O noir é um gênero cinematográfico nascido do nazismo. Ele surge no início dos anos 1940 a partir de uma geração de cineastas europeus (Fritz Lang, Billy Wilder, Robert Siodmak, entre outros) que desembarcara em Hollywood na década anterior fugindo da perseguição hitlerista. Além de uma visão de mundo mais amarga, esses profissionais levaram novas sensibilidades artísticas à produção norte-americana.

Subgênero do filme policial, e influenciado pela estética de sombras do expressionismo alemão, o noir conta histórias cheias de anti-heróis, crimes, mulheres fatais, intrigas – algumas delas escritas por mestres da literatura pulp, como Dashiel Hammett, James M. Cain e Raymond Chandler. A amoralidade de tais obras (O Falcão Maltês, Fuga do Passado, A Morte Num Beijo etc.) era o produto cultural perfeito para a angústia social da Segunda Guerra e do período pós-conflito.

Avançamos no tempo para a década de 1960, quando esses filmes ganham outro aspecto. Se antes, as tramas focavam na psicologia dos personagens, agora há um olhar mais amplo, coletivo. O pessimismo é ainda maior, já que a expectativa de um futuro glorioso dava lugar a outra guerra, a do Vietnã, desta vez uma sem mocinhos ou vilões claramente definidos. Junta-se a isso a revolução estética e temática gerada pelas vanguardas de cinema europeia, principalmente a nouvelle vague francesa, inspirando cineastas de todo o mundo. Pronto, tem-se uma nova receita para atualizar o velho molde: o neo-noir.

É difícil cravar os atributos do neo-noir. Em sua maioria, seguem sendo obras a respeito de detetives, assassinatos e corrupção. Mas passam a misturar gêneros, contar histórias que vão contra a clareza narrativa hollywoodiana, usar metalinguagem e maior violência gráfica. O escopo se ampliou.

E, enfim, chegamos aos quadrinhos. Existem diversas HQs que pegam essas ideias e as apontam para outros caminhos. Gibis neo-noir, por que não? A seguir, separei alguns que se encaixam nas características desse “subsubgênero”. Tentei agrupá-los a partir das semelhanças em forma e conteúdo, indicando filmes que dialogam com cada tópico abordado.


Análise sociológica
Alack Sinner (Carlos Sampayo e José Muñoz, inédito no Brasil); Evaristo (Carlos Sampayo e Francisco Solano López, editora Comix Zone)

Analisemos o clássico noir Pacto de Sangue (1944), de Billy Wilder. Nele, um vendedor de seguros é convencido por uma mulher insatisfeita no casamento a matar seu marido. Depois do crime, os cúmplices fugiriam juntos com a bolada da apólice – e, obviamente, nada ocorre como o planejado. O plot básico de um filme como esse geralmente se desenrola sob o ponto de vista de um único indivíduo, mergulhado (contra a sua vontade ou não) numa situação impossível de ser resolvida sem que alguém se machuque. Os acontecimentos, portanto, são filtrados pela psiquê desse elemento, o que explica a presença usual de narração em off em primeira pessoa.

O neo-noir também tem personagens que carregam o enredo, embora a perspectiva da história seja difusa. Os gibis argentinos Alack Sinner e Evaristo, por exemplo, carregam o nome de seus protagonistas e, ainda assim, não se debruçam sobre a opinião deles a respeito do mundo: o roteirista Carlos Sampayo os utiliza mais como meio para a discussão de problemas sociais do que fim em si mesmos. Alack é um detetive na Nova York dos 1970, afundado em casos envolvendo racismo, manipulação política e o trauma da Guerra do Vietnã – uma visão latino-americana dos EUA em ebulição. Evaristo é inspirado em gente real, o implacável comissário da polícia federal Evaristo Meneses, celebridade na Buenos Aires dos 1960. Lidando com serial killers, nazistas, militares corruptos e a falta de água nos cortiços da cidade, ele funciona como ferramenta para a denúncia de um país doente.

Filme indicado: Klute – O Passado Condena (Alan J. Pakula, 1971)
Retrato desencantado da sociedade estadunidense durante a presidência de Nixon – e o roteiro parece prever a paranoia gerada pelo escândalo de Watergate no ano seguinte. Jane Fonda e Donald Sutherland são, respectivamente, uma prostituta e um policial, dois coitados sem nada na vida metidos na investigação do sumiço de um empresário. Ao final, nem a resolução do mistério consegue diminuir o sentimento de derrota moral, traduzido visualmente pelas sombras criadas pelo diretor de fotografia Gordon Willis, o mesmo de O Poderoso Chefão.


