O alpinismo é vida, life…
Mas também pode ser morte, déati.
Será que somente quando estamos entre a vida e a morte encontramos o sentido de viver?

Landoni, o maior alpinista do mundo

 

Existem quadrinistas especialistas em humor. Outros entendem mesmo de drama. Alguns preferem fazer gibis de ação – ou, então, ficção científica, épico de fantasia etc.

Existe também Victor Bello. Victor Bello é um quadrinista especialista em tudo.

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Capa de O Alpinista, publicado pela Escória Comix. O quadrinho pode ser comprado aqui

 

Fica meio difícil de acreditar que um pacato e tímido joinvilense de 24 anos, que deixa de ir a eventos de HQs para cuidar de seus animais de estimação, seja a mente fervilhante por trás do clássico underground Úlcera Vortex, lançado em 2017, e deste O Alpinista (ambos publicados pela Escória Comix e seu heroico editor Lobo Ramirez). Suas obras parecem produzidas por um artista com anos de experiência, que já experimentou de tudo na carreira e encontrou a maturidade narrativa necessária pra contar a história que quiser, do jeito que quiser. Mas, não. Quem as faz: um rapaz magro e cabeludo, mais semelhante a um fã de heavy metal do que a um autor de quadrinhos brilhantes na forma e conteúdo.

Bello tem algo único na sua capacidade de criar tramas complexas, personagens marcantes, diálogos memoráveis e cenas com decupagem perfeita, tudo ao mesmo tempo. Se é difícil encontrar pessoas com uma dessas características, imagine com todas… E, isso, sem escrever roteiro: ele pensa o enredo enquanto desenha cada página. Dá pra entender, então, por que existem dezenas de conceitos, nomes e coisas acontecendo em segundo plano nos quadros – todas as ideias interessantes vão parar no papel, pois elas precisam capturar o olhar do leitor de imediato.

Por isso mesmo, ler O Alpinista se transforma numa experiência excêntrica – assim como acontece com outros quadrinhos do autor. Imagine um zine podreira, cheio de escatologia, humor bizarro e desenhos toscos. Agora, coloque essa estética (geralmente feita pra consumo e choque rápidos) em um calhamaço de 220 páginas. Agora, insira uma história que começa em meio a um tenso resgate numa montanha de gelo e termina com niilismo e fim do mundo. Agora, misture cenas das mais engraçadas já impressas.

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É fácil classificar o trabalho de Bello como sendo esse mero “zine podreira, cheio de escatologia, humor bizarro e desenhos toscos”. Sim, tem cocô, pinto e peitos aos montes. Mas o cara vai além. Pega esse gênero (se é que pode ser chamado assim) e o transcende para transformá-lo em obras cheias de reviravoltas, com nuances e detalhes que só alguém obsessivo seria capaz de executar. Úlcera já deixava isso claro. O Alpinista vem pra refinar ainda mais essa fórmula que só Bello consegue seguir. Ele parece querer deixar um recado: dá pra fazer zoeira bem feita.

Bem feita como a página de abertura, cujo topo mostra o título da HQ, seu olho vai descendo e lá embaixo aparece uma mão se segurando à montanha por meio de um único dedo. Pronto, com uma imagem, você foi fisgado pra sempre – e vai querer acompanhar o enredo de vingança e superação até o fim de uma vez só. Ou bem feita como aquela sequência (não explicarei para não estragar a descoberta, mas você saberá quando chegar a ela), que usa uma música dos anos 1990 como trilha sonora para um dos momentos mais geniais (e surpreendentes, e catárticos) do quadrinho brasileiro em todos os tempos.

Por falar em citações, elas existem às centenas, embora não estejam ali pra servir como piscadela ao leitor. Quando faz referência a Grant Wood, por exemplo, Bello vai buscar uma tela nem tão conhecida do pintor americano, ao invés de usar o famoso Gótico Americano. Como um Quentin Tarantino no auge da forma (aquele dos anos 1990), Bello se alimenta de diferentes fontes para entregar algo bastante pessoal. O Alpinista é um amálgama de comédias dos irmãos Zucker e Jim Abrahams, jogos de fliperama, ação oitentista, filmes de prisão, O Franco-Atirador (de Michael Cimino), artes marciais, Super Nintendo, literatura pulp, Guerra Fria, Jorge Kajuru, teorias da conspiração, A Outra Face (de John Woo), ultraviolência, Paul Verhoeven, hard sci-fi, neo noir, esportes radicais, John Carpenter, música new age e Luciano Huck.

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Os traços quase infantis também enganam, pois levam a crer que o artista desenha mal. Essa tosquice, que não preza por uma anatomia e formas perfeitas, é o diferencial que faz a trama rocambolesca funcionar. Com outro estilo, a história viraria um pastiche sem graça – ou, pior, sem sentido algum.

Olhando de perto, existe uma elegância quase única nessa arte, provavelmente considerada “feia” por leitores menos atentos. É um claro-escuro expressivo, maníaco no detalhamento dos objetos, com composições que exploram os cenários para trazer mais informações visuais e abusam dos closes para tirar mais emoção dos personagens. As perspectivas distorcidas, as cabeças flutuantes em meio a flashbacks (algo bem Brian De Palma dos anos 1970 e 1980), os planos detalhes chocantes… Uma página, ou mesmo um quadro, do quadrinista é imediatamente reconhecível.

Se não bastasse a loucura visual, tem também a escrita. Escrever humor deve ser um negócio bem complicado. Como saber se a piada funciona? Como saber se o engraçado pro autor será engraçado pro leitor? Não importa qual método Bello use, o resultado aqui é anárquico. Existem dezenas de cenas genuinamente hilárias, dignas das melhores esquetes de Hermes & Renato ou Monty Python – ora conduzidas por um humor mais físico, ora por diálogos, recordatórios, onomatopeias, nomes* ou frases nonsense. Aliás, one-liners matadores estão presentes aos montes, vide o que abre este texto (raro um artista com essa habilidade, né?).

(*alguns nomes presentes em O Alpinista: Norma Leprexau, Charles Bauduco, Mestre To, Guguto Milk Roberto, Pepeu Madovski, Dr. Camilo Beleza, Capitão Berbigone, Thunder Van Ghost, Agência de Investigação Total Coruja Chinesa. Para mais informações sobre momentos incríveis da HQ, assista a este vídeo)

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Pra concluir: O Alpinista representa a vontade primal de fazer gibis. Sentar e desenhar, como se nada mais importasse. Sem amarras, sem seguir regras consagradas. Tendo como único objetivo a diversão de criar – e como Victor Bello deve se divertir fazendo isso…

Que Deus abençoe esse menino, dando-lhe muita saúde para fazer quadrinhos por muitas décadas a fio.

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Um comentário sobre “Por que “O Alpinista”, de Victor Bello, é um dos maiores quadrinhos nacionais de todos os tempos

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