A crise econômica de grandes redes de varejo atingiu em cheio nosso mercado editorial, resultando no cancelamento de pagamentos para editoras, resultando em menos dinheiro para investimentos em novos livros, resultando em lançamentos certos para o ano passado sendo adiados indefinidamente. Tem também a cena independente, cada vez mais vasta e plural – embora ainda não permita aos artistas viver da criação autoral.

Apesar de tudo, dê uma olhada na lista abaixo. Repare na variedade de temas, traços, estilos, gêneros. A HQ nacional segue numa espécie de “era de ouro” (até quando, não sabemos, mas que está bem viva, está). Dada a quantidade de material muito acima da média, resolvi fazer um top 31 (era top 30, mas um título entrou de última hora e não quis tirar nenhum) das melhores publicações lançadas por aqui em 2018. Na verdade, não diria “melhores” – conceito um tanto subjetivo. Fico então com “mais importantes”, “que merecem ser comentadas”.

(Os dez primeiros são a minha lista enviada para o Prêmio Grampo 2019 – pela segunda vez, sou jurado da iniciativa do Vitralizado e do Balbúrdia, a cada ano mais relevante)

É isso. Espero indicar algumas preciosidades que por acaso tenham passado despercebido por você. Boa leitura! (dos gibis citados, claro)


 

perfeito-estranho31. O Perfeito Estranho, de Bernie Krigstein
(Veneta)

Krigstein é um dos artistas com maior influência no quadrinho moderno que quase ninguém conhece. Sua produção durou pouco tempo e seu impacto não foi imediato, mas adiantou em décadas uma forma descomprimida de narrar que se tornaria o padrão da indústria, mainstream ou independente. É dele a icônica Raça Superior, história publicada em março de 1955. A partir dali, a mídia daria um salto sem precedentes no caminho de uma sensibilidade artística influenciada por diversas escolas da arte. A coletânea compila todas (ou a maior parte) do trabalho do criador pela EC Comics. O traço mutante de Krigstein oferece, como poucos, uma gama de sentimentos para o leitor, modulando o tom de acordo com o roteiro. Em questão de peso histórico, é um dos principais lançamentos dos últimos tempos.

 

kh830. Know-Haole #8, de Diego Gerlach
(Independente)

Falei bastante sobre o gibi neste ranking com todos os volumes da série de zines feita pelo gaúcho. A edição #8 é de longe a mais experimental da coleção. Não existe bem um enredo: algumas pessoas caminham por uma calçada, ao mesmo tempo em que nos são mostrados os pensamentos delas naquele instante. Parece simples, mas a técnica usada por Gerlach transforma a obra num pequeno laboratório insano de linguagem.

 

umairmã.jpg29. Uma Irmã, de Bastien Vivès
(Nemo)

Existe toda uma vida interior nos personagens de Bastien Vivès, pouco revelada ao leitor. Por isso, o não dito tem tenta importância quanto os diálogos em seus quadrinhos. Uma Irmã materializa o sonho molhado de todo moleque adolescente tímido – e com pouco traquejo social: uma relação com uma menina alguns anos mais velha – e segura de si. A sinopse engana bastante, pois insinua um coming of age requentado. Sim, a questão sexual move boa parte do roteiro, embora não seja o essencial. Na verdade, a ligação desenvolvida por Antoine e Hélène não se dá apenas no nível carnal. Ambos se enxergam semelhantes, sem um lugar para si, confusos em relação ao que ocorre ao redor (e principalmente dentro deles). E ao final desse fim de semana na praia, como quase tudo na vida, cada um vai para seu lado. Ao menos, fica a sensação de saber que não são os mesmos de antes.

 

jeremias.jpg28. Jeremias – Pele, de Rafael Calça e Jefferson Costa
(Panini)

“O que você vê?”, pergunta a mais impactante splash page brasileira de 2018. Jeremias sempre foi um coadjuvante secundário na Turma da Monica. Basta procurar: detalhes sobre sua vida pessoal eram mínimos, nunca teve o papel de protagonista. Então, surge a Graphic MSP de Calça e Costa para mudar isso. Um dos poucos personagens negros do universo de Maurício de Sousa ganhou peso dramático, numa história sobre o racismo estrutural de cada dia que aponta para algo em sintonia com aquilo visto na sociedade: a valorização do negro enquanto indivíduo, enquanto humano – daí vem a pergunta levantada pelos autores. Ainda estigmatizada, a jornada negra está mais poderosa que nunca.

