O americano Box Brown tem algo de irresistível na forma de fazer quadrinhos. Quem tem contato com uma de suas obras geralmente quer mais trabalhos de sua autoria. Parte desse fascínio vem do formato documentário desses livros, que contam histórias reais a respeito de pessoas e temas interessantes: um mito mundial da luta-livre, o game mais jogado de todos os tempos, um iconoclasta do humor, a trajetória de uma droga tabu na sociedade ocidental.

Por enquanto, Brown tem apenas um álbum de ficção, An Entity Observes All Things. Ano que vem sai mais um com personagens inventados, Child Star, embora também com traços documentais, pois baseado na vida de crianças estrelas da cultura pop.

Porém, mais importante que o tipo de abordagem é a narrativa econômica e eficaz, aliada a um desenho sem firulas. Parece fácil fazer gibi quando se lê Box Brown. E, finalmente, o público brasileiro pode conhecê-lo — a Mino lançou há poucos meses Cannabis – A Ilegalização da Maconha nos Estados Unidos, sua mais recente graphic novel, publicada na América do Norte em abril deste ano.

Afinal, qual o segredo desse cara?

Concisão no texto
A escrita do quadrinista se destaca pela simplicidade — algo bem diferente de simplismo, é bom frisar. Ele usa frases quase sempre na ordem direta, na estrutura básica da gramática: sujeito + verbo + objeto. Mesmo em assuntos complexos ou técnicos, não se desvia desse formato. Cannabis, por exemplo, explica o uso da maconha desde a antiguidade. E pra mostrar como os indianos fumavam a erva, surge esta página:

cannabis

Frases curtas descrevem as etapas do processo. O mais importante nessa sequência, que é demonstrar como tudo funciona, não está escrito, mas, sim, desenhado. Cria-se um paradoxo: tem muita informação ocupando pouquíssimo espaço (no caso, somente três quadros, com 321 caracteres de texto, incluindo onomatopeias). Mesmo assim, a leitura é leve. Imagine quantas páginas uma reportagem sobre os hábitos de fumar na Índia poderia ter — Brown reduz isso a só uma, sem ser vago ou superficial. É um verdadeiro mestre da concisão.

Abaixo, uma sequência de Is This Guy For Real?, biografia do comediante Andy Kaufman, reforça a necessidade de escrever apenas o essencial.

andy

kaufman

Logo no primeiro quadro, três sentenças definem a personalidade de Kaufman, servindo como preparação para o que vem depois: uma surreal apresentação de stand-up comedy, realizada ainda no início da carreira do humorista. Recordatórios conduzem a ação, enquanto os diálogos aparecem para dizer o necessário, nunca sendo redundantes em relação à imagem ou ao que já tinha sido dito antes.

Desenhos simpáticos
Os traços redondos também têm grande parcela no engajamento do leitor. Por parecerem infantis, ganham simpatia instantânea. E esse fator, somado ao texto enxuto, revela a enorme habilidade do artista para contar histórias graficamente, utilizando diversas técnicas diferentes para isso.

andre

Suas páginas variam entre layouts “convencionais” (com grids de 4 ou 6 quadros, por exemplo) e diagramações bem livres, que incluem imagens grandes divididas em pequenos quadros, gráficos transformados em sequências visuais ou jogos rápidos de elipses em longas cenas mudas.

Os tais gráficos são tão marcantes que talvez sejam sua característica definitiva. Em Tetris: The Games People Play, que reconta a criação do renomado game de origem soviética, e também em Cannabis, questões técnicas sobre computadores e programação, ou os compostos da maconha e seus efeitos no cérebro humano, são apresentadas de uma forma que somente poderia ser encontrada em uma HQ.

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tetris

 

Um gibi com soluções semelhantes para falar de assuntos científicos é Trinity – A História em Quadrinhos da Primeira Bomba Atômica, de Jonathan Fetter-Vorm, lançado no Brasil em 2014 pela editora Três Estrelas. Mas, além desse, não me lembro de muitos outros a seguirem estilo parecido — embora Trinity tenha muito mais texto que qualquer coisa do Brown.

De qualquer forma, é hora de comemorar a chegada ao nosso país da obra desse autor fundamental para o quadrinho americano nesta década. Tetris será o próximo, também pela Mino, só não se sabe quando. Agora é torcer para a palavra de Brown (poucas, na verdade, mas diretas) se espalhar  por aqui.

 

 

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