Entre os diversos ótimos quadrinhos independentes brasileiros de 2018, Hibernáculo foi um dos mais originais. Curiosamente, parece que passou batido por parcela grande dos leitores. Uma pena, já que Amanda Miranda consegue algo notável na questão da linguagem: cria um layout de página e, ao longo da obra, vai adaptando-o e desconstruindo-o, conforme a necessidade da história.

Lírico x científico
A trama mostra a renomada pianista Augusta em meio a uma jornada para entender a própria relação com a arte. Há meio que um embate, nas entrelinhas, entre dois entendimentos possíveis de música: o de ciência exata, formada por notas a serem seguidas fielmente, e o de liberdade lírica, os sons surgindo dos sentimentos e da alma, o artista encontrando as musas artísticas da mitologia grega para elevar seu trabalho a um patamar sublime. Ambos os conceitos são usados até o fim para conduzir o enredo.

Logo no começo, Amanda utiliza o padrão de quadros que vai acompanhar toda a HQ, um grid de nove quadros.

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Esse tipo de diagramação ficou famoso em Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons. Atualmente, o maior fã desse modelo é o roteirista Tom King, que o usa para inserir um ritmo de leitura semelhante ao das tiras às cenas que escreve

 

A formalidade é a marca de uma página assim – tudo a ver com a teoria musical e sua exatidão matemática. Representa as notas ordenadas na página, acordes a serem reproduzidos para criar os sons desejados. Partindo daí, a quadrinista começa a brincar com esse layout. A ordenação fixa dos quadros dá espaço a algo mais fluído, caótico, individual, da mesma forma que uma música deixa de ser partitura para transformar-se em expressão do artista que a interpreta.

Assim, começam a aparecer soluções visuais diferentes, embora sempre baseadas nos nove quadros do início.

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O ápice dessa desconstrução aparece aqui:

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Notas espalhadas pela página, sem requadros, uma frase solta no centro. É como se as partes em branco fossem pausas, ou mudanças de tom, em meio a um solo frenético.

Mais para o final da HQ, os quadros começam a se fundir, a passar de uma página para a outra – mas, novamente, respeitando o padrão original.

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Apesar de aparentemente distintos, esses exemplos seguem o layout de nove quadros por página. O que muda é a disposição deles, uma improvisação em cima de algo predefinido, semelhante à música tocada pela protagonista

 

Fica a dica de Amanda Miranda: o segredo é não se apegar a uma solução visual. Dá para subvertê-la a cada momento, fazendo-a parte fundamental da narrativa e dos temas abordados.

 

 

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2 comentários sobre “Aula do dia: como criar um padrão narrativo e subvertê-lo ao longo da obra, com Amanda Miranda em “Hibernáculo”

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