Reinterpretação do espaço físico
West Coast Blues (Jean-Patrick Manchette e Jacques Tardi, inédito no Brasil); Alho-Poró (Bianca Pinheiro, Conrad)

A cidade grande é o palco do noir. Suas tramas se desenrolam em delegacias, escritórios de investigação, ruas chuvosas durante a madrugada, dentro de carros. E a escolha por esses cenários não tinha só um propósito narrativo (o espaço urbano corrompendo almas), mas financeiro, por conta dos baixos orçamentos disponíveis a esses filmes. Reproduzir uma cidade é muito mais simples que reproduzir o campo: postes cenográficos e névoa artificial bastaram para Edgar G. Ulmer imitar Nova York em Curva do Destino (1945).

Anos depois, esses cenários deixaram de ser paradigmas – afinal, as preocupações temáticas eram outras. West Coast Blues, livro do escritor Jean-Patrick Manchette, adaptado para os quadrinhos por Jacques Tardi, leva a ambientação para o litoral francês. Uma tentativa de assassinato no meio da praia lotada durante um feriado inicia uma perseguição mortal pelos recônditos do país, incluindo um longo interlúdio intimista numa floresta. Alho-Poró, de Bianca Pinheiro, busca o efeito oposto: concentra a ação dentro de uma casa, enquanto amigas preparam uma receita de quiche com o ingrediente do título. Esse elemento espacial cria uma sensação de claustrofobia, amplificando o mistério sobre quais esqueletos no armário serão encontrados ali. Em lugares inusitados, tais histórias ganham novos significados.

Filmes indicados: O Perigoso Adeus (Robert Altman, 1973); A Morte de um Bookmaker Chinês (John Cassavetes, 1976)
Altman reformula o detetive Philip Marlowe, protagonista dos contos de Chandler e vivido no cinema em muitas encarnações, a mais famosa sendo a de Humphrey Bogart em À Beira dos Abismo (1946). Em O Perigoso Adeus, sai a escuridão da noite, entra o sol da Califórnia e do México, o que muda o tom do personagem: ao invés de canastrão soturno, é um fanfarrão irônico. A Morte de um Bookmaker Chinês, do pai do cinema independente americano Cassavetes, escolhe um único ambiente como centro dramático, da mesma forma que Alho-Poró. A boate do personagem de Ben Gazzara, um bon vivant enroscado com a máfia, serve como única válvula de escape para uma vida conturbada.


Elementos fantásticos
Como Uma Luva de Veludo Moldada em Ferro (Daniel Clowes, Nemo); Diomedes – A Trilogia do Acidente (Lourenço Mutarelli, Companhia das Letras); Fatale (Ed Brubaker e Sean Phillips, a ser publicado pela Mino)

O noir está com os dois pés fincados na realidade: busca um retrato fiel (apesar de estilizado na parte visual) do submundo e dos subúrbios da metrópole, alertando os espectadores a respeito do ocorrido quando ninguém está olhando, como em O Cúmplice das Sombras (1951), de Joseph Losey, e Os Corruptos (1953), de Fritz Lang. O imaginário, o extraterreno, não se encaixa nele – se bem que As Diabólicas (1955), de Henri-Georges Clouzot, flerta com o conceito.

Nos gibis, por outro lado, a combinação desses atributos funciona. E quando digo “elementos fantásticos”, me refiro não apenas ao sobrenatural; entram o surreal, o mágico, o religioso. Daniel Clowes parte do mundano em Como Uma Luva de Veludo Moldada em Ferro: um homem começa a investigar o paradeiro de uma atriz que pode ou não ser sua ex. Logo, entramos no reino das organizações de fachada, teorias da conspiração, cultos secretos, seres bizarros – basicamente, o reino de David Lynch, onde o inconsciente se manifesta no mundo ao redor. Diomedes, clássico nacional de Lourenço Mutarelli, a todo momento brinca com magia, com menções ao tarô e à roda da fortuna, com destinos construídos por forças maiores, tudo isso em meio à rotina do detetive do título (daqueles pé rapados que vigiam esposas adúlteras). O terceiro álbum da obra, A Soma de Tudo, eleva ao máximo o aspecto místico da coisa ao levar Diomedes para Portugal, fazendo-o questionar a própria sanidade. Fatale, das grandes séries de Ed Brubaker e Sean Phillips, se destaca pela forma como aborda o ocultismo: ela mostra monstros lovecraftianos nos EUA dos anos 1950, e não se preocupa muito em explicações elaboradas sobre as origens e objetivos dessas entidades – o horror existe, e isso basta. No entanto, o cerne está na desconstrução do conceito da mulher fatal. A femme fatale sempre fora a razão pela derrocada dos homens nesse tipo de história, uma criatura corruptora das “virtudes masculinas”. Brubaker inverte a equação ao mostrá-la como legítima vítima de um sistema social caótico, tocado por machos que destroem a si mesmos e aos outros por vaidade.

