O psiquiatra alemão Fredric Wertham é das figuras mais infames dos quadrinhos mundiais: seu livro A Sedução do Inocente, de 1954, foi a faísca que faltava para acender a fogueira da perseguição institucional aos quadrinhos nos EUA, escolhidos (ao lado do cinema e da televisão) como grandes perpetradores da “delinquência juvenil”. Uma paranoia a mais num país então mergulhado em paranoias, principalmente a anticomunista.

Mas a charlatanice de Wertham, que inclui distorção de dados para encaixar os resultados de pesquisas a crenças pessoais, não define sua personalidade. O cidadão retrógrado e egocêntrico ao qual a comunidade das HQs se acostumou a conhecer fora muito mais humano do que aparenta. Ele estudou a influência do contexto social, especialmente a miséria, na criminalidade e chegou a construir no Harlem, em Nova York, uma clínica psicológica voltada ao atendimento da comunidade negra, cobrando valores simbólicos dos mais pobres.

Essas contradições estão presentes em Fredric, William e a Amazona – Perseguição e Censura aos Quadrinhos, dos franceses Jean-Marc Lainé e Thierry Olivier, lançado este ano pela Pipoca & Nanquim. O livro justapõe Wertham a outra figura controversa dos gibis da época: William Moulton Marston, o criador da Mulher-Maravilha. Inventor, progressista, homem de negócios, Marston utilizava conceitos empoderadores e feministas nas histórias da heroína – ao mesmo tempo que forçava a esposa a um relacionamento aberto com outras mulheres. Enfim, contradições…

O gibi funciona bem amarrando ambas as jornadas, embora a parte final, contendo a criação da Comics Code Authority, soe bastante corrida (com algumas páginas a mais, os autores resolveriam o problema). Mas uma sequência da obra se destaca, revelando visualmente o estado da psiquê de Wertham no início de seu interesse por quadrinhos como objeto de análise.

Em 1935, ele trabalhava como psiquiatra forense em NY, testemunhando em tribunais a respeito da condição mental de criminosos. No começo do segundo capítulo, o psiquiatra entrevista um idoso responsável por torturar e matar dezenas (ou até centenas) de crianças. A detalhada descrição dos bárbaros crimes deixa Wertham completamente perturbado. Após escrever seu relatório, e ainda abalado pelo terror puro que teve de ouvir, sai para espairecer e passa em frente a uma banca de revistas. Isso é o que ele encontra:

Note como Olivier compõe o desenho: a criança mais parece uma marionete do jornaleiro, presa a cordas invisíveis, sendo manipulada para ler obras degeneradas. No quadro seguinte, o dono do local se assemelha a um gângster, com direito a charuto e olhos escondidos atrás da boina, pronto para corromper os jovens. Até o enquadramento torto passa uma sensação de que nada de bom emana dali.

Esse é o momento no qual Wertham, talvez inconscientemente, começa sua cruzada antigibis – algo que essa pequena sequência prenuncia com primor.

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