 

entrevista.jpg27. A Entrevista, de Manuele Fior
(Mino)

Nunca tinha saído nada do italiano Manuele Fior no Brasil. Então, para nossa sorte, quase simultaneamente lá pelo meio do ano, duas obras-primas dele chegaram às lojas. Uma delas foi A Entrevista (a outra também vai aparecer neste ranking). Num futuro não muito distante, objetos não identificados são vistos voando acima de cidades pelo mundo. Seriam alienígenas? O que querem de nós? Esse toque de ficção científica serve apenas como pano de fundo para a análise de uma relação amorosa e do embate entre gerações – representadas pelo psicólogo de meia idade Raniero, homem sem aspirações e preso a um casamento falido, e sua paciente Dora, jovem inserida em formas modernas e libertárias de relacionamentos.

 

meleve.jpg26. Me Leve Quando Sair, de Jéssica Groke
(Independente)

A melhor estreia de quadrinista nacional em 2018 foi a de Jéssica Groke. Me Leve Quando Sair é uma crônica autobiográfica a respeito de uma viagem que a autora fez com o irmão. O passeio, no entanto, importa pouco. Outras memórias se misturam ao relato, como se uma torrente de lembranças e sensações desmontassem um enredo que tinha tudo para ser linear, transformando-o em narrativa de fluxo de consciência sobre as marcas positivas deixadas pela família em uma pessoa. Há tempo ainda para um interlúdio incômodo, revelando Groke como discípula das estranhezas de David Lynch. A composição das páginas, livres de requadros, e a arte toda em lápis dá a dica: fique de olho nessa menina.

 

elena.jpg25. Abandonado por Elena, de Gabriel Dantas
(Independente)

Natural de Natal, Gabriel Dantas tem uma produção curta, mas bem característica: suas histórias se assemelham a episódios de sitcom, em que os personagens se veem diante de uma situação complexa, cuja solução depende da astúcia deles. Sua arte, cheia de detalhes e arabescos, tem um estilo solto propício aos assuntos mundanos abordados. O gatinho protagonista não passa de um adolescente tímido, tentando a toda custo passar de ano na escola e parecer cool o bastante para impressionar a gatinha descolada Elena. Junto do amigo 7 Peles, outro gato, vai parar em uma festa regada a álcool e tipos esquisitos. A maior qualidade de Abandonado por Elena: ser uma trama de comédia na qual as piadas funcionam de forma natural, graças às personalidades dos animais. Engraçado na medida, tem a levez dos filmes juvenis de John Hughes feitos na década de 1980.

 

batmanhortelino.jpg
24. Batman/Hortelino, de Tom King e Lee Weeks
(Panini)

O crossover entre DC e Looney Tunes tinha tudo para ser um tremendo caça-níquel. Mas aí publicam esta pérola, escrita por Tom King e desenhada pelo veterano Lee Weeks, e de repente a ideia de juntar os dois universos parece excelente. Hortelino Troca-Letras caçando o Batman por Gotham City é um conceito ridículo – bom saber, então, que os autores abraçam a maluquice para criar algo tenso e hilário. O texto mordaz e sacana de King trata os personagens com uma tridimensionalidade trágica surpreendente, enquanto a decupagem de Weeks faz o gibi ser ágil como um desenho animado. Mais parece um conto noir de Raymond Chandler, dirigido por Chuck Jones. Entra fácil na lista de clássicos dos Looney Tunes, ao lado de animações como Temporada de Caça e Vai de Ópera, Velhinho?.

