Na lista “quadrinistas contemporâneos brilhantes sem publicação no Brasil”, o nome Noah Van Sciver precisa ficar entre os do topo. O americano, natural de Nova Jersey, já conta com uma bibliografia bastante encorpada para quem tem apenas 36 anos de idade: por volta de meia dúzia de graphic novels, coletâneas de histórias curtas e uma obra de fôlego que pode ser cravada como uma daquelas a se tornarem clássicas, Fante Bukowski.

E olha que esse gibi nem parece feito por ele. O autor geralmente trata das dificuldades do cotidiano de seus personagens, um sentimento de melancolia rondando suas decisões – é assim com Saint Cole e One Dirty Tree (este, uma autobiografia, mostra sua infância em meio à família mórmon). Também gosta de dramatizar a vida de figuras históricas, como em The Hypo: The Melancholic Young Lincoln, seu quadrinho de estreia, sobre a juventude depressiva de Abraham Lincoln, e Eugene V. Debs: A Graphic Biography, a respeito de um importante socialista americano.

Em Fante, Sciver envereda pelos caminhos da comédia. E não uma comédia refinada ou algo do tipo. Pelo contrário: faz humor pra rir alto, usando gags físicas, diálogos absurdos e situações embaraçosas. O protagonista dá nome à obra, e é uma figura e tanto: adota o sobrenome do poeta Charles Bukowski e a bandana de David Foster Wallace e acha que isso basta para se tornar um escritor renomado. Seu sonho é viver da fama literária que em breve (ele acredita) vai chegar. É uma pena, portanto, não ter habilidade alguma pra fazer literatura, ser um pentelho com pessoas já estabelecidas no ramo e levar a vida como o típico artista incompreendido®.

Os clichês da vida em meio à arte (solidão, bebedeiras etc.) estão todos aqui, mas não de forma pejorativa. Talvez pelo fato de contar com personagens verossímeis, os quais fazem besteira acreditando fazer o bem, e ao mesmo tempo adoráveis, mesmo com alguns sendo aquela pessoa de quem você se esconde em uma festa. As expressões usadas por Sciver para desenhá-los ajuda na tarefa de se apegar a eles – estão quase sempre de olhos arregalados, suando, com sorrisos sem graça, olhando para os lados tentando encontrar uma saída de alguma confusão.

Mas, apesar do humor, há tempo para reflexões sobre as dificuldades de entender os próprios pais, os obstáculos do trabalho artístico independente, as amizades nascidas em momentos complexos da vida. O gibi nunca fica grave ou pesado demais: a presença desses temas somente o deixa ainda mais humano.

Em março deste ano, a Fantagraphics compilou as três partes da HQ (lançadas em 2015, 2017 e 2018) em um livrão lindo, o The Complete Works of Fante Bukowski. Acho que é a porta de entrada perfeita para a força criativa de Sciver. Pra entender mais a obra, conversei com o autor recentemente por e-mail. O bate-papo segue abaixo.

Capa de The Complete Works of Fante Bukowski, publicado pela Fantagraphics

Noah, considerando suas HQs anteriores, é fácil para um leitor te considerar um “escritor sério”. Por isso mesmo, gostaria de saber como foi o processo de fazer comédia. Pelo fato de nunca ter feito um trabalho desse tipo antes, é interessante perceber seu ótimo timing pra humor. Claro que existem piadas melhores que outras, mas não lembro de encontrar alguma com pouca inspiração ou efetivamente sem graça. Como você alcançou isso?

Eu não sei exatamente como responder, porque escrever comédia pode ser bem difícil e muitas vezes, pra mim pelo menos, depende das coisas pelas quais estou passando na vida naquele momento. Por exemplo, na época em que fazia Fante, eu trabalhava num Panera Bread (uma rede de restaurantes especializada em café-da-manhã) e estava pobre e depressivo. Então, usei o humor pra me ajudar a lidar com o que achava que era um beco sem saída. Na verdade, eu estava apenas na condição mental exata quando desenhei o livro. Não tenho certeza se hoje conseguiria escrever da forma engraçada daqueles dias, agora que as coisas se iluminaram.

Você faz graça de um tipo específico de artista: aquele que usa maneirismos de autores do passado pra construir a própria persona. Tem bastante estereótipo (na forma de sátira, claro), mas também muita observação da realidade, pois dá pra encontrar esse comportamento em vários lugares (até na cena de gibis brasileira…). Por que contar uma história sobre isso?

