Demorou, mas tá aí a lista d’O Quadro e o Risco com os melhores quadrinhos inéditos publicados em 2019 no Brasil.

Meu critério de não colocar republicação tira do ranking coisas obrigatórias – como Capa Preta, da editora Comix Zone, que compila os quatro primeiros álbuns de Lourenço Mutarelli, e precisa ser lida por qualquer pessoa minimamente interessada nessa mídia essencial. Ou, então, Squeak The Mouse, de Massimo Mattioli (Veneta). No entanto, acho justo focar em coisas nunca antes publicadas, pois revela um recorte editorial atual que pode ser analisado, debatido etc.

A ordem não importa muito. A posição de uma HQ não significa que seja melhor ou pior que outra. Às vezes, uma obra precisa estar bem colocada, independentemente do motivo pra isso. Em comparação com a lista de 2018, interessante notar que, agora, os quadrinhos nacionais são praticamente a metade. Acho que tivemos um ano de publicações brasileiras mais diversas, com maior peso e mais qualidade.

Lembrando que ainda não li fortes candidatos a estarem aqui, como O Dia de Julio, de Gilbert Hernandez (Nemo); Minha Experiência Lésbica com a Solidão, de Kabi Nagata (NewPop); O Obscuro Fichário dos Artistas Mundanos, de Clarice Hoffmann, Abel Alencar, Maurício Castro, Greg, Paulo do Amparo e Clara Moreira (Cepe); e Aâma – Volume 4: Você Será Maravilhosa, Minha Filha, de Frederik Peeters (Nemo). Mas assim é a vida…

Vamos aos gibis!


 

20. Qualquer Silva, de Julia Tietbo (independente)

qualquersilva

A jovem gaúcha Tietbo já fez algumas boas coletâneas (sempre colocando ótimos nomes nelas, como Um Livro Chamado Comendo Farofa Pura e Chorando). Mas Qualquer Silva parece um ponto de virada em sua carreira: com mais páginas, explora diagramações pouco usuais para falar de um relacionamento abusivo (infelizmente baseado na própria vivência da autora). Misturando partes mais voltadas à prosa com requadros que exploram a experimentação com a linguagem, este zine aponta o nascimento de uma criadora cuja estética pessoal começa a se consolidar.

 

19. Batata Quente, de Diego Gerlach (Vibe Tronxa Comix)

batataquente

A reapropriação de clássicos das HQs por parte de Diego Gerlach não é novidade: ele frequentemente usa personagens da Disney em suas histórias urbanas cheias de paranoia. Desta vez, vai buscar o Homem-Aranha de Steve Ditko e Stan Lee com o intuito de criar uma grande teoria da conspiração envolvendo megacorporações, roubo de propriedades intelectuais e o questionamento da realidade – o roteiro pode ser definido como um Vingador do Futuro com o “cabeça de teia”. É uma das mais ousadas histórias com o herói já imaginadas.

 

18. Lanterna Verde, de Grant Morrison e Liam Sharp (Panini)

lanternaverde

Fazia tempo que Morrison não acertava a mão. Nesta série, o roteirista escocês tinha prometido enredos pés no chão, mostrando Hal Jordan como policial intergalático. Óbvio que isso ficou na promessa. Conceitos insanos como vampiros espaciais, aliens escravocratas, Deus recebendo voz de prisão e um “lanterna vírus” logo tomam conta das tramas, desenhadas por Liam Sharp num estilo sci-fi europeu. Impressiona a economia de palavras no texto: Morrison escreve diálogos cada vez mais elípticos – a redundância rotineira dos roteiros de super-heróis não é encontrada aqui.

 

17. Solitário, de Christophe Chabouté (Pipoca & Nanquim)

solitário

Ao contrário do morno Um Pedaço de Madeira e Aço, nesta obra Chabouté acerta na quantidade de melodrama inserida em uma história de longa duração. O fato de ser um estudo de personagem (um homem isolado que mora num farol) ajuda a dar um sentido humanista sem cair no terreno do piegas. Escrevi sobre a HQ em 2017, antes de sair no Brasil.