 

suavoz.jpg23. Sua Voz, de Flavushh (Flávia Brioschi)
(MIS/Antílope)

A HQ saiu pelo selo da feira Des.Gráfica, após Flavushh ter sido uma das vencedoras do edital do evento. Para uma artista tão jovem (ainda nem completou dezoito anos), foi uma notícia e tanto: um público que provavelmente não teria contato com seu trabalho pôde conhecê-la. E quem leu Sua Voz concordou com a escolha. Se antes ela produziu zines curtos ou participou de antologias, agora entrega uma história com fôlego o bastante para desenvolver as personagens. Aqui, a principal delas é uma menina em idade escolar que precisa lidar com uma voz querendo mandar em sua vida, assim como entender os sentimentos amorosos inerentes à idade. Seu traço, remetendo a um desenho infantil, busca inspirações em gente como Mickey Zacchilli e Paula Puiupo com o intuito de criar diagramações experimentais, abandonando os quadros para pensar a página como um todo.

 

marcha.jpg22. Marcha Para Morte, de Shigeru Mizuki
(Devir)

2018 marcou a consolidação das publicações de gekigás (mangás com temas adultos) no País. Osamu Tezuka, Jiro Taniguchi, Taiyo Matsumoto, Junji Ito e Shigeru Mizuki agora podem ser lidos em português facilmente. Marcha Para Morte aborda uma das obsessões do autor: a Segunda Guerra Mundial – ele lutou, contraiu malária, viu amigos serem mortos e perdeu um braço no conflito. Dividido em pequenos capítulos baseados nas experiências de Mizuki, o livro apresenta os últimos dias de uma companhia japonesa cercada por forças aliadas em Nova Guiné. O elenco variado de personagens insere humor, melancolia e ternura às situações vividas, trazendo humanidade a esse cenário marcado pela desumanização. Mas, como bem mostra o final da obra, não nos esqueçamos: o saldo da guerra não passa de corpos empilhados.

 

tilt
21. Tilt, de Raquel Vitorelo
(Independente)

Superlativos sempre devem ser usados com cautela. Porém, este a seguir não tem erro: estou pra ver artista nacional tão diversificada no uso de técnicas de desenho quanto Raquel Vitorelo. Tilt entra no conceito de quadrinho-ensaio: sem um enredo como fio condutor, aborda com lirismo as dores (literais e metafóricas) da autora, que mergulha nas memórias sobre as disfunções de seu corpo, principalmente em relação à enxaqueca crônica, sua fiel escudeira desde a infância. Cada página foi produzida com uma técnica específica: lápis de cor, colagem, guache, esferográfica, imagens de exames neurológicos etc. Com Vitorelo, a produção experimental brasileira está em boas mãos.

 

oidiota.jpg20. O Idiota, de André Diniz
(Companhia das Letras)

André Diniz não adaptou O Idiota, do escritor russo Fiódor Dostoiévski: fez a sua interpretação pessoal desse clássico da literatura mundial. As obras não poderiam ser mais diferentes. Enquanto o livro é verborrágico, o gibi praticamente não tem texto – das 416 páginas, apenas 95 contam com alguma palavra impressa. Ao invés da densidade psicológica do original, tem-se a sutileza de olhares, expressões e movimentos corporais, numa versão pastoral da história do príncipe epiléptico pertencente à aristocracia russa no século 19.

 

contodeareia.jpg19. Conto de Areia, de Jim Henson e Ramón Pérez
(Pipoca e Nanquim)

Uma honra em pleno 2018 ter contato com materiais obscuros de Jim Henson, criador de Muppets e Vila Sésamo. Esse roteiro de longa-metragem ficou engavetado por décadas, até o ilustrador canadense Ramón Pérez adaptá-lo para quadrinho. Não existe uma trama propriamente dita. Um homem chamado Mac recebe a missão de sair em busca de algo que nem ele sabe o que é. Segue-se uma aventura surrealista digna de René Magritte, cheia de livre associações, cenas insanas e interpretações abertas. Chegar ao final traz ainda mais perguntas – e essa é a graça da brincadeira. Não importa o sentido atrelado às sequências de sonho, banhadas em cores fortes e quase sem diálogos. Vale, sim, deliciar-se com os delírios visuais criados pelo desenhista.

