Ilustração: Filipe Lima

Em 2018, a Vulture reuniu alguns especialistas para elencar as cem páginas mais influentes do quadrinho norte-americano na história. A lista está organizada de forma cronológica, saindo de 1929, com um dos pioneiros do formato graphic novel, Lynd Ward, e chegando a 2014, com Noelle Stevenson e suas Lumberjanes.

Recomendo a leitura do artigo inteiro (sim, é beeeeem longo), pois traz um panorama histórico/cultural bem amplo das HQs publicadas nos Estados Unidos ao longo do século 20 e começo do 21 – apesar de não terem incluído tiras na brincadeira. Você vai encontrar Luluzinha, Jack Cole, O Perfeito Estranho, Trina Robbins, Zap Comix, Frank Miller, X-Men, Aqui, Will Eisner, Ghost World, The Walking Dead, Superduperman, Julie Doucet, Cerebus, Alan Moore, Binky Brown Meets the Holy Virgin Mary, Fun Home, Jack Kirby, Scott Pilgrim, Carl Barks… Um deleite pra quem gosta de gibis.

Quando trombei com esse texto, fiquei pensando se isso se aplicaria ao Brasil. Uma página (ou, ampliando mais o conceito, uma sequência) pode se tornar relevante por vários motivos: uso da linguagem, estética, temas abordados, capacidade de criar um novo estilo de contar histórias que será copiado por outros artistas, aparição de personagens historicamente relevantes. São mais ou menos esses os conceitos da lista da Vulture.

E é isso que quero trazer para a discussão: é possível indicar as páginas nacionais mais influentes? Ou (acho que isto cabe melhor) as mais interessantes do ponto de vista artístico e narrativo, que levam o quadrinho brasileiro para a frente? Na minha visão, o gibi feito em nosso país sente falta desses momentos catárticos, em que o leitor, tomado por várias emoções, pensa: “o que eu acabei de ler?”. Talvez seja pelo fato de nossa produção ter adquirido maior volume e alcance apenas nos últimos vinte, trinta anos?

É muito mais fácil se lembrar de exemplos estrangeiros, principalmente de super-heróis – basta ver listas feitas em sites, podcasts e discussões na internet sobre o assunto. Pode ser que o caráter seriado de materiais mainstream, ou até mesmo independentes, de fora do Brasil ajude na necessidade de se criar momentos de forte apelo visual, com o objetivo de trazer o leitor para a próxima edição.

Enfim, estou jogando ideias aqui, já que me parece um tema interessante para análise. Abaixo, listo alguns desses momentos inesquecíveis/de valor histórico do gibi BR. Apesar da crítica que fiz, temos vários exemplos. E, o melhor, são tão impressionantes como aqueles citados pela Vulture. Importante ressaltar que eu também não considerei tiras pra este exercício.

Mas me diga: quais são as páginas mais importantes da HQ nacional pra você?


 

As Aventuras de Nhô-Quim (1869)

Roteiro e arte de Ângelo Agostini

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Considerada a primeira HQ brasileira da história, As Aventuras de Nhô-Quim é um híbrido de tira e história fechada. Isso porque cada capítulo, de duas páginas cada, era publicado semanalmente na revista Vida Fluminense. No entanto, todos contavam uma única e longa trama. Agostini desenhou os nove primeiros capítulos, enquanto os cinco restantes ficaram a cargo do ilustrador Cândido A. de Faria. Acima, o início das confusões do caipira (que dá nome ao título) na cidade grande – e o início dessa mídia aqui no Brasil.


 

Mirza, a Mulher Vampiro (1967)

Roteiro de Luis Quevedo, Luis Merí, Oswaldo Talo e Eugênio Colonnese; arte de Eugênio Colonnese

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Quando se fala no gênero do horror nas HQs nacionais, o ítalo-brasileiro Eugênio Colonnese é parada obrigatória. Desenhista de mão cheia – ele antecipa o estilo gótico de gente como Bernie Wrightson e Esteban Maroto –, também criava personagens memoráveis, como Mirza, a Mulher Vampiro (anos antes do surgimento de Vampirella) e o Morto do Pântano (anos antes do surgimento do Monstro do Pântano). Apesar de explorar a sensualidade de Mirza, suas histórias não tinham o machismo como elemento prioritário: ela sempre era mais inteligente que os homens que a ameaçavam, dominando-os como bem entendesse.