Filmes indicados: Alphaville (Jean-Luc Godard, 1965); Crimes de um Detetive (Keith Gordon, 2003)
Difícil encontrar um neo-noir desse estilo. Por isso, vou em dois que misturam gêneros e, de certa forma, abraçam o irreal. Em Alphaville, Godard faz uma ficção científica cheia de ironia: a cidade tecnológica que dá nome ao trabalho era, basicamente, a Paris da época filmada em preto e branco, sem qualquer cenografia especial. Aliás, nem PB isso pode ser considerado; são tons de cinza, tão sem vida como o futuro dominado por supercomputadores, com espiões de chapéu e sobretudo andando pra lá e pra cá. A versão hollywoodiana de Crimes de um Detetive, baseada em uma antiga série da BBC, está mais para um musical com pitadas de body horror. Robert Downey Jr. interpreta um escritor acamado com doença de pele, mergulhado na fantasia de seus livros enquanto definha fisicamente.


Metalinguagem
Manhunt (Tadao Tsuge, inédito no Brasil); Cidade de Vidro (Paul Karasik e David Mazzucchelli, Via Lettera)

Como já vimos, um dos fundamentos do neo-noir é a subversão de seu predecessor. Vale inverter expectativas de enredos, transformar códigos imagéticos em novas formas de expressão. Não raro, tais releituras divagam, direta ou indiretamente, sobre a própria mídia na qual estão inseridas.

Um clássico da era de ouro do noir é O Terceiro Homem (1949), do britânico Carol Reed, no qual o colega de um desaparecido busca encontrá-lo numa Viena ainda sobre os escombros da Segunda Guerra. Em Manhunt (publicada na revista japonesa Garo em 1969 e relançada na coletânea Trash Market, da Drawn & Quarterly), o mestre do mangá alternativo Tadao Tsuge conta algo semelhante, mas ao contrário: o sumido se encontra são e salvo desde o início, tentando reconstruir a trajetória longe de casa com a ajuda de jornalistas. Não há crime aparente, tampouco motivo para o desaparecimento. Tsuge esvazia o sentido dessa trama tão tradicional para focar em um aspecto quase metafísico, a busca do indivíduo por si mesmo. E se essa HQ opta por mudar o conteúdo, Cidade de Vidro, adaptação de Paul Karasik e David Mazzucchelli para o romance homônimo de Paul Auster, escolhe reinventar a forma das histórias de detetive. Um escritor de livros de suspense recebe misteriosos pedidos de ajuda por telefone, assume outra identidade para tentar resolver a situação e se vê preso num labirinto kafkiano, no qual seu próprio self entra em xeque. Essa interpretação do livro de Auster só poderia existir no formato de gibi: Mazzucchelli usou todas as técnicas gráficas disponíveis para construir uma narrativa visual fragmentária.

Tadao Tsuge (acima), Mazzucchelli (abaixo)

Filmes indicados: Um Tiro na Noite (Brian De Palma, 1981); Cidade dos Sonhos (David Lynch, 2001)
Talvez a maior obra-prima entre as várias obras-primas de De Palma, Um Tiro na Noite coloca um técnico de som (John Travolta) no meio de uma conspiração envolvendo a presidência dos EUA – por acaso, ele gravou em áudio uma prova de que a morte do candidato favorito para assumir a Casa Branca não foi acidental. Assim, é um elemento fílmico (o som) o responsável, ou não, por salvar o dia, mesmo que isso condene a vida do pobre rapaz. Já Cidade dos Sonhos é uma representação onírica e cruel de Hollywood. Lynch pega outro plot clássico, o da pessoa encontrada sem memória, e o leva a patamares inesperados de bizarrice e violência psicológica, uma viagem de pesadelo pelo âmago do star system.