 

postal.jpg18. Série Postal #1 (segunda temporada), de Alexandre S. Lourenço
(Vitralizado/Juizforana)

O projeto Série Postal, do jornalista Ramon Vitral, concebeu algumas pérolas narrativas no tamanho de um cartão postal. A melhor delas abriu a segunda temporada da publicação. Alexandre S. Lourenço era o nome óbvio pra rabiscar em um tamanho limitado assim: seu desenho miúdo deu personalidade a grandes HQs, como BoxeVocê é um Babaca, Bernardo. Desta vez, em 91 miniquadros, constrói um enredo de super-herói completo, mostrando a passagem de um manto por gerações, com mais coração que a maioria das coisas despejadas em comic shops mensalmente.

 

visão
17. Visão (volumes 1 e 2), de Tom King e Gabriel Hernández Walta
(Panini)

Quando escreve materiais autorais, sem estarem atrelados ao conceito mais estúpido do super-herói americano (a cronologia), Tom King é rei – com o perdão do trocadilho. A minissérie Visão ganhou vários prêmios da indústria e chegou por aqui cheia de expectativa por parte de público. Expectativa, acredito, totalmente recompensada. O protagonista, um robô vilão que se tornou herói, fazendo parte até mesmo dos Vingadores, torna-se o elemento perfeito para um thriller de suspense suburbano. Com o objetivo de se adaptar ao nosso modo de vida, ele fabrica uma família para si e vai morar numa casinha com jardim e cachorro (também biônico). Claro que nada dá certo: ingênuo, não sabia da escuridão existente na essência humana. O desenho fantasmagórico de Walta, pintado com cores esmaecidas, faz o sonho americano virar pesadelo.

 

gume.jpg16. Gume, de Paula Puiupo
(Independente)

Escrevi sobre Gume logo após o Festival Internacional de Quadrinhos – FIQ, em junho. Puiupo nos convida por um passeio pelos labirintos da memória da protagonista Sôfi, jovem ansiosa por definir sua própria personalidade. Ela começa a trama numa delegacia, sem recordar nada sobre si. Aos poucos, encontra fragmentos para encontrar sua verdadeira identidade – fragmentos esses que se tornam a matéria-prima para a artista surpreender, gerar confusão e beleza.

 

mortcinder15. Mort Cinder, de Héctor Germán Oesterheld e Alberto Breccia
(Figura)

Entre os resgates editoriais realizados no ano passado, a publicação nacional de Mort Cinder ganha o título de mais aguardada. Este monumento da HQ argentina (embora Breccia tenha nascido em Montevidéu) jamais tinha sido lançado em português, e coube à Figura trazer as aventuras do antiquário Ezra Winston com a entidade mística Cinder através da história humana. A arte de Breccia dispensa qualquer comentário, pois é tudo aquilo que se vê (e se sente): pinceladas furiosas num claro-escuro arrebatador, capaz de deixar mestres da pintura como Rembrandt e Caravaggio orgulhosos, ao mesmo tempo em que possui uma carga expressionista intensa. Contudo, quero chamar a atenção também para a prosa de Oesterheld. Seus trabalhos geralmente contém roteiro detalhista, descritivo – e isso não significa monótono. Com construções complexas, mas sem pedantismo, dá ao quadrinho um peso literário único.

 

crumbim.jpg14. Kettling! (e/ou Retrocess|<O>|Especto),
Firehose! (e/ou Conjurar com K Kárie Karcere Kapricho) e Schadenfreude! (e/ou Desamigo Desfecho Dictomia), de Paulo Crumbim
(Independente)

Essa trilogia de zines de Crumbim, definida pelo autor como “três farsas sobre o Brasil atual”, é o tipo de arte nem sempre encontrada em nossas terras: aquela feita a respeito de uma situação atual, cujo conteúdo precisa ser consumido (e refletido) o quanto antes. O autor recapitula o conturbado momento político nacional dos últimos cinco anos usando seu desenho cartunesco e a linguagem veloz da internet. Assim, cria diversas alegorias com a ajuda de memes, emojis, expressões virais e outros termos que tomaram de assalto a comunicação moderna. Do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro, o panorama traçado mostra um país sem rumo, lugar perfeito para se viver na era da pós-verdade.