 

Mônica e Sua Turma #1 (1970)

Roteiro e arte de Maurício de Sousa e Waldyr Igayara de Souza

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A edição de estreia da revista da Turma da Mônica (cujos personagens estrelavam tiras desde o começo dos anos 1960) é um marco do quadrinho industrial nacional: seus protagonistas viraram símbolo de nossa cultura, tornando-se uma máquina de dinheiro para a Maurício de Sousa Produções. O primeiro número da publicação contém diversos enredos clássicos que seriam reutilizados à exaustão, como as tentativas de dar banho no Cascão e os planos infalíveis para derrotar Mônica. Claro, não podia faltar a icônica cena dela dando sopapos no Cebolinha, momento lido em diferentes formatos por gerações de leitores ao longo das décadas.


 

Zé Carioca #1099 (1972)

Roteiro de Ivan Saidenberg; arte de Renato Canini

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Gibis da Disney têm um peso histórico enorme por aqui. Além de vários artistas nacionais terem produzido material inédito por décadas a fio, ainda inseriam características da cultura nacional para os leitores se identificarem. O maior exemplo é Zé Carioca: criado em 1942, parecia ser um elemento à parte do Rio de Janeiro em suas revistas, ainda mais vestindo terno e gravata. Foi com a entrada de Saidenberg e Canini que o papagaio ganhou camiseta, foi morar num barraco e se tornou representante genuíno da essência carioca.


 

Zodiako (1975)

Roteiro e arte de Jayme Cortez

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Uma saga sobre signos e deuses, cheia de alegoria política sobre a ditadura militar no Brasil e o regime brutal de António Salazar em Portugal. Criada pelo luso-brasileiro Jayme Cortez, a HQ alia desenvolvimento de personagem (o herói que dá nome à obra) e inovação estética, com páginas muitas vezes sem requadros. Um marco da fantasia adulta em nossos quadrinhos.


 

A Guerra do Reino Divino (1976)

Roteiro e arte de Jô Oliveira

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Jô Oliveira teve grande reconhecimento estrangeiro, com trabalhos publicados na Argentina, França e Itália. Por isso, estranho perceber que não seja muito lembrado como um artista relevante em nosso país. A Guerra do Reino Divino compila três histórias, publicadas na década de 1970, que falam a respeito do imaginário do povo nordestino, incluindo personagens como Dom Sebastião e Lampião. A obra pode ser eleita como a “primeira graphic novel” brasileira, já que os enredos, de teor adulto, compartilham temas e abordagens.


 

Paralela I (1978)

Roteiro e arte de Watson Portela

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Watson Portela talvez seja o artista brasileiro mais próximo do quadrinho europeu de ficção científica feito nas décadas de 1960/70. Sua série Paralelas, publicada inicialmente na lendária revista de terror Spektro, bebe muito do traço de Moebius e das temáticas existenciais de Philippe Druillet, ao mesmo tempo que incorpora símbolos tipicamente nossos, como cangaceiros. A página final de Paralela I permanece algo inimitável, mesmo hoje, em relação à composição visual.


 

O Ditador Frankenstein (1982)

Roteiro de Luiz Antonio Aguiar; arte de Julio Shimamoto

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O mestre da arte Julio Shimamoto tem uma carreira prolífica nos gibis policiais, de samurai e de artes marciais. Porém, o trabalho no gênero do terror talvez seja o mais lembrado pelo público. Dentre as inúmeras histórias desse tipo que desenhou, vale citar O Ditador Frankenstein, feita no fim da ditadura, mas, mesmo assim, crítica aos métodos desumanos usados pelos militares contra opositores do regime. Os traços expressionistas de Shima brilham como nunca aqui.


 

Tubarões Voadores (1984)

Roteiro e arte de Luiz Gê

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O fim da ditadura também está nesta história, visto a partir da paranoia da classe média, amedrontada por tubarões voadores assassinos. Esta criação de Luiz Gê foi encartada junto com o disco homônimo de Arrigo Barnabé, que servia como trilha sonora do gibi. Exemplo de como os quadrinhos brasileiros quebram as barreiras da linguagem há décadas.


