Antes tarde do que nunca, como diz a máxima, O Quadro e o Risco comenta algumas das melhores leituras de quadrinhos do ano passado.

Ano difícil pra produzir – basta notar como, sem feiras presenciais, a quantidade de lançamentos independentes diminuiu drasticamente. Não tenho um número pra provar isso, mas a queda é sentida (nos feeds das redes sociais, nos sites das comic shops). Ano difícil também pra comprar e ler, apesar de muita coisa continuar a ser publicada. Nem imagino a dificuldade das editoras para precificarem seus livros, com dólar astronauta, nas alturas, e economia em frangalhos. Que possam, ao lado dos artistas, suportarem este momento – por isso mesmo, se possível, compre diretamente dessas editoras, das pequenas livrarias e das mãos de quem produz gibi.

Desta vez, não faço ranking. Dá trabalho demais, e o arrependimento com posições e obras não citadas vêm logo após a postagem (se quiser uma lista minha, os vencedores do Prêmio Grampo 2021, do qual fui jurado, em breve serão divulgados). Como sempre, deixei passar coisas que parecem fundamentais – entre elas, Buscavidas (editora Comix Zone), de Carlos Trillo e Alberto Breccia; A Alma Que Caiu do Corpo (Veneta), de André Toral; e 1984 (Cia. das Letras), adaptação de Fido Nesti para o clássico de George Orwell. Também não li Berlim (Veneta), de Jason Lutes, forte candidato aos primeiros postos. Mas o recorte que faço a seguir, só com obras inéditas, parece fazer jus a um período em que o mundo prendeu – e infelizmente perdeu – a respiração.

Sabrina

Ok, sem ranking, nem ordem. Só que seria injusto não mencionar Sabrina (Veneta) como o melhor gibi de 2020. O americano Nick Drnaso mescla longos silêncios com intensa verborragia para fazer um dos retratos mais acurados da sociedade contemporânea – e que continuará valendo por muito tempo, aparentemente. A paranoia da internet colidindo com a paranoia da vida real, enquanto vidas são atropeladas no caminho. Tornou-se a primeira HQ a ser indicada ao Man Booker Prize, um dos mais importantes prêmios da literatura de língua inglesa. Não por menos: nunca desenhos que mais parecem bonequinhos de montar ou avatares de The Sims tiveram tanto a dizer. Quem fala bastante é Adrian Tomine em A Solidão de um Quadrinho Sem Fim (Nemo), livro de causos vivenciados por ele mesmo ao longo de três décadas no mercado de quadrinhos. Tomine já tinha escrito comédia antes, como as memórias nupciais Scenes From an Impending Marriage, mas aqui alcança outro nível, com um humor escrachado e agridoce ao mesmo tempo. Não há nenhuma sequência cuja piada soe forçada – algo notável, vide que a maioria da graça vem do abundante texto, não do desenho. A parte final traz ainda uma reflexão sobre a validade da busca por um sonho de infância.

A Gangue da Margem Esquerda

Por falar em histórias pra rir, teve Sob o Céu de Trancoso, de Bruna Maia, mais conhecida nas redes sociais como estarmorta. Uma coletânea com algumas de suas tiras online saiu pela Cia. das Letras, embora o destaque da artista no ano tenha sido essa “graphic soap opera“, como ela mesma definiu, em três postagens (aqui as partes 1, 2 e 3). Plot de uma boa novela das 9, envolvendo planos conspiratórios sobre inseminação artificial, feito para avacalhar ricaços e alpinistas sociais. A Gangue da Margem Esquerda (Mino), do Jason, também garante boas risadas, daquele jeito melancólico característico desse mestre norueguês. É uma espécie de adaptação do filme O Grande Golpe, de Stanley Kubrick, usando Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound e James Joyce, desenhados como animais, em plena Paris fervilhante de cultura dos anos 1920. Quadrinistas falidos, os quatro planejam um roubo pra tentar melhorar a vida miserável que levam. A estrutura é fragmentada, igual à do longa-metragem, com idas e vindas no tempo para contar diferentes pontos de vista. Juscelino Neco e seu Reanimator (Veneta) optam por fazer graça pelo absurdo: pegam a ideia geral do clássico conto homônimo de H.P. Lovecraft, a respeito de um soro para reanimar cadáveres, e a transforma em exploitation, com vísceras e fluídos corporais diversos pelas páginas. O final leva a cabo o que o renomado escritor nunca teve coragem de escrever – acabar com o mundo numa suruba interdimensional.