 

beowulf.jpg13. Beowulf, de Santiago García e David Rubín
(Pipoca e Nanquim)

Em maio de 2017, eu já havia comentado aqui no blog sobre a versão feita por dois autores espanhóis desse poema da antiguidade. Entre as dezenas de adaptações do original fabricadas ao longo dos séculos, dá pra dizer sem medo que essa é a mais visceral. O destaque fica com o desenhista Rubín, que usa todas as artimanhas disponíveis para criar uma explosão sensorial: imagens grandes pontuadas por quadrinhos pequenos (mostrando detalhes da ação), painéis na horizontal (de um lado a outro da página), na vertical (de cima a baixo), splash pages, desenhos dentro de onomatopeias etc. Beowulf mostra como essa mídia pode ser excitante visualmente.

 

desenhados.jpg12. Desenhados Um Para o Outro, de Aline Kominsky-Crumb e Robert Crumb
(Companhia das Letras)

Essa coletânea da colaboração artística, construída por quatro décadas, do casal mais importante das HQs mundiais foi pouco comentada, apesar de ser um lançamento imperdível. O formalismo underground de Robert encontra o primitivismo selvagem de Aline para comentar a rotina da vida de casados, que inclui drogas, aventuras sexuais, hippies, maternidade e a mudança para uma vida bucólica no interior da França. A forma desapegada, sem pudores, com que ambos expõem detalhes privados impressiona. São quem são, sem medo de serem julgados (e acho que esse receio nem passa pela cabeça deles). As histórias contidas no volume seguem influenciando autores contemporâneos, tanto pela temática como pela estética. Sem os Crumb, não existiriam Cynthia B., Power Paola, Alison Bechdel ou Eleanor Davis.

 

semvolta.jpg11. Sem Volta, de Charles Burns
(Companhia das Letras)

Não lembro de uma desconstrução de personagem tão cruel como a feita por Charles Burns neste livro. A princípio, o leitor cria simpatia por Doug, jovem com alma de artista, todo confuso sobre sua vida e apaixonado pela atormentada Sarah. Conforme o roteiro costura pedaços do passado e do futuro às alucinações envolvendo homens-lagarto criadas pelo inconsciente do protagonista, finalmente conseguimos ver a figura toda: sai o bom moço, entra o monstro egoísta e sem compaixão. Até onde os traumas antigos influenciam as más decisões de uma pessoa – e em qual momento se tornam muleta para a falta de caráter? A receita de Sem Volta: nunca confie em sua própria mente, misture uma dose de Hergé e uma de Burroughs no liquidificador, e sirva com uma paleta de cores saturadas.

 

refugiados
10. Refugiados – A Última Fronteira, de Kate Evans
(Darkside Books)

A maior crise humanitária do século acontece neste instante: o êxodo de milhões de árabes e africanos para a Europa, fugindo de guerras civis ou de regimes terroristas em seus países de origem. Kate Evans documenta a situação do campo de refugiados em Calais, na França, que chegou a receber 10 mil pessoas e oferecia condições de vida subumanas aos desabrigados.

A quadrinista narra ao estilo de Joe Sacco, colocando-se como participante dos fatos – até porque atuou como voluntária no local. No entanto, ao contrário do maltês, sempre interessado na descrição jornalística, Evans não tem receio de opinar a respeito daquilo que testemunha. Muitas vezes, fala olhando ao leitor, como se implorasse para nos colocarmos no lugar daqueles sem nada, destinados a morar em contêineres úmidos, rodeados por lixo e ratos, enquanto aguardam autoridades decidirem seus destinos. A obra não se limita a ter relevância temática: funciona muito bem como linguagem, tendo soluções visuais imaginativas, desenhos feitos de lápis de cor e requadros com renda (sutil comentário político, já que Calais é conhecida como a capital mundial do material).