 

A Insustentável Leveza do Ser (1987)

Roteiro e arte de Laerte

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A vida do garoto Renato começa a desabar quando o pai revela ser, na verdade, a tia Zuzú. Considerada por muitos a obra-prima de Laerte, A Insustentável Leveza do Ser comenta a hipocrisia de uma sociedade que esconde seus desejos e vontades, sua realidade, por trás de máscaras. Embora o assunto seja pesado, a artista usa um humor físico hilário para abordá-lo.


 

Transubstanciação (1991)

Roteiro e arte de Lourenço Mutarelli

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O protagonista Tiago num inferno à la Hieronymus Bosch é a conclusão óbvia da jornada de um homem perturbado demais pra ser considerado “normal”. Mutarelli desenha como nenhum outro artista no mundo: um traço tão visceral e urgente que dá até medo. Este trabalho é verdadeiro paradigma, pois dá o pontapé inicial para a criação de uma cultura brasileira de álbuns com histórias fechadas. Transubstanciação provou também que HQs podiam ser feitas para exorcizar os demônios pessoais dos autores nacionais.


 

Avenida Paulista (1991)

Roteiro e arte de Luiz Gê

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Publicada originalmente com o nome Fragmentos Completos, Avenida Paulista ganhou uma reedição expandida em 2012. A obra conta o desenvolvimento de São Paulo, a maior metrópole do País, a partir de sua mais famosa avenida. Ao misturar relato histórico com surrealismo, Gê faz uma reflexão política a respeito de temas como planejamento urbano e civilidade. Nesta página cheia de melancolia, os antigos casarões pairam como fantasmas em meio aos arranha-céus e estacionamentos.


 

O Vira-Lata (1993)

Roteiro de Paulo Garfunkel; arte de Libero Malavoglia

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O personagem que dá título a esta série surgiu em 1991, na revista Grandes Aventuras Animal, mas entrou mesmo para a história a partir de 1993, quando suas aventuras de ação, cheias de erotismo, passaram a servir como ferramenta educacional no presídio do Carandiru, em São Paulo. O médico Drauzio Varella se tornou supervisor da publicação, que incluía em seus roteiros a conscientização sobre a Aids: sequências de sexo mostravam o uso de camisinha, além de os enredos desincentivarem drogas injetáveis.


 

Desgraçados (1993)

Roteiro e arte de Lourenço Mutarelli

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A segunda graphic novel de Mutarelli vai ainda mais fundo no mergulho na mente do(s) protagonista(s). A degradação humana nunca esteve tão bem representada como aqui. Ao final, quando Jesus fica frente a frente com seu duplo, o quadrinho brasileiro entrava em um psicologismo sem volta.


 

Adeus, Chamigo Brasileiro – Uma História da Guerra do Paraguai (1999)

Roteiro e arte de André Toral

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O trabalho de André Toral de resgatar a história do Brasil por meio dos quadrinhos não tem paralelo em nossa cena artística – talvez nem mesmo no mundo. Adeus, Chamigo Brasileiro recorda a Guerra do Paraguai, um dos episódios mais baixos da nação, no qual ajudamos a massacrar mais de 150 mil nativos daquele país. O enredo segue dois baianos, um carioca e um paraguaio (mostrado acima) pelas frentes de batalha para tentar entender as motivações e a rotina do conflito.


 

O Dobro de Cinco (1999)

Roteiro e arte de Lourenço Mutarelli

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Possivelmente o maior clássico do gibi BR, a “trilogia em quatro partes” sobre o detetive Diomedes começa neste álbum. Se Mutarelli já tinha revolucionado o mercado no início daquela década, ao final dela resolve mudar mais uma vez o cenário da produção: usa um gênero desgastado (no caso, o policial) para desenvolver personagens carismáticos em uma HQ de fôlego. Esta página é exemplar por vários motivos. Tem a indicação de trilha sonora no primeiro quadro, a fluidez das ações que dispensam texto e o icônico close em Diomedes apontando o revólver.


 

Frauzio #1 (2001)

Roteiro e arte de Francisco Marcatti

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Marcatti já era um mestre do quadrinho underground, cheio de escatologia e humor negro, desde os anos 1980, graças a clássicos como Lauro, a Larva, A Cura da Aids e Aníbal, o Pica Doce. Mas somente em 2001 ele lança o personagem que seria o maior símbolo de sua carreira: o onanista tarado por mulheres Frauzio. Acima, a primeira aparição do jovem avesso à higiene pessoal.