Pra ser honesto com você, porque é moleza. Todo mundo parece conhecer pessoas como o Fante Bukowski na vida real. Eu acho que o desejo de escrever piadas sobre personagens depressivos que você encontra por aí foi mais importante que o personagem retratado em si, ou mesmo o porta-voz da comédia.

O Fante se parece com você de alguma forma?

Oh, sim, acho que ele é, na maioria das vezes, sobre mim, mas também sobre muitas pessoas com quem eu tive de lidar nesse mundo de produção independente.

Por qual motivo você acha que existe esse tipo de comportamento?

Eu acredito que é preciso algum nível de autoengano pra perseguir uma vida artística. 

Falando a respeito dos tempos difíceis que viveu, como isso te ajudou a desenvolver seu estilo e sua visão de mundo?

Eu consigo rir da maioria das coisas que outros acham terrível. Por ter crescido em uma família pobre, passado fome e lidado com constrangimento desde a infância, desenvolvi um senso de humor bem pesado e trágico. Várias piadas que escrevo são a respeito de pessoas sendo desagradáveis, ruins e assustadoras. Acho que isso pode ser um reflexo da minha própria vida e do que eu penso sobre mim às vezes…

É por isso que você se inseriu na história, como namorado de um interesse romântico do protagonista? Tem alguma razão específica pra você estar lá ou é apenas pra gerar risadas?

É pela comédia. Eu precisava de alguém que gerasse mais antipatia aos leitores que o Fante – e ainda para pararem de assumir que eu sou o Fante (mesmo se isso for um pouco verdade).

Você testava a eficiência das piadas? Como sabia se eram realmente engraçadas?

Normalmente, se uma página é engraçada pra mim, se eu me surpreendo por algo que escrevi ou desenhei, os leitores acabam gostando daquilo também. Porém, às vezes peço pra minha namorada ler algo que eu ache interessante, só pra garantir.

Fante acaba indo pra Ohio em busca da chance de alcançar a fama. Você também viveu lá, certo? O que tem de tão especial nesse lugar, vide que vários renomados cartunistas independentes, como Harvey Pekar e Derf Backderf, nasceram ali?

Ohio, por alguma estranha razão, é um estado que gerou inúmeros cartunistas. Não tenho certeza do porquê, mas é verdade! Eu me mudei pra lá pois tinha alguns amigos na região, e pelo fato de ser mais barato para se viver. Só então comecei a notar o quão rica é a história dos quadrinho dali, até rivalizando com Nova York e Chicago em relação à quantidade de artistas famosos. Deve ser algo na água (risos).

Um elemento interessante em seu trabalho são as páginas inteiras que mostram paisagens diversas, como florestas, cidades ou ruas, as quais você coloca entre capítulos ou para separar cenas. Pra mim, funcionam como pequenos interlúdios da história. Qual o motivo dessas páginas existirem?

Gostei que comentou isso. Eu apenas precisava de algumas páginas pra desacelerar a história e ajudar no seu ritmo. Mas se tornaram minhas favoritas de desenhar!

Fica bem claro que a jornada dos personagens acabou. É isso mesmo? Você pensa em retornar a eles em algum momento no futuro?

Nunca diga nunca, mas não tenho nenhuma intenção de voltar a personagens antigos.

Em relação à edição que compila os três álbuns, adoro como ela imita a aparência da coleção Library of America, voltada à publicação de clássicos da literatura. Até nisso a HQ tira sarro do “glamour” presente na arte. De quem foi a ideia?

Eu não poderia levar crédito a respeito do design do livro. Trabalho com uma designer particular na Fantagraphics, chamada Keeli McCarthy, e eu somente entrego as histórias pra ela e daí saem as edições. Fiz com ela a maioria das minhas graphic novels até agora. Para a compilação de Fante, Keeli estava tentando recriar o tipo de livro de prestígio no qual o personagem sonharia em aparecer.

E como é sua relação com a Fantagraphics?

É muito boa. Nós trabalhamos bem juntos, tenho orgulho de ser um artista da casa e de fazer parte desse celeiro de incríveis quadrinistas.

Pra finalizar, uma curiosidade: o que você conhece do quadrinho brasileiro?

Não conheço muita coisa da cena de vocês. Nunca estive aí e, até onde sei, meus livros não estão disponíveis no país também. Tenho familiaridade com Laerte Coutinho, Mauricio de Sousa. Esses são os que vêm à minha cabeça.

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6 comentários sobre ““Eu acredito que é preciso algum nível de autoengano pra perseguir uma vida artística” – entrevista com Noah Van Sciver sobre “Fante Bukowski”

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