 

terradosfilhos9. Terra dos Filhos, de Gipi
(Veneta)

Gipi (apelido de Gianni Pacinotti) era outro totem do quadrinho europeu que teimava em permanecer desconhecido no Brasil. O multiartista italiano – faz cinema e também escreve – teve Terra dos Filhos publicado pela primeira vez, simultaneamente, aqui e nos Estados Unidos, situação semelhante à de Mort Cinder.

A HQ subverte o tradicional enredo pós-apocalíptico. O foco não está nos motivos do fim do mundo, tampouco na sobrevivência, mas apenas no relato de viver quando nada mais existe – quando nem mesmo a linguagem existe. Dois meninos moram com o pai em uma casa flutuante, isolada de tudo. De repente, precisam encarar sozinhos uma realidade árida, cheia de horror, traduzida pelos diálogos curtos e reduzidos ao mínimo. A arte também representa essa terra morta, cheia de traços inquietos, a meio caminho entre o disforme e o realista. Lá pro meio do livro, uma série de splash pages duplas define a beleza silenciosa deste trabalho, expressando toda a complexidade de ser humano.

 

queda
8. Queda, de Lalo (Clara Onocko)
(Independente)

O começo de Queda, até a página de créditos, te dá a sensação de estar pirado em drogas mesmo sóbrio. Traços que parecem derreter, um cachorro correndo pela rua, duas personagens vivendo a mesma situação, alguém quase sendo atropelado… que sequência desnorteante é essa? Lançado no FIQ, o zine de Lalo consegue sobrecarregar os sentidos do leitor, fazendo uso de uma noção apuradíssima de decupagem e diagramação da página, como poucas obras de 2018.

Depois da loucura do início, a trama ganha um momento de descanso. Após salvar uma criança da morte certa, a protagonista leva a menina para casa, ao mesmo tempo em que busca ajuda para conseguir informações a seu respeito. A partir daí, as coisas voltam a ficar esquizofrênicas: quem afinal é essa criança? Qual a ligação entre as duas? A escalada da estranheza só aumenta até chegar ao final catártico, inesperado, que lembra bastante o de Inverno de Sangue em Veneza – tanto na ambientação arrepiante, embora poética, como na execução. Tudo com o objetivo de comentar sobre a construção da identidade. Uma das coisas mais interessantes em contato com a arte é saber o quão indefesos no papel de espectador nós estamos, submissos aos jogos manipuladores dos artistas. Queda vai te enganar – e você vai adorar isso.

 

cincomil
7. Cinco Mil Quilômetros por Segundo, de Manuele Fior
(Devir)

A influência de Roberto Rosselini paira sobre a produção de Manuele Fior. O pai do neorrealismo criou filmes nos quais a fantasia, a idealização, eram proibidas. A realidade estava acima de tudo – em especial, a dura realidade da Itália destroçada após a Segunda Guerra Mundial. Ao invés de personagens arquetípicos, pessoas reais agindo de forma verossímil. A Entrevista já tinha essa abordagem, apesar de inserir extraterrestres. Cinco Mil Quilômetros por Segundo reafirma a vontade do autor de revelar ao público pequenos momentos da vida ordinária.

Acompanhamos a vida de três amigos (Piero, Nicola e Lucia) desde a adolescência até a meia-idade. Cada capítulo narra diferentes momentos de suas jornadas ao longo dos anos. São cortes bruscos, aos quais o leitor precisa estar atento para fazer ligações e entender os encontros, desencontros e escolhas do trio. Sutileza é a palavra-chave: Fior coloca informações nas entrelinhas, protegendo seus personagens. Cada um deles tem segredos, assuntos mal resolvidos no passado – e não cabe a ninguém fazer juízo de valor. Pintado em aquarela, tem cores que começam quentes e vão esfriando conforme o peso da idade chega. Lindo.

 

senhormilagre.jpg6. Senhor Milagre (volume 1), de Tom King e Mitch Gerads
(Panini)

Esta minissérie em doze partes, cuja primeira metade foi publicada em encadernado pela Panini, mostra a que vem já na segunda página: a splash page dupla aí em cima, Scott Free no chão do banheiro, pulsos cortados, esperando pela morte após tentar o suicídio. Em obras anteriores, Tom King demonstrou ser o melhor escritor de super-heróis da atualidade, capaz de discutir temas socialmente modernos usando os antiquados clichês do gênero. Aqui, faz sua melhor obra até então, utilizando os personagens do Quarto Mundo, criados por Jack Kirby.