 

Estórias Gerais (2001)

Roteiro de Wellington Srbek; arte de Flavio Colin

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Em Estórias Gerais, o relato oral do sertanejo importa mais que a veracidade dos fatos, como bem percebe o jornalista protagonista da trama quando fica frente a frente com Antonio Mortalma, líder do grupo de bandoleiros que aterroriza as redondezas. Em muitas situações, como esta, vale mesmo acreditar na sabedoria do interlocutor – ao invés de conferir com os próprios olhos. Este é o trabalho mais conhecido do mestre Flavio Colin.


 

Amana ao Deus Dará (2004)

Roteiro e arte de Edna Lopes

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Provavelmente a primeira graphic novel feita inteiramente por uma autora mulher e publicada por editora em nosso país, Amana ao Deus Dará se inspira no livro Meninas da Noite, do jornalista Gilberto Dimenstein, que mostra casos de prostituição e tráfico infantil nas regiões Norte e Nordeste. A HQ adianta em vários anos a discussão tão presente no quadrinho autoral atual a respeito da resistência à cultura machista e à violência física/psicológica contra mulheres.


 

Esfinge (2007)

Roteiro e arte de Laerte

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Todo o tema de Esfinge está confinado na abertura da história, um exercício de concisão impressionante: a rotina de trabalho, a baixa perspectiva de mudança do homem médio, a falta de proximidade com a família. Então, os últimos quadros trazem um mistério irresistível, que implora pro leitor virar a página. Laerte no auge de seu papel como analista da vida moderna é imbatível.


 

Mesmo Delivery (2008)

Roteiro e arte de Rafael Grampá

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A discussão sobre a falta de substância do roteiro de Mesmo Delivery vem desde quando o gibi foi lançado. No entanto, não dá pra negar a virtuosidade visual da obra, que serviu para influenciar inúmeros aspirantes a quadrinistas desde então. A decapitação vista por dentro da cabeça do decapitado continua um espetáculo para os olhos, mais de uma década depois de sua publicação.


 

Sábado dos Meus Amores (2009)

Roteiro e arte de Marcello Quintanilha

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“Eu já falei pra você. Presta atenção: falar na hora do pênalti dá azar…”. O começo de De Como Djalma Branco Perdeu o Amigo em Dia de Jogo, segunda história desta coletânea, resume a habilidade de Quintanilha para contar momentos da vida de pessoas comuns em meio a observações sobre as características do povo brasileiro – ele é dos grandes cronistas que o País já viu. Edgard sendo atropelado enquanto buscava uma cerveja pra colocar na geladeira (pois “sem isso, o Flamengo não ganha”) resume a nossa superstição, as nossas idiossincrasias.


 

Morro de Favela (2011)

Roteiro e arte de André Diniz

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A vida na favela carioca sob o ponto de vista do fotógrafo Maurício Hora, segundo o traço inimitável de André Diniz. A cena acima revela a perseguição implacável da polícia e da sociedade quando se é negro e morador do morro. Quadrinho muito relevante do ponto de vista social, deu visibilidade a uma rotina pouco conhecida pela maioria dos brasileiros. Diniz voltaria a abordar o tema anos depois.


 

O Beijo Adolescente (2011)

Roteiro e arte de Rafael Coutinho

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O começo da década de 2010 viu um crescimento local nos quadrinhos publicados na internet. Uma das principais iniciativas do tipo foi o espaço exclusivo para HQs autorais criado pelo portal iG. O Beijo Adolescente, de Rafael Coutinho, era um dos principais carros-chefes do projeto – seu enredo de mistério envolve jovens, assassinatos e a descoberta dos segredos da vida adulta.


 

Adormecida: Cem Anos Para Sempre (2012)

Roteiro e arte de Paula Mastroberti

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Apesar de, como já vimos, este gibi de Paula Mastroberti não ter sido a primeira graphic novel feita por mulher a ser publicada por editora, foi ele o responsável por abrir os olhos do mercado editorial para o trabalho de autoras. Após sua publicação, outras quadrinistas ganharam a oportunidade de terem livros lançados com maior alcance comercial e de público. A história é uma reinvenção da fábula da Bela Adormecida no estilo Heavy Metal/Métal Hurlant.


