Lalo e Jéssica Groke participaram de uma ótima antologia em 2019, a Tabu, lançada pela editora Mino. Agora, as duas se juntam a Diego Sanchez e Felipe Portugal para outra coletânea de histórias tematicamente ligadas. 11:11 junta contos de horror com visões bastante distintas a respeito do gênero. Mas, mesmo com abordagens e estilos diferentes, os autores costuram seus trabalhos a um tema maior: não é necessário monstros ou seres bizarros para causar medo no leitor; viver, como mostram seus personagens, já é aterrorizante o bastante.

A seguir, uma análise sobre cada história.

Capa da antologia


Concreto, de Jéssica Groke

Foda-se se eu morrer por isso. Obrigado Deus!“. A última página da HQ reproduz uma foto que mostra esses dizeres pixados na parede de um prédio. As frases são parte da letra de Eu não pedi pra nascer, música do grupo paulistano de rap Facção Central sobre a dificuldade da infância vivida ao lado de uma mãe negligente. Acontece que a imagem ressignifica de forma perfeita o sentido original: o pixador não liga se morrer fazendo arte. Por isso mesmo, Groke a usa para sublinhar a principal ideia contida no gibi, a de que as vozes invisíveis da metrópole não aceitam se calar.

Do ponto de vista da trama, Concreto não poderia ser mais simples. Um garoto de boné e capuz acende um cigarro na noite silenciosa. Olha pra lá, pra cá, não vê ninguém. Começa então a escalar a marquise de um edifício, e logo está lá em cima, olhando para a altura vertiginosa que deixou pra trás. Com a lata de spray na mão, começa a pixar algo, mas é interrompido por um encontro inesperado.

Groke escreve pouquíssimos diálogos na obra. Ainda assim, aprofunda questões urbanas relevantes. A periferia deixada de fora dos grandes centros urbanos; a falta de um suporte para a expressão de suas vontades e reivindicações; a busca por se fazer presente, sentido, ouvido, onde não se é bem quisto: está tudo lá, mesmo que subentendido. Ao criar uma história sobrenatural em torno do pixo, a artista mineira faz com que cada leitor deixe de lado sua opinião a respeito do assunto (manifestação cultural legítima ou destruição do patrimônio público/privado?) para enxergar novas perspectivas de mundo.

Os desenhos sem requadro seguem como a principal marca estilística da quadrinista. E, cada vez mais, ela acrescenta soluções visuais pra ajudar esse tipo de composição – como a sobreposição de imagens em close e em segundo plano. E uma cena em especial se destaca, na qual dois personagens são gradualmente iluminados por faróis de carro. As pesadas sombras feitas de lápis dão lugar a formas com contornos bem soltos: é o “momento da verdade”, quando a realidade se choca com o fantástico, e todas as intenções (da artista e do quadrinho) passam a fazer sentido.

A história que Groke fizera para a Tabu não atingira seu potencial completo por falta de espaço para desenvolver as ideias. Aqui, deu-se o contrário: com metade das páginas, ela criou um conto potente e com muito a dizer.


Uma Coisa Grande na Vida, de Felipe Portugal

A princípio, esse trabalho de Portugal nada tem de terror. Conta um dia na vida de um homem jovem qualquer, sem feitos na vida. No passado, o protagonista sem nome até demonstrou capacidade para ser bem sucedido (independentemente do significado desse termo), mas o presente mergulhado na mediocridade – solteiro, sem trabalho ou amigos, sustentado pelos pais – revela que estavam errado a respeito da expectativa despejada sobre seus ombros.

Ao longo das páginas, ele faz coisas mundanas. Arruma sua quitinete imunda, faz a barba, vai para um quarto de hotel. Todas as ações são narradas por ele, lembranças de fracassos num tom monocórdio de resignação. Fica claro que a vontade de ser reconhecido, de “fazer algo grande”, segue pulsante. Há uma forte sensação de que as coisas estão em desarranjo com o rapaz, até a hora em que o “fazer algo grande” se torna a única maneira de escapar de sua existência – e enfim o terror da história se consolida.

Portugal escreveu sobre o horror social, do cotidiano, que se revela nos detalhes. O horror do século 21, potencializado pela internet: cultura da ostentação, incels, chans, fake news, teorias da conspiração, disseminação de ódio (de cunho misógino, racista, antissemita, antiminorias ou homofóbico). Não que o personagem se ligue a tudo isso, mas serve como avatar de um homem médio que se vê sufocado por uma sociedade na qual não se enxerga, martirizando-se numa “guerra santa” que só ocorre na sua cabeça. A referência ao cabelo de Travis Bickle, lendário papel de Robert De Niro em Taxi Driver, é certeira: pode-se ser vilão tendo certeza de que se é herói.

Os traços linha clara que Portugal refinou nos últimos tempos passam certa impessoalidade ao protagonista e suas ações, como se não fosse mais possível identificar de onde posições extremistas/terroristas surgem. Outra marca do criador (os personagens que falam diretamente com o leitor) funciona melhor aqui do que em outros quadrinhos, pois indica também uma condição de saúde mental deteriorada.