NOVOS PONTOS DE VISTA históricoS
Sandman Mystery Theatre (Matt Wagner, Steven T. Seagle, Guy Davis e outros, publicado parcialmente por Abril, Tudo em Quadrinhos e Panini); Escalpo (Jason Aaron, R. M. Guéra e outros, Panini)

A revitalização do noir permitiu roteiros que revelassem fatos históricos antes escondidos, dando voz inclusive a diferentes vivências, etnias e classes sociais. Enquanto Neil Gaiman reformulava o personagem Sandman (lançado em 1939 por Gardner Fox e Bert Christman), dando a ele um caráter místico/mítico, Sandman Mystery Theatre retomou o conceito original: um herói pulp que combate malfeitores usando gás do sono. A grande jogada dos autores desse clássico subestimado do selo Vertigo, da DC Comics, foi colocar o protagonista contra o mal profundo da sociedade norte-americana, incluindo simpatizantes do nazismo, xenófobos, pedófilos e industriais sem escrúpulos. Com isso, se destrói a ideia ufanista da “América, a terra dos sonhos” construída na primeira metade do século passado. Escalpo vai fundo em outro tema pouco debatido nos EUA: a situação das reservas indígenas contemporâneas, onde a pouca, ou quase nenhuma, perspectiva de futuro empurra sua população ao álcool, à prostituição e criminalidade. Acompanhamos um jovem que retorna à reserva onde havia nascido, desta vez como agente do FBI infiltrado a fim de desbaratar a rede de tráfico local que comanda a região.

Guy Davis
R. M. Guéra

Filme indicado: Chinatown (Roman Polanski, 1974)
Provavelmente o neo-noir definitivo do cinema. O roteiro vencedor do Oscar, escrito por Robert Towne, põe um detetive charlatão, interpretado por Jack Nicholson, numa investigação banal que se transforma num pesadelo entrelaçado à própria história secreta (e nada bonita) de Los Angeles. Retrato de como a estrutura político-econômica da maior potência do mundo é formada em sua base por abusos, vidas destruídas e cadáveres de inocentes.


antropomorfISMO
Canardo (Benoit Sokal, inédito no Brasil); Blacksad (Juan Días Canales e Juanjo Guarnido, Sesi-SP); Lost Cat (Jason, inédito no Brasil)

Nos quadrinhos, fica mais fácil deixar a figura humana de lado – até porque deve ser irresistível desenhar animais envolvidos na criminalidade. Curiosamente, europeus são especialistas nisso. Em Canardo, o belga Benoit Sokal (falecido este ano) escreveu as aventuras de um pato detetive e beberrão, cheias de humor cínico e autopiedade. A série começou a ser publicada na revista À Suivre no final dos anos 1970, ganhando o formato de álbum algum tempo depois – ao todo, são mais de vinte volumes lançados. Blacksad, dos espanhois Juan Días Canales e Juanjo Guarnido, começa bastante reverente à típica trama do noir, seguindo à risca os plot twists e o desenvolvimento de personagens – o próprio gato protagonista que dá nome ao título se torna uma versão genérica dos Philip Marlowes do passado. A partir do segundo álbum, as coisas melhoram bastante: o aspecto social entra na parada (racismo, Macarthismo) e John Blacksad ganha profundidade trágica. As soberbas ilustrações à la Disney de Guarnido, com uma das melhores representações de luz das HQs mundiais, deixam tudo mais intenso. O norueguês Jason é outro que não poderia deixar seus cachorros, pássaros e felinos longe de investigações, traições e interesses escusos. Lost Cat faz da solidão e da procura por uma alma irmã, assuntos tão comuns em seus trabalhos, parte central da ambientação. O final do livro, meio delírio, meio ficção científica, fecha de forma intimista mais uma obra-prima desse artista genial.

Sokal
Guarnido
Jason

Filme indicado: Uma Cilada Para Roger Rabbit (Robert Zemeckis, 1988)
Uma “comédia noir” que funciona para crianças e adultos, utilizando humor físico junto de cenas com duplo sentido que podem passar despercebidos aos olhares menos atentos. Num mundo onde desenhos animados e humanos coexistem, o detetive vivido por Bob Hoskins ajuda o pobre coelho Roger a desvendar uma conspiração que visava ao assassinato de animações. Inteligente, espirituoso e metalinguístico até o osso, o filme tem uma das femme fatale definitivas do cinema, a inesquecível Jessica Rabbit.


