vezes – incluindo o momento no qual se tirou a foto abaixo. Era fácil perder contato com alguém naqueles tempos…

Mesmo assim, façamos um exercício. Um homem desenhando um trabalho marcante e popular como esse teria a carreira alçada para muito além da cena independente das HQs. Seria endeusado pelos amantes da arte, talvez teria ganhado livros e exposições a seu respeito.

Na história do quadrinho norte-americano, e até mundial, It Ain’t Me, Babe se mostra um marco incontornável – seja para revelar a criatividade feminina represada por décadas (e que ganharia passe livre para existir depois disso), seja para mostrar que, nesse ramo, mulher precisa fazer muito mais para ser reconhecida. Mas fiquemos com a parte boa da coisa. Em apenas 36 páginas, essas quadrinistas mudaram à força o cenário da produção local, servindo como modelo para inúmeras gerações. Tem um pouquinho de Trina e companhia em toda jovem garota a fim de fazer gibi.

Parte das criadoras de It Ain’t Me, Babe. Em pé: Carole, Peggy, Michele Brand e Willy Mendes; sentadas: Trina Robbins e Lisa Lyons

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4 comentários sobre ““It Ain’t Me, Babe”: a pioneira antologia feminista que deu voz às autoras independentes nos EUA

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