 

16. Caramelo Quatro, de Jota Mendes (independente)

carameloquatro

Na melhor estreia do quadrinho independente nacional no ano passado, o recifense Jota Mendes segue a tradição de Peter Kuper em contar histórias sem diálogo da forma mais fluida possível. Enquadramentos, linhas de ação e planos detalhe fazem os olhos do leitor seguirem a narrativa sem sentirem falta de texto. Jota é bem mais abstrato que o veterano autor americano: seu estilo de desenho lembra um tanto o experimentalismo de Paula Puiupo. O enredo apresenta uma ficção científica militar surrealista, envolvendo seres bizarros de outros mundos e uma bebida proibida para humanos.

 

15. Viagem em Volta de uma Ervilha, de Sofia Nestrovski e Deborah Salles (Veneta)

ervilha

Segundo gibi em parceria da dupla, Viagem em Volta de uma Ervilha joga com as ideias, opiniões, visões de mundo e inquietações da roteirista Sofia, protagonista do livro. A desenhista Deborah também é retratada nesse poema visual/conto ilustrado/fluxo de pensamento, feito a partir do ponto de vista inquieto da gata Ervilha, que dá nome ao trabalho. Aqui tem uma entrevista com as autoras.

 

14. Silvestre, de Wagner Willian (Darkside)

silvestre

Wagner Willian se especializou em escrever sobre mitos e lendas (desde Bulldogma até O Martírio de Joana Dark Side, passando ainda por O Maestro, O Cuco e A Lenda). Silvestre é o auge dessa preferência temática. Tem animais antropomórficos, seres do folclore nacional, europeu e asiático – todos numa cabana no meio da floresta, na companhia de um velho que pretende acertar as contas com o próprio passado. Esse é o tipo de obra que nunca pega na mão do leitor, pois ele mesmo deve desvendar os mistérios apresentados. Uma das HQs mais belas visualmente já feitas em nosso País.

 

13. Aquele Verão, de Mariko e Jillian Tamaki (Mino)

aqueleverão

As primas canadenses Tamaki explodiram para o mundo com Aquele Verão em 2014: o livro virou bestseller do The New York Times, venceu prêmios como o Eisner e o Ignatz, Mariko passou a escrever para a Marvel e Jillian ganhou ainda mais liberdade para obras autorais. Tudo graças a um gibi simples, muitíssimo bem desenhado e que ressoa profundamente. Duas amigas pré-adolescentes passam as férias de verão na praia, e descobrem muito sobre a vida adulta – incluindo como funcionam as relações conjugais, o que é depressão, suicídio e a falta de perspectiva juvenil em cidades pequenas.

 

12. Roseira, Medalha, Engenho e Outras Histórias, de Jefferson Costa (Pipoca & Nanquim)

roseira

Se na primeira obra que roteiriza sozinho, o desenhista Jefferson Costa já entrega algo do porte de Roseira, o que esperar das próximas? As trajetórias de diferentes gerações de duas famílias se entrelaçam surpreendentemente ao longo das páginas: é necessário atenção às paletas de cores, dicas visuais e diálogos dos personagens para perceber as idas e vindas do roteiro no tempo e espaço, além das mudanças nos núcleos de protagonistas. Um labirinto narrativo sobre a vontade de viver e sobreviver no sertão nordestino, uma carta de amor de Costa à força de vontade dos próprios pais e avós.

 

11. Juízo, de Amanda Miranda (parte da coletânea Tabu, Mino)

juízo

Uma trama que começa como um slice of life, seguindo a protagonista rumo ao dentista, e se transforma num estudo de horror sobre o papel da mulher na sociedade. Existe certa dissonância entre texto e arte que esconde intenções – tanto da autora como das personagens. A maturidade temática e estética impressiona neste trabalho de Amanda. Escrevi sobre Juízo (e as outras histórias da Tabu) aqui.

 

10. Senhor Milagre – Volume 2, de Tom King e Mitch Gerads (Panini)

senhormilagre2

A conclusão do drama familiar/thriller psicológico/delírio em spandex feito pela atual melhor dupla criativa dos super-heróis não tem a grandiosidade clichê de batalhas definindo o destino do universo ou de monólogos moralizantes dos mocinhos. Lutas estão lá, mas longe do foco – aquilo ao redor delas importa mais.

A maxissérie de Kings e Gerads com os personagens do Quarto Mundo, de Jack Kirby, quer entender o que nos faz humanos no mundo contemporâneo. Medo da morte, medo de criar laços, medo de construir família, medo da solidão: a equação antivida que o vilão Darkseid tanto quer espreita em cada canto da vida moderna. Senhor Milagre termina como um épico intimista que fala da aceitação de si mesmo, de não se afogar na paranoia das próprias falhas – pois todo mundo está errando, com dúvidas, tentando, vivendo.