Super-heróis
Demolidor (Frank Miller e Klaus Janson, Panini); Gavião-Arqueiro (Matt Fraction, David Aja e outros, Panini)

Vários gibis de super-heróis pegam aqui e li particularidades do noir. Mas poucos as reinventam como a passagem de Frank Miller pelos roteiros e desenhos da revista do Demolidor, ali no começo dos 1980, tendo Klaus Janson na função de arte-finalista. Miller leva o herói cego Matt Murdock ao submundo da Cozinha do Inferno, em Nova York, para fazê-lo perceber a realidade da cidade grande, incluindo toda a sujeira das ruas, os sem-teto, o crime organizado. Em alguns momentos, ainda dá pra perceber a ingenuidade da época, principalmente nas primeiras histórias e nos recordatórios que recapitulam eventos anteriores, porém a obra é um marco na noção de que quadrinhos de massa não precisam ser infantis o tempo todo. Já a fase do roteirista Matt Fraction à frente do Gavião-Arqueiro é um mix de referências: cinema policial dos 1970, cultura popular da década passada e design gráfico minimalista – este último encontrado na arte de David Aja. O trabalho, que está na briga direta pelo troféu de melhor HQ de super-herói dos últimos vinte, trinta anos, chega a fazer uma releitura psicodélica de O Perigoso Adeus (filme mencionado mais pra cima), quando Kate Bishop, a Gaviã-Arqueira, abre um escritório de investigação em Los Angeles.

Miller
Aja

Filme indicado: Drive (Nicolas Winding Refn, 2011)
Vazio na parte temática, Drive tem um quê de super-herói, de videogame, graças ao protagonista imparável em busca de seu objetivo. Filme pós-moderninho, se apoia na hiperviolência e no estilo retrô oitentista para contar um fiapo de trama de vingança. Vale assistir, mas melhor mesmo é jogar o game Hotline Miami, o Drive que deu certo.


Experiência estética
Sin City (Frank Miller, Devir); Cidade de Sangue (Márcio Jr. e Julio Shimamoto, MMarte)

Por fim, a última divisão desta brincadeira. Como mencionado lá no começo, o noir sempre se destacou pelo apuro estético. No entanto, fica difícil negar o peso dos enredos para o sucesso de sua fórmula. Por isso, quando ocorre sua reinvenção a partir dos anos 1960, os criadores puderam se preocupar também em narrar sensações a partir das imagens.

E qual quadrinho se encaixa nesse quesito mais do que Sin City? Frank Miller eleva ao extremo o uso do preto e branco: cenários e personagens parecem esculpidos com nanquim, como se eles existissem apenas sob o contraste entre luz e sombra daquelas páginas. A violência e os diálogos carregados estão lá – apenas para servir ao visual. De forma semelhante, o impacto da arte sobre os sentidos do leitor é a proposta de Cidade de Sangue, graphic novel ilustrada pelo veterano mestre brasileiro Julio Shimamoto. A experimentação aqui não é modo de falar, pois o velho Shima chegou a montar ferramentas para desenhar com ferro de solda sobre papel de fax. O resultado são quadros com uma urgência palpável, revelando um mundo em desarranjo, único estilo possível para a pesada história policial escrita por Marcio Jr..

Miller
Shimamoto

Filmes indicados: À Queima-Roupa (John Boorman, 1967); O Samurai (Jean-Pierre Melville, 1967)
Repetição de sons, reflexos infinitos em espelhos, quadros dentro de quadros, cores fortes saltando da tela: À Queima-Roupa é um exercício estilístico bastante único no cinema estadunidense, mesmo levando em consideração a criatividade alcançada na década de 1970. O clássico O Samurai, de Jean-Pierre Melville, na teoria, está dentro de outro subgênero, o polar – um tipo de filme policial francês marcado por protagonistas à margem da sociedade, longas sequências sem fala e cores dessaturadas (isso, claro, quando não era feito em PB). Porém, não deixa de ser filho do noir: o assassino de aluguel Jef Costello, interpretado pelo eterno galã Alain Delon, talvez seja a materialização mais icônica do típico personagem solitário que, invariavelmente, encontrará um destino trágico ao final de sua jornada.

Curta a página de O Quadro e o Risco no Facebook e siga o blog no Instagram!

2 comentários sobre “À beira do abismo: o neo-noir nos quadrinhos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s