É possível afirmar que Sandman, o épico de fantasia sonhado por Neil Gaiman, foi a primeira série contemporânea de longa duração, focada em leitores adultos, a ser um sucesso arrasa-quarteirão.

Cerebus e Love and Rockets seriam concorrentes fortes a esse título se não tivessem ficado restritas a nichos de público. Super-heróis também não contam: antes dos anos 1980, os trabalhos visavam aos jovens e crianças. A abordagem ganha maturidade nessa mesma década, mas, mesmo assim, um material como Saga do Monstro do Pântano nunca vendeu centenas de milhares de cópias.

É possível afirmar também que Sandman, talvez o maior representante do quadrinho mainstream com temas refinados que virou padrão na indústria americana, envelheceu com problemas.

Despertar
Sandman #1 foi publicada em novembro de 1988. Ao longo dos trinta anos seguintes, pouca coisa foi tão influente nos gibis de linha publicados nos Estados Unidos. Foi uma das responsáveis diretas pela criação do selo Vertigo, da DC Comics, marco fundamental da HQ moderna. Transformou ainda Neil Gaiman em escritor rockstar, alçando sua carreira a níveis de fama inimagináveis para um roteirista de quadrinho.

Suas 75 edições mensais (e não incluo especiais ou spin-offs) formam a planta baixa para qualquer material autoral de fôlego, com começo, meio e fim, que veio depois. A estrutura de arcos de histórias, separados por one-shots a respeito de personagens ou aspectos específicos da trama, não era novidade. Mas, pela primeira vez, diversos artifícios criativos usados aqui e ali anteriormente foram juntados num único projeto de grande escala: a vontade de se aproximar da linguagem literária, o escopo do enredo, a criação de um universo com seres, regras e relações próprias.

A lista das obras que pagam tributo a esse esquema narrativo é quase sem fim. Basta olhar para a mitologia de The Wicked + The Divine, Monstress ou Saga; a lenta revelação de elementos do roteiro presente em Hellboy ou 100 Balas; as histórias curtas de Astro City; a mistura de gêneros em Preacher ou Os Invisíveis

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Entes queridos
Gaiman sabe construir personagens. A prova está na reformulação brutal feita em um existente há décadas, o Sandman da Era de Ouro. Do justiceiro mascarado que utilizava gás do sono para prender criminosos, publicado pela primeira vez em 1939, o escritor extrai um aspecto inusitado (a capacidade de fazer outras pessoas dormirem) para criar Morfeus, uma entidade tão antiga quanto o universo, governante do local onde os sonhos são criados. Desse conceito maior que a vida, surgem seus irmãos, os Perpétuos, que incorporam outras características da existência humana (Morte, Desespero, Desejo etc.).

Ao redor deles, um conjunto enorme de personalidades – incluindo um espantalho com cabeça de abóbora, Eva, um corvo falante, Lúcifer, William Shakespeare. Dos relevantes aos secundários, todos são únicos no sentido de possuírem traços de caráter e trejeitos na fala. Alguns têm até balões com fontes e formatos especiais.

Mesmo com tudo isso, o desenvolvimento de Morfeus acaba sendo o maior trunfo. Clássico herói da tragédia grega, é uma alma atormentada. No começo, não passa de um homem arrogante, vingativo. Com o passar do tempo, novas facetas se revelam. Transforma-se em alguém soturno, preso a regras de condutas autoimpostas. Administrar seu reino torna-se fardo pesado em meio a ameaças extraterrenas, conflitos gerados pelos irmãos e relacionamentos conturbados no mundo real. Seu renascimento ao término do quadrinho é simbólico de sua evolução – o fim é o começo de um novo ciclo.

A tempestade
Para contar uma história episódica como essa, Gaiman sai do comum. Os padrões da HQ de massa estavam ali para serem quebrados: ele inclui texto rebuscado, com peso poético e lírico; epígrafes para dar o tom de cada edição; quebra no ritmo das cenas, alternando entre narradores em primeira pessoa e oniscientes. Forçar os limites não o intimidava.