Depressão, ansiedade e estresse pós-traumático estão no centro do roteiro. Senhor Milagre precisa lidar com seus próprios demônios interiores enquanto se prepara para uma guerra contra as hordas de Darkseid. A arte de Mitch Gerads acompanha esse estado mental conturbado, fazendo uso de colagens, pixelização, repetição de imagens e efeitos distorcidos, tudo dentro de um grid de nove quadros por página (marca dos trabalhos do roteirista). O tom de dissonância e irrealidade persegue toda a HQ – imagine Twin Peaks protagonizada por pessoas de colã em plena era Trump. A equipe criativa ganhou os prêmios Eisner de melhor escritor e melhor desenhista em 2018. Não por menos: trata-se de um clássico instantâneo da DC Comics.

 

brodeck.jpg5. O Relatório de Brodeck, de Manu Larcenet
(Pipoca e Nanquim)

O sentimento de opressão ultrapassa os limites do aceitável em O Relatório de Brodeck. Assim como o protagonista que dá nome ao gibi, baseado no livro homônimo de Philippe Claudel, o leitor se vê sufocado, sem ter para onde fugir. De um lado, um texto intenso sobre como o ódio envenena o coração das pessoas. Do outro, o nanquim preto soturno que inunda os desenhos de Manu Larcenet.

Brodeck escreve relatórios sobre o solo da região onde mora. Certo dia, os homens de sua vila solicitam-lhe um documento diferente, com a função de explicar os acontecimentos que levaram à morte um estrangeiro residente do local, homem não muito querido pelos demais habitantes. A partir daí, desenrola-se um passeio pelo lado sombrio de nossa espécie, revelando como o medo pode levar (e quase sempre leva) à barbárie. O quadrinista francês traduz isso tudo em um estilo sóbrio de diagramação, e um desenho pesado, porém belo, deixando à vista as marcas deixadas pelas tragédias da vida nos rostos e na psiquê das pessoas. Lançado no finzinho de dezembro, foi uma das maiores surpresas positivas do ano.

 

avidaéboa.jpg4. A Vida É Boa, Se Você Não Fraquejar, de Seth
(Mino)

Seth é uma lenda da produção alternativa americana. Ao lado de Daniel Clowes, Chester Brown e os irmãos Hernandez, ajudou a oferecer uma abordagem mundana às histórias a partir dos anos 1980. Além disso, tem gostos peculiares: vive como se estivesse nos anos 1930. Veste-se de acordo com essa época, é avesso à tecnologia. A Vida É Boa, Se Você Não Fraquejar explora parte desse fascínio pelo passado. O álbum coleta os números 4 a 9 de sua revista Palookaville. Como em vários outros trabalhos, ele mesmo protagoniza a trama: ao pesquisar cartunistas antigos, encontra um tal de Kalo, do qual nunca tinha ouvido falar. A curiosidade logo se torna obsessão, enquanto parte numa jornada pelo Canadá para conseguir informações sobre a descoberta.

A busca por Kalo vira algo secundário enquanto o roteiro se desenvolve. O autor prefere revirar suas próprias memórias enterradas a respeito de família, amores antigos e pequenas experiências perdidas no tempo. O saudosismo pelos “anos de ouro” que ficaram para trás, a melancolia por crescer e ver a contragosto o mundo mudar. Essa obra não é pra todo mundo: vai muito de o leitor se identificar com uma visão pessimista, agridoce das coisas. Quem comprar a ideia, entretanto, encontrará uma sensibilidade ímpar.