 

Garota Siririca (2013)

Roteiro e arte de Lovelove6

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Fenômeno da HQ independente brasileira, Garota Siririca teve seguidas tiragens esgotadas. Porém, também começou sendo publicada na internet. Lovelove6 usa um tabu supremo, a masturbação feminina, como mote para falar sobre as diversas formas de sexualidade sob o ponto de vista das mulheres. Destaque para o uso das cores, que ajuda a pontuar objetos e momentos revelantes do enredo.


 

Tungstênio (2014)

Roteiro e arte de Marcello Quintanilha

tungstênio

Os poucos instantes de um fechar de porta levam ao início de um longo flashback que muda a vida dos personagens de Tungstênio, um dos quadrinhos brasileiros mais cultuados dos últimos anos, vencedor de prêmios e transformado em filme. Exemplo de como a modulação do tempo pode aprofundar as questões apresentadas pelo roteiro.


 

Bulldogma (2016)

Roteiro e arte de Wagner Willian

bulldogma

O primeiro gibi de fôlego do artista plástico e escritor Wagner Willian retrata justamente a vida de muito quadrinista: trampos freelance, brigas com clientes, solteirice regada a festas. A protagonista Deisy Mantovani representa o típico jovem paulistano com seus vinte e poucos anos de idade – até que ela se vê mergulhada em teorias da conspiração, abduções alienígenas e aparições de entidades bizarras. Pegando emprestado elementos de outras mídias, como o design e o videogame, Bulldogma trouxe um sopro de originalidade à linguagem das HQs.


 

Turma da Mônica Jovem #94 (2016)

Roteiro de Petra Leão e Marcelo Cassaro; arte de José Aparecido Cavalcante, Lino Paes e Roberto Martins

Turma da Monica jovem 94

Turma da Mônica Jovem foi (e ainda é) um fenômeno do mercado editorial recente, com alguns números da série vendendo centenas de milhares de exemplares. Um momento icônico do título é a edição #34, na qual Mônica e Cebolinha se beijam pela primeira vez. Mas nesta lista entra a página acima, responsável por gerar enorme polêmica. O “meu corpo, minhas regras!” dito por Mônica, enquanto decidia se colocava aparelho ortodôntico, foi encarado por alguns desequilibrados como apologia ao aborto, gerando ameaças à roteirista Petra Leão. Na verdade, a mensagem era simples: ensinar a inúmeras meninas que outras pessoas, ou mesmo a sociedade, não devem exercer pressões (principalmente de cunho estético) sobre suas identidades.


 

Know-Haole #4 (2016)

Roteiro e arte de Diego Gerlach

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Este é o melhor comentário a respeito do caos político-social em que o Brasil mergulhou em 2013 e ainda teima em não sair. A história desta quarta edição da série de zines de Gerlach se chama Eduardo Cunha é o Bandido da Luz Vermelha – possivelmente um dos nomes mais insanos de uma obra artística no mundo. Dúzias de teorias da conspiração rondam a cabeça do protagonista, incluindo cutelarias da Letônia, envenenamento em massa e um governo plutocrata dominando a nação. Engraçado e assustador, parece um pesadelo surreal palpável, uma versão tupiniquim de Como uma Luva de Veludo Moldada em Ferro (do Daniel Clowes).


 

Sem Dó (2017)

Roteiro e arte de Luli Penna

semdó

A estreia da ilustradora Luli Penna nas HQs busca na São Paulo dos anos 1920 a inspiração para contar uma história de amor proibido. A artista aposta no plano detalhe – aquele close extremo, com o objetivo de mostrar de perto certos aspectos de objetos e pessoas – como elemento narrativo mais importante, fazendo um interessante jogo entre larga escala (a metrópole em pleno desenvolvimento) e intimidade (os sentimentos escondidos dos personagens). Muitas vezes, nem é preciso ver quem está desenhado: chapéus, roupas e utensílios diversos ajudam a distinguir as pessoas.


 

Angola Janga – Uma História de Palmares (2017)

Roteiro e arte de Marcelo D’Salete

Angola Janga-o quadro e o risco

Apesar de Angola Janga descrever um evento histórico (a jornada de escravos no Quilombo de Palmares ao longo de décadas), é um momento onírico (o sonho da jovem personagem Dara) uma das maiores surpresas da obra: ela se vê num beco de periferia em alguma cidade atual, entendendo que a luta da comunidade negra segue tão árdua como no século 17. Gibi multipremiado e publicado em diversas línguas, Angola Janga confirma a capacidade de D’Salete de narrar com pouco texto, elipses perfeitas e imagens cheias de simbologia.