Laura Dean Vive Terminando Comigo

Mau Caminho (Veneta), primeiro livro em português do fenômeno australiano que surgiu na internet Simon Hanselmann, é outro a apostar na bizarrice e escatologia. A rotina de quatro amigos junkies conta com momentos hilários de comédia física e trocadilhos sexuais, no entanto sabe ir fundo na crônica de uma geração de jovens depressiva, trabalhando em subempregos, sem perspectiva de futuro. Degenerado (Nemo), de Chloé Cruchaudet, poderia facilmente seguir pelo sensacionalismo ao adaptar uma história real sobre um casal francês cujo homem, depois de desertar do exército na Primeira Guerra Mundial, precisa se travestir, com a ajuda da mulher, para fugir da prisão. Contudo, a autora opta pela psicologia e por imagens de pesadelo para tratar das consequências da guerra no indivíduo e analisar as convenções sociais dos gêneros masculino e feminino. Laura Dean Vive Terminando Comigo (Intrínseca), com roteiro de Mariko Tamaki e arte de Rosemary Valero-O’Connell, é outro trabalho a quebrar convenções, pois relata diferentes tipos de relações LGBT, até mesmo um namoro abusivo, como o vivido pela protagonista Freddy com a Laura do título. Tamaki talvez seja a melhor escritora sobre juventude das HQs modernas: sabe dar voz às inquietações de seus personagens sem cair na breguice – e a arte de Valero-O’Connell deixa tudo ainda mais fluido, principalmente quando se liberta dos requadros. Não foi à toa esse gibi ter vencido trocentos prêmios. Sutileza é igualmente uma das maiores características de Aprendendo a Cair (Nemo), do alemão Mikael Ross, mais um gibi que poderia cair na pieguice num estalar de dedos, não fosse a capacidade de seu criador. Ross conviveu por dois anos com os moradores de Neuerkerode, uma vilã na Alemanha onde vivem pessoas com algum tipo de deficiência intelectual, para contar pequenas histórias inspiradas no que viu por lá. Não me lembro de outra obra sobre o tema (em qualquer mídia) ser narrada sob o ponto de vista das próprias pessoas com deficiência. Acerto magistral do artista, cuja capacidade de iluminar as cenas usando lápis de cor impressiona. Por falar em enredos intimistas, vale citar Pecora (Veneta), de Marcelo Bicalho, fábula que passou ao largo de vários leitores, embora seja uma pequena gema de arte expressionista. Sem texto, mostra os sonhos intranquilos de uma ovelha envolvendo seu pastor, mergulhados na simbologia cristã da culpa e salvação.

Carniça e a Blindagem Mística

E já que citei mais um gibi nacional, tá na hora de comentar o melhor de 2020: Carniça e a Blindagem Mística – Parte 1: É Bonito o Meu Punhal, de Shiko. No começo do álbum, recortes de jornais antigos relembram casos de morte e tortura do Brasil profundo da época do cangaço. O paraibano, então, costura fato e ficção a partir disso, revelando as crenças desse período que ainda ecoa na história do País, atualmente comandado por milícias e gangues de uma forma semelhante à de um século atrás. Shiko em aquarela, com cores vivas, é tão ou mais impactante que o em preto e branco. Como o nome aponta, é o começo de uma saga ainda sem fim ou tamanho definidos. Terceiro volume coletando as histórias do vilarejo mexicano mais famoso dos quadrinhos, Além de Palomar (Veneta), de Gilbert Hernandez, reúne duas longas histórias: Rio Veneno e Love and Rockets X. A primeira é uma complexa trama que mistura conspirações do governo, racismo e mafiosos, e se passa ao longo de décadas. Assemelha-se muito a O Poderoso Chefão – Parte II, tanto em escopo como no uso de pano de fundo histórico e desenvolvimento de personagens, mas também por revelar o passado de um icônico protagonista (Luba, no gibi; Vito Corleone, no filme). Gilbert confia no leitor: faz elipses primorosas e escreve diálogos com muito mais informação do que se percebe à primeira vista. A sul-coreana Keum Suk Gendry-Kim também se utiliza de alusões em Grama (Pipoca & Nanquim) para desenhar as memórias de uma mulher mantida como escrava sexual pelo exército japonês durante a Segunda Guerra Mundial. A autora traz humanidade a uma realidade barra pesada, das mais absurdas num século cheio de atos absurdos. Sequências calmas, formadas por pinturas impressionistas em nanquim de paisagens naturais, reforçam como a vida segue mesmo em meio à barbárie. Tetris (Mino), de Box Brown, reconta a criação de um dos games mais jogados em todos os tempos. Feito por cientistas soviéticos enquanto trabalhavam para o governo comunista nos anos 1980, o Tetris teve sucesso estrondoso em todo mundo, além de implicações políticas diversas. Esses bastidores são deliciosos, mas o destaque fica para as partes do livro nas quais o artista volta até a antiguidade para recordar a relevância social e cultural dos jogos de tabuleiro pra humanidade.

Grama

Para não dizerem que ignoro super-heróis, cito as duas minisséries do X-Men escritas por Jonathan Hickman – que na verdade são uma coisa só –, Dinastia X e Potências de X (Panini). Não sou o maior conhecedor da equipe, e isso nem faz falta: o roteirista a coloca num contexto de hard sci fi, em meio a intrincados termos científicos e linhas temporais, dispensando um entendimento aprofundado de personagens e cronologia. E fechando a lista-que-não-é-lista, Meta – Depto. de Crimes Metalinguísticos (Zarabatana), com roteiro de Marcelo Saravá, arte de André Freitas e cores de Omar Viñole. Uma das mais interessantes obras nacionais a imitarem um formato mainstream autoral norte-americano, como o encontrado na Image Comics, o gibi é uma narrativa seriada a respeito de um birô de investigação de casos ocorridos dentro de universos ficcionais. A brincadeira com metalinguagem e o ato de criar histórias em quadrinhos pode não ser o argumento mais original, porém a condução é precisa, com humor, mistério e ação bem utilizados quando necessários. O projeto não se limita a ser uma cópia de trabalhos estrangeiros: as diversas referências a HQs, autores nacionais e a realidade brasileira ajudam a dar identidade ao material.

Que em 2021 tenhamos mais gibis, vacinas e um presidente de verdade.

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