 

bichos.jpg3. A Revolução dos Bichos, de Odyr Bernardi
(Companhia das Letras)

Ao transformar a fábula política de George Orwell em HQ, Odyr fez algo muito necessário para o Brasil atual: desenhar as consequências do autoritarismo. A trama segue à risca o texto do escritor inglês – os animais da Granja do Solar se rebelam contra a opressão imposta pelos humanos, tomam o poder e instauram uma sociedade igualitária, mas aí os valores que os levaram à ação começam a corroer por dentro. Obra de leitura essencial em tempos modernos, serve como compêndio das ideias libertárias de Orwell, tendo enormes méritos próprios, e ainda mostra como porcos nem sempre são bons governantes.

 

elesestãoporaí.jpg2. Eles Estão Por Aí, de Bianca Pinheiro e Greg Stella
(Todavia)

Bianca Pinheiro tem uma das produções mais consistentes da HQ nacional. Junto do marido Greg Stella, já tinha produzido o ótimo Meu Pai é um Homem da Montanha. Agora, o casal claramente eleva o patamar de seu trabalho (que já era alto). Eles Estão Por Aí é digno dos grandes criadores alternativos contemporâneos mundiais, artistas que utilizam a reflexão, o incômodo e a multiplicidade de significados como matéria-prima, como Michael DeForge, Jesse Jacobs, Patrick Kyle e Nick Drnaso. O álbum envereda pelos caminhos da metáfora para falar a respeito de temas profundos, sem concessões ou melodrama. Vida, morte e fé são vistos pelos olhos de criaturinhas bizarras, tão perdidas na existência quanto nós, humanos.

 

ayako.jpg
1. Ayako, de Osamu Tezuka
(Veneta)

Em qualquer forma artística, existem obras maiores que a vida. Tão gigantes que definem, ao mesmo tempo que ampliam, as possibilidades de uma mídia. É assim com Guernica, de Pablo Picasso, na pintura; com Três Homens em Conflito, de Sergio Leone, no cinema; com Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, na literatura. É assim também com Ayako, de Osamu Tezuka, nos quadrinhos. Se existe um artista fundamental para o desenvolvimento da linguagem das HQs no século 20, esse alguém é Tezuka. Sozinho, praticamente inventou o mangá e o anime como os conhecemos hoje – elementos japoneses de grande alcance popular, influentes em diversos aspectos da cultura mundial. Criou material para crianças e adultos, com uma produtividade que beira a insanidade.

Ayako poderia ser usado como manual de técnicas narrativas e de desenhos em gibis. O autor aplica todas as ferramentas imagináveis para fazer com que uma história de fôlego, que perpassa décadas, tenha a leveza de uma crônica. Sequências mudas, abstracionismo, expressões cartunescas, distensão e contração do tempo, hachuras, grid fixo de quadros por várias páginas em sequência (emulando uma longa cena sem cortes em um filme), surrealismo, splash pages, narrador onisciente, claro-escuro, ponto de vista subjetivo… A leitura vale por, no mínimo, um semestre no curso de quadrinhos.

Isso sem falar na trama intrincada, tecida com clareza apesar dos vários personagens, situações e locais envolvidos. Tezuka fez a versão nipônica do clássico O Leopardo, livro do italiano Giuseppe Lampedusa. Ambos contam a história de uma família tradicional que vê o poder escorrer pelos dedos com a chegada da modernidade – mas Tezuka opta por ser depressivo e cruel, retratando a aspereza do Japão pós-Segunda Guerra. É como se afirmasse que a natureza humana é má e não tem como fugir dela. A mistura de gêneros também contribui pro enredo fisgar o leitor ao longo de setecentas páginas. O que começa como drama familiar se torna um conto policial procedural (no estilo dos longas alemães de Fritz Lang, especialmente M – O Vampiro de Düsseldorf), depois uma história da Yakuza (com o ritmo da filmografia de Kinji Fukasaku), chegando até mesmo a flertar com o absurdo onírico dos roteiros do diretor espanhol Luis Buñuel. Com isso, não existe queda de ritmo. Os fatos contados nunca ficam desinteressantes.

Enfim, essas palavras não parecem suficientes para descrever a grandiosidade de Ayako. Poucas vezes uma lista de melhores do ano teve um primeiro lugar tão óbvio.

 

 

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3 comentários sobre “Uma humilde lista dos 31 melhores quadrinhos publicados no Brasil em 2018

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