 

9. Eu Matei Adolf Hitler, de Jason (Mino)

 

eumateiadolfhitler

O norueguês Jason ainda é autor sendo descoberto pelo leitor brasileiro – somente dois de seus álbuns saíram por aqui. Um é este Eu Matei Adolf Hitler, pra mim uma de suas melhores histórias – sobre a qual já comentei neste texto antigo, a respeito de temas contidos nessas obras e como funciona a narrativa do autor.

Um assassino de aluguel é contratado para voltar no tempo e matar o líder nazista. Acontece que o quadrinista prefere comentar sobre assuntos mais mundanos que mera ficção científica, como, por exemplo, a maturidade do amor e a solidão que uma pessoa pode sentir num mundo frio e calculista. As gags visuais de humor e as bizarrices dão suporte ao que realmente interessa: os dramas dos personagens. Não existem animais mais humanos que os de Jason.

 

8. Spinning, de Tillie Walden (Veneta)

spinning

Spinning é um quadrinho que tinha tudo pra ser mais do mesmo (autobiografia de pessoa jovem a respeito de momento-chave de sua vida), mas vai além justamente por não seguir a fórmula melodramática açucarada presente nesse subgênero desde o superestimado Retalhos, de Craig Thomson. Patinação artística, sexualidade, relação com a família: Tillie Walden trata disso tudo com sinceridade, sendo honesta consigo mesma e com o leitor. Neste texto, eu falo mais da capacidade fora do comum da artista em narrar visualmente nesta HQ

 

7. Aurora nas Sombras, de Fabien Vehlmann e Kerascoët (Darkside)

aurora+2

Personagens fofos, que mais parecem retirados de fábulas infantis, em meio a uma situação limite, logo transformada em inevitável barbárie. Aurora nas Sombras é das coisas mais enigmáticas – e encantadoras – feitas no quadrinho mundial nos últimos anos. Com caráter episódico, a obra permite múltiplas interpretações (algumas delas eu analiso aqui), sendo uma experiência ao mesmo tempo estranha e recompensadora.

 

6. Intrusos, de Adrian Tomine (Nemo)

intrusos

Intrusos preencheu uma enorme lacuna editorial no País: foi o primeiro álbum de Adrian Tomine publicado por aqui – um dos mais importantes artistas independentes norte-americanos surgidos nos anos 1990. Curiosamente, esta coletânea, que reúne as histórias mais recentes do autor, apresenta um excelente recorte de seu trabalho ao público nacional.

Tomine é mestre da crônica: em enredos curtos, aborda o dia a dia de pessoas adultas de um jeito maduro. Sem concessões a finais felizes, narra a vida como ela é: dura, complexa, leve, surpreendente, triste. As seis histórias de Intrusos são de alto nível, mas duas se destacam: a que dá nome ao livro, contando a rotina de um homem que invade o antigo apartamento de sua família enquanto os atuais inquilinos estão fora; e a melhor de todas, Triunfo e Tragédia, a respeito da perda de alguém querido e como só a passagem do tempo (em meio a shows de stand-up comedy) pode trazer paz de espírito.

 

5. Luzes de Niterói, de Marcello Quintanilha (Veneta)

luzes

Este não é o primeiro quadrinho de Marcello Quintanilha a utilizar um enredo “em tempo real” – Tungstênio já fazia isso. No entanto, as situações contadas em Luzes de Niterói são muito mais urgentes e pessoais: inspirado no próprio pai jogador de futebol, o gibi narra as desventuras dos amigos Hélcio e Noel ao longo de uma tarde infernal nas águas da Baía de Guanabara.

Poucos narradores conseguem encontrar ganchos tão naturais para flashbacks quanto Quintanilha. Ele escreve um fluxo de pensamento semelhante ao da vida real, em que relembrar o passado é fato natural da vida no presente. As cores chapadas e saturadas, como se fossem feitas em Technicolor, trazem ainda mais vida de verdade para este recorte da vida brasileira dos anos 1950. Ainda assim, o maior mérito da HQ está em outro lugar: discorrer sobre amizade sem precisar explicitar que esse é seu tema principal. Obra-prima contundente sobre o assunto, do nível do clássico filme Perdidos na Noite, de John Schlesinger.