Uma Coisa Grande na Vida não reinventa o thriller com aspectos sociológicos. E nem precisaria: sua leitura é importante alerta neste Brasil de lunáticos truculentos.


Saimento, de Lalo

É sempre um evento ver um gibi de Lalo publicado, já que sua produção está longe de ser volumosa ou seguir certa periodicidade. Falei outras vezes a respeito da visão bastante única da artista sobre as relações pessoais, e este quadrinho confirma outra vez sua capacidade de investigar assuntos caros à condição humana por meio de um subtexto profundo como poucos. As ideias contidas nas obras dela vão além daquilo escrito e desenhado.

Saimento pode ser encarada como uma sequência extraoficial de Cina, história de Lalo em Tabu. Nessa outra antologia, a protagonista tinha uma doença aparentemente terminal e pedia ajuda para se suicidar; a parceira tentava dissuadi-la da ideia, mostrando o valor de se agarrar à vida mesmo em uma situação limite e sem saída. O objetivo era analisar, sem afetação, o fim de tudo sob o ponto de vista de quem se vai – até a diagramação sóbria, com repetição de grid de quadros, expressava tal serenidade.

Na HQ recente, o olhar se volta para aqueles que sobrevivem, os que precisam lidar com a ausência. E a morte ocorre antes mesmo de a trama começar: vemos o debate entre filho e esposa de uma falecida a respeito do ritual fúnebre solicitado por ela enquanto estava viva. Cada um encontra-se em etapas diferentes do processo de luto. O garoto ainda sente raiva, parece se culpar por ter deixado questões em aberto com a mãe; já a mulher aparenta sair da depressão para entrar na aceitação, mesmo com a saudade da amada apertando forte o peito.

O inesperado momento gore que nos leva à conclusão da HQ surge como perfeita metáfora do impacto causado pela separação (seja a que chega de supetão ou a aguardada ao longo de meses em um hospital). O resultado da morte é apenas dor: física, psicológica, que corta fundo e não faz sentido. Lalo traduz esse amálgama de sentimentos em uma cena à beira do surreal, cheia de rabiscos disformes. Pelo menos, a necessidade de se despedir formalmente do corpo – está aí uma tradição milenar que talvez jamais se torne obsoleta – atenua um pouco o tormento dos personagens.

Numa época na qual estamos todos inundados pela perda (de parentes, amigos, conhecidos), Saimento expurga a tristeza na busca por alguma paz de espírito.


O Banquete, de Diego Sanchez

Lembro de, ali por 2004 ou 2005, ter lido uma notícia aterrorizante numa revista, sobre um alemão que fora preso por assassinar um homem para literalmente devorá-lo. O episódio desafiava os limites do racional: o canibal publicara um anúncio online à procura de uma “presa”. A vítima contatou esse rapaz e, voluntariamente, ofereceu-se para virar alimento. Não sei se Sanchez se inspirou no fato, bastante comentado à época, para escrever O Banquete. Contudo, ao narrar uma história semelhante, ele desnuda esses fetiches e prazeres mórbidos, escondidos na mente humana, de forma elegante e sanguinolenta.

Existe uma iconografia religiosa que perpassa as páginas – um halo saindo da cabeça de certo personagem, uma citação ao Evangelho de São Lucas parafraseando a “parábola do filho pródigo”, uma referência imagética à cruz de Cristo. Afinal, é um enredo sobre salvação: o narrador Jonas (mesmo nome do profeta bíblico engolido por uma baleia), tomado pelo vazio existencial, atende ao chamado do misterioso Armand para imolar-se, com o objetivo de proporcionar um momento de êxtase, mesmo que fugaz, a si e ao próximo.

O paralelo entre a situação e um relacionamento fadado ao fim está nas entrelinhas. O protagonista, a certa altura, percebe que entregar-se de corpo e alma (no caso, principalmente de corpo) a alguém não é garantia de redenção. A “fantasia perfeita”, como ele define, num piscar de olhos pode virar mais um trauma a ser carregado.

Além do aspecto objetivo e simbólico da trama, o quadrinho encanta pelo visual. O quadrinista não poupa o leitor de carne, ossos e vísceras – e seu desenho miúdo, meio barroco, com traços e pequenos pontos na composição das texturas, oferecem às cenas um senso onírico palpável. O caráter de irrealidade do mundo no qual vive o casal se reforça também pela diagramação livre, que não segue um padrão para o tamanho dos quadros ou para a quantidade deles.

O outro gibi de Sanchez publicado este ano (Aurélia Precisa Pagar o Aluguel, pela editora Mino) parece feito no automático, recauchutando temas já abordados por ele outras vezes. Em O Banquete, nota-se maior foco e paixão por parte do artista. O resultado é um exercício impecável de horror, ponto mais alto de uma antologia cheia de pontos altos.

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