 

Jeremias – Pele (2018)

Roteiro de Rafael Calça; arte de Jefferson Costa

jeremias

Poucas splash pages nacionais têm o impacto desse “O que você vê?”, presente em Jeremias – Pele. Um dos poucos personagens negros do universo de Maurício de Sousa finalmente ganhou profundidade, graças a essa Graphic MSP. A história fala sobre o racismo estrutural de cada dia, mas também aponta para algo em sintonia com aquilo visto na sociedade atual: a valorização do negro enquanto indivíduo, enquanto humano. É daí que vem a pergunta levantada pelos autores, transformada em solução visual única.


 

Eles Estão Por Aí (2018)

Roteiro de Greg Stella; arte de Bianca Pinheiro

elesestãoporaí

Mais que uma leitura, Eles Estão Por Aí é uma experiência – e vai do leitor captar suas sutilezas. Bianca e Stella criam seres estranhos que enfrentam o abismo da vida sem se darem conta da falta de sentido de suas ações. De caráter episódio, o enredo aborda o tédio e a frustração gerados pela falta de perspectiva do futuro; as dúvidas causadas pela religião; a ansiedade trazida pelo amor; a brutalidade da violência sem explicação; a imprevisibilidade da morte. O gigante que empilha pedras, mostrado acima, serve como resumo dessas questões existenciais, revelando a efemeridade de nossas ações.


 

Me Leve Quando Sair (2018)

Roteiro e arte de Jéssica Groke

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Esta crônica autobiográfica a respeito de uma viagem que a autora fez com o irmão funciona como uma narrativa de fluxo de consciência sobre as marcas positivas deixadas pela família em uma pessoa. No entanto, existe um interlúdio bizarro (mostrado acima) quando os dois visitam um teatro de fantoches. Apesar de fazer referência a um dos temas (o medo da morte), a cena está lá mais pra ser sentida que entendida.


 

Queda (2018)

Roteiro e arte de Lalo

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“Desconcertante” é um ótimo adjetivo para Queda, sem dúvida um dos melhores quadrinhos da cena independente brasileira dos últimos tempos. Lalo é a típica artista que imprime e monta seus próprios zines, o que só oferece autenticidade a seu trabalho. O final do gibi representa a conclusão catártica de uma história esquizofrênica desde o início, uma história sobre reencontrar a si mesmo – embora isso nem sempre traga coisas boas. Às vezes, uma página precisa pegar o leitor pelo pescoço pra se tornar inesquecível.


 

Luzes de Niterói (2019)

Roteiro e arte de Marcello Quintanilha

luzesdeniterói

Mais uma página de Quintanilha por aqui não surpreende: há de se encontrar artista com tato mais refinado pra criar sequências visuais que também são relevantes dramaticamente. Quando Hélcio pede desculpas a Noel, já no fim de Luzes de Niterói, após quase terem morrido nas águas da Baía de Guanabara, o quadrinista dá closes extremos em ambos, revelando corações machucados, porém cheios de amizade. Momento que diz tanto com tão pouco.


 

O Alpinista (2019)

Roteiro e arte de Victor Bello

oalpinista

Quando O Alpinista chega a esta página, já aconteceu tanta coisa doida na trama que não seria surpresa se Victor Bello colocasse uma música do Era como trilha sonora de uma sequência envolvendo onda gigante, um barco em cima de uma baleia e um grande tubarão branco pronto pra devorar os personagens. Mas ele vai e faz exatamente isso, pegando qualquer leitor de calça curta, criando esta que é uma das cenas mais hilárias dos gibis brasileiros. A voadora no tubarão com um “TAU” de onomatopeia, no último quadro, é a cereja desse bolo perfeito.


 

Juízo (parte da coletânea Tabu, 2019)

Roteiro e arte de Amanda Miranda

juízo

Os momentos finais de Juízo recuperam símbolos visuais usados anteriormente na trama. O rosto sem olhos representa o quase inescapável papel a ser desempenhado pelas mulheres na sociedade: uma obrigação de se dissolver em prol do outro, colocada sobre os ombros de geração após geração. Dentro do contexto da história, a sequência é uma pérola do horror, perturbando o leitor sem apelar para imagens de violência gráfica.

 

 

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8 comentários sobre “Quais são as páginas marcantes da HQ brasileira?

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