 

4. Bezimena, de Nina Bunjevac (Zarabatana)

bezimena

Com um estilo próximo das xilogravuras dos pioneiros das narrativas gráficas Frans Masereel e Lynd Ward, Bezimena entra na mente de um predador sexual para tentar entender como ele vê a si mesmo. Este trabalho da canadense de ascendência sérvia Nina Bunjevac é uma obra difícil de explicar sem revelar demais – mas, acredite, essa sinopse básica não entrega nada a respeito de sua real intenção.

Tem um quê onírico em como os fatos se desenrolam, e a própria forma usada por Nina reforça isso: páginas duplas, com uma delas tendo a narração dos fatos, e a outra, uma única ilustração. Até dá pra refletir se Bezimena seria gibi ou livro ilustrado – mas as sequências apenas com desenho, sem texto, deixam mais clara a linguagem dos quadrinhos. E não importa se é um ou outro: sua força está em misturar lenda com a realidade crua de abusos contra mulheres, em contar uma história dentro de uma história e, no fim, roubar o chão do leitor ao trazer mais reflexões que respostas para seus mistérios.

 

3. O Homem Sem Talento, de Yoshiharu Tsuge (Veneta)

homemsemtalento

A importância de Yoshiharu Tsuge para os quadrinhos não pode ser medida: ele foi o primeiro a misturar narrativa subjetiva com uma trama objetiva, a borrar as linhas entre sonho e realidade, poesia e prosa, na revolucionária história Nejishiki, de 1968. Ao mesmo tempo, tirando países como França e Itália, suas obras são quase desconhecidas no Ocidente – fato que começou a mudar com O Homem Sem Talento saindo por aqui e também nos Estados Unidos.

E o livro, mesmo sendo uma criação tardia, ali de meados dos anos 1980, revela toda a capacidade do autor de explorar a psicologia de personagens inspirados nele mesmo, para falar da relação do indivíduo com seu redor. O protagonista é um cartunista caído em desgraça, que não quer retornar ao mundo dos desenhos e tenta, fracasso após fracasso, embarcar em novas profissões – como vender pedras ou consertar câmeras fotográficas. É meio que um antigekigá: enquanto o gekigá, gênero nascido na década de 1950, comenta a miséria humana e social do Japão no pós-Segunda Guerra Mundial, Tsuge analisa a miséria da alma. Ao olhar para o mundo moderno, enxerga a máquina do capital moendo a cultura e o estilo de vida nacional, acabando com a individualidade e com a vontade das pessoas. Há um mal-estar na civilização impossível de ser curado – impossível até mesmo de ser entendido.

 

2. Minha Coisa Favorita é Monstro, de Emil Ferris (Cia. das Letras)

monstro

Quem imaginaria que o gibi de estreia de uma quadrinista do alto dos 55 anos de idade poderia ser um clássico instantâneo como Minha Coisa Favorita é Monstro? Emil Ferris conta múltiplas histórias neste livro de múltiplos gêneros, que imita o diário de uma criança empenhada em investigar o assassinato da vizinha judia. A partir daí, a autora fica livre para comentar sobre relações familiares, descobertas amorosas, luto, Holocausto, digressões estéticas sobre arte, pedofilia, traumas infantis, gibis de terror, racismo e um punhado de outros temas mais ou menos importantes. Aqui tem uma análise completa sobre a HQ.

 

1. O Alpinista, de Victor Bello (Escória Comix)

 

alpinista

Eu expliquei recentemente por que este já é um dos maiores quadrinhos brasileiros de todos os tempos. Por isso, não vou me alongar aqui. O Alpinista é hilário, tenso, explosivo, escatológico, bizarro, surpreendente – e vários outros adjetivos aplicáveis. Poucas obras conseguem capturar o espírito de uma estética específica (no caso, a do “zine podreira”) e transcendê-la em algo maior que essa própria estética. Dizem que o primeiro disco do Velvet Underground, lendário grupo de rock nova-iorquino surgido em 1964, vendeu pouquíssimas cópias – mas que cada pessoa a comprá-lo foi inspirada a montar uma banda. O mesmo deverá acontecer com O Alpinista: provavelmente, pouca gente vai lê-lo, mas quem fazê-lo terá sua vida mudada para melhor.

 

 

Curta a página de O Quadro e o Risco no Facebook e siga o blog no Instagram!

3 comentários sobre “Os 20 melhores gibis inéditos de 2019 – segundo este que lhe escreve

Deixe uma resposta para Lucas Lourenço Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s