Porém, tanta inovação cansa a leitura. A partir de Estação das Brumas
(paradoxalmente um dos melhores arcos do trabalho), em vários momentos o roteirista parece mais interessado em mostrar ao público o quão virtuosa/versátil é sua escrita do que fazer algo efetivo com o enredo. Exemplos: 

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A edição #24 apresenta um impasse para Morfeus, envolvendo uma visita anterior ao Inferno. Ele recebe em seus domínios pessoas interessadas em resolver a questão, incluindo os deuses nórdicos Odin, Thor e Loki – e a introdução dos três faz sentido, pois um deles terá papel essencial nos acontecimentos mais adiante. O problema é como isso acontece: cria-se humor usando a aparência e a personalidade de Thor, retratado como um fortão descerebrado, com piadas que abusam desse estereótipo. Há uma insistência em torná-lo alívio cômico quando a trama não precisa de comédia, diluindo assim as tensões ao redor

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Muletas para criar conflito e apreensão (que, na verdade, soam artificiais) existem aos montes, como essa sequência acima, presente na #38. Um causo familiar é motivo de discussão entre avô e neta – o velho desentendimento entre antiga e nova geração a respeito de tecnologias modernas. A cena é inútil: sem essa página, o desenrolar dos fatos segue o mesmo. E nem dá pra considerar necessário algum tipo de desenvolvimento psicológico para esses personagens, pois ambos não retornam depois

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A mesma situação acontece no bom arco Vidas Breves. Morfeus e sua irmã Delírio saem em busca de Destruição, um Perpétuo há muito isolado da família. Para evitar ser encontrado, Destruição preparou mecanismos especiais, pessoas espalhadas pelos EUA que o avisariam caso alguém estivesse à sua procura. Acontece que duas das sequências envolvendo esses “alarmes” não interferem no enredo. A do “homem que vira urso” consome quatro páginas sem qualquer consequência direta ou indireta. Está ali apenas como interlúdio poético – o que não seria ruim, caso trouxesse novos elementos a esse universo para serem trabalhados posteriormente

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Ainda em Vidas Breves: essa página conclui uma longa cena de jantar muito bem conduzida, cheia de silêncios constrangedores, hesitações e divagações. A conversa entre Sandman e Delírio, irmãos tentando aquecer a fria relação que possuem, quase é arruinada por um recordatório fora de lugar no último quadro, de um narrador onisciente que não tinha aparecido na edição até então. Em português, seguindo a tradução da Panini, ficou assim: “Ambos deixam o salão, quase imperceptíveis. Tocadas pelos dedos dela, as duas pessoinhas de chocolate copulam em completo desespero enquanto se perdem num frenesi derretido de luxúria, despendendo o resto de suas breves vidas num espasmo de creme de framboesa e medo”. Qual a ligação dessas palavras com o que acabou de acontecer? Serve para algo além da citação ao nome do arco?

 

Exílio
Ainda sobre escolhas narrativas: inúmeros coadjuvantes voltam para o penúltimo arco – As Bondosas, o maior da série (com treze edições) e responsável por amarrar anos de tramas construídas lentamente. Ótimo planejamento de escrita, revelando que nada mostrado antes foi por acaso.

No entanto, mais uma vez, a execução fica truncada. Gaiman espera o clímax máximo, as últimas páginas da jornada de Morfeus, para fechar pontas soltas desses coadjuvantes. De novo, perde-se urgência quando o leitor está no ápice de seu engajamento com a obra.

Para comparação: anos depois, outra HQ com elenco numeroso acabou da forma correta. Em Preacher, Garth Ennis conclui vários papéis de menor relevância antes de chegar ao arco final, no qual somente um deles tem sua história concluída – mesmo assim, cinco edições antes da conclusão da saga. O roteirista sabia que o núcleo duro dos protagonistas (Jesse Custer, Tulipa O’Hare, Cassidy, Santo dos Assassinos e os vilões) era a única coisa importante na reta final.

Por falar em personagens secundários, vale citar o desperdício de alguns dos mais interessantes: os criados de Sandman. Mervyn Pumpkinhead, os guardiões da entrada do Sonhar, Gilbert, Lucien, o corvo Matthew – todos com personalidades marcantes, mas sem aprofundamento. Quais suas aspirações? O que pensam da vida? Qual seu passado? Não sabemos. Seus diálogos e ações se referem somente a seu amo. Lucien e Matthew ainda têm uma definição maior, embora longe do satisfatório. Enquanto isso, o roteiro prefere focar em figuras sem carisma, como os pequenos animais de Um jogo de você.

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Espelhos distantes
A escolha dos temas abordados, e o jeito de abordá-los, também pode ser discutida. O primeiro terço do gibi – até o início de Um jogo de você – é marcado por um tom mais experimental e, ao mesmo tempo, intimista. A ambientação pega muito emprestado do terror, enquanto a diagramação dos quadros foge de padrões fixos, principalmente quando o excelente Mike Dringenberg desenha.

As edições #6, #7 e #8 resumem essa estética, a melhor da obra. As duas primeiras formam um conto de horror arrepiante; a última é a lendária O som de suas asas, na qual se introduz Morte. Tramas contidas, mas com muito a dizer. Infelizmente, esse estilo de texto e arte pouco se repete, sendo preterido por questões cada vez mais grandiosas e traços cada vez menos ousados.

A partir do momento em que o gênero da fantasia toma conta dos argumentos, o trabalho perde o frescor. Fica quadrado com o uso recorrente de personalidades históricas e a vontade de costurar fatos reais a esse universo. Gaiman queria a todo custo escrever uma história sobre histórias – basta lembrar como as situações de estranheza absoluta dos primeiros números são substituídas por fábulas e folclore. Ele se esquece, entretanto, de que o assunto principal da HQ (os sonhos) não possui a lógica ou a estrutura de uma história.

Pensando bem, até o Sonhar aparenta normalidade: não passa de um gigantesco palácio cercado por natureza. Shade, o Homem Mutável, de Peter Milligan e Chris Bachalo, ao tratar sobre a loucura, trabalha melhor o conceito onírico. Nesse sentido, Sandman é como assistir A Origem esperando um filme de Luís Buñuel. Sonhos significam Surrealismo, Dadaísmo, não Renascimento ou Barroco.

Fim dos mundos
A série sente falta ainda de uma identidade visual, mesmo pecado de Os Invísiveis. Dezenas de artistas passam pelos lápis, um punhado deles bem abaixo da média, como Stan Woch e Duncan Eagleson. Marc Hempel não desenha mal, mas seu traço cartunesco nem deveria ter sido cogitado para ilustrar As Bondosas. Até mestres como Bryan Talbot entregam trabalhos que não condizem com sua qualidade rotineira.

Por outro lado, ainda bem que participam o já citado Dringenberg, o gótico Kelley Jones, a clássica Jill Thompson, os rococós Charles Vess e P. Craig Russell. E, claro, Michael Zulli, esse monstro responsável por não mais que uma dúzia de edições, todas de uma beleza etérea incomparável.

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Convergência
O arco Despertar encerra o quadrinho em nota pra lá de positiva. Afinal, deixa de lado a megalomania e volta a focar nos detalhes – o que fica ainda melhor com as ilustrações de Zulli. Fica a sensação de que mais disso poderia ter sido apresentado ao público.

A arte pioneira sente o peso dos anos, de uma maneira ou de outra, conforme a mídia da qual faz parte evolui – evolução que se dá muito por conta das contribuições dessas próprias obras. Não seria diferente com Sandman. Lê-la hoje provavelmente não corresponderá à experiência arrebatadora que deve ter sido lê-la enquanto era publicada.

Gaiman tentou coisas diferentes – e disso ninguém pode reclamar. Acertou em várias, errou em tantas outras. Algumas técnicas inovadoras de narrativa da época se tornaram padrão, quem sabe até obsoletas. Para o leitor em contato com a série pela primeira vez, vale se aproximar com cautela – e saber que uma torrente de sentimentos irá se manifestar, seja encantamento, tédio, surpresa ou frustração. Indiferença, jamais.

